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ARTIGO. Ricardo Ritzel conta um tanto da história do superlendário general gaúcho Antonio de Souza Netto

Na Guerra do Paraguai, junto com Osório, o general Netto e seus homens foram os primeiros a pisar no solo inimigo, em 16 de abril de 1866, abaixo de bala, lanças e espadas. Eram então a elite do Exército Brasileiro. E lá o general foi morto (por lança ou tiro, não se sabe)

Uma certa Brigada de Cavalaria Ligeira

Por RICARDO RITZEL (*)

Antonio de Sousa Netto é o exemplo de cavalariano gaúcho por excelência. Encarnou como poucos a identidade rio-grandense. Tornou-se uma lenda na América Meridional.

Homem do campo criado em lombo de cavalo, exímio no uso de lâminas, revolucionário, abolicionista e rebelde republicano até a medula. Lutou em quase todas as lutas de seu tempo por livre e espontânea vontade. Viveu praticamente em guerra.

Com menos de 20 anos se apresentou para o combate na Guerra Cisplatina. Aos 22, já era capitão de cavalaria da Guarda Nacional nas refregas da fronteira sul. Aderiu em primeira hora à Revolução Farroupilha como coronel e logo foi aclamado general por seus feitos em campos de batalhas contra as forças imperiais. Aos 33 separou a Província de São Pedro do Brasil e declarou a República nos campos do Seival.

Foi o idealizador e líder de dois dos regimentos mais aguerridos do conflito farroupilha: dos lanceiros negros. Depois de Porongos e do Tratado nunca assinado de Ponche Verde, desiludido em seus ideais, se autoexilou em Tacuarembó, no Uruguai, onde passa a criar gado.

Lá conheceu e casou com a uruguaia Maria Medina Escayola. Ele já tinha 57 anos, ela 40. Tiveram duas filhas, Maria Antônia e Teôtonia. Foi o único período de paz em sua vida desde a infância. Mas por pouco tempo.

Em 1851, retornou aos combates na Guerra contra Rosas com sua Cavalaria de Voluntários Rio-Grandenses, organizada inteiramente às suas custas, o que lhe valeu o posto de brigadeiro honorário. No fim das batalhas, seu regimento havia se tornado uma Brigada de Cavalaria Ligeira.

Com a posse de Aguirre como presidente do Uruguai e o início das hostilidades aos fazendeiros gaúchos radicados naquela ainda incipiente Nação (ou as reformas políticas que contrariavam seus interesses econômicos), o mais rebelde dos generais republicanos gaúchos embarca em Montevideo com destino ao Rio de Janeiro e causa furor na Corte ao solicitar uma audiência com Pedro II.

Lá, expõe as suas dificuldades e de seus conterrâneos na Banda Oriental e pede a intervenção das forças imperiais para garantir os negócios. Lá também encontra um imperador reticente e cheio de dúvidas que coloca vários empecilhos em ordenar que tropas brasileiras ultrapassem a fronteira e derrubem o governo “blanco”. Irritado, mas respeitoso, Neto argumenta com o antigo inimigo:

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– “Majestade, não necessito de tropas imperiais. Preciso somente de sua concordância. Eu mesmo formo rapidamente um exército de cinco mil homens, derrubo Aguirre  e coloco um aliado “colorado” na cadeira de presidente do Uruguai”, explicou.

Pedro II, mais curioso do que intrigado e acreditando ser somente uma bravata do veterano guerreiro gaúcho, questiona Neto jocosamente:

– “General, por toda minha vida venho me debatendo nesta questão e ainda não consegui uma resposta. Como se faz para alistar, organizar, armar e municiar um exército de cinco mil homens em tão pouco tempo?”

Neto responde sem hesitar ao imperador:

– “Eu tenho muitos amigos. Estes amigos também tem muitos amigos. E os amigos desses amigos, tem outros amigos”.

E assim, no melhor estilo de caudilho platino, Neto retorna ao Uruguai  e, sem demora, faz renascer a sua famosa Brigada de Cavalaria Ligeira com milhares de “amigos”, peões, agregados, voluntários e gaúchos errantes deste e do outro lado da fronteira. Todos ávidos por “carne gorda, ayre libre, libras de ouro e guerra”.

Só que com características bem diferentes de outras tropas federais: usavam chiripás, botas de garrão de potro, cabelos compridos e além de levarem a bandeira do Império, ostentavam o pavilhão verde, vermelho e amarelo com o brasão da República Rio-grandense. E, sim, seguiriam até a morte seu comandante, pela mais absoluta confiança e admiração.

O imperador, que tinha a toda ficha do antigo inimigo, não se ofendeu com a afronta (ou fez que não), se convenceu da empreitada, perdeu seus medos e invadiu a Banda Oriental.

O lendário general gaúcho Antonio de Souza Netto criou e armou por sua própria conta a lendária Brigada de Cavalaria Ligeira. Lutou em quase todas as lutas de seu tempo e sempre por livre vontade. Viveu a vida toda praticamente em guerra

Netto, como todo bom general gaúcho, estava na frente de seus homens mostrando, de novo, como se faz para vencer uma guerra e novamente se destacou em batalhas, combates e refregas, em especial na mais cruenta delas: o cerco e tomada de Paysandu.

No fim da campanha uruguaia, não pode voltar para sua família em Tacuarembó. O exército paraguaio havia invadido o Rio Grande do Sul e ele e sua famosa brigada de cavalarianos novamente tomaram o rumo da guerra. Desta vez, contra o Paraguai e seu alucinado ditador, Solano Lopez.

Em Uruguaiana, logo após a expulsão dos invasores guaranis, o comandante do exército brasileiro por estas bandas, general Osório, que de bobo não tinha nada, colocou Netto e seus homens em sua vanguarda por toda campanha argentina até chegarem à fronteira paraguaia.

Lá, junto com Osório, foram os primeiros a pisar no solo inimigo, em 16 de abril de 1866, abaixo de balaços, lanças e espadas. E foi assim, com a Brigada de Cavalaria Ligeira na frente, que o exército aliado foi conquistando passo a passo o desconhecido e inóspito território paraguaio.

E quando milhares de soldados de Solano Lopez surgiram de surpresa das matas em volta do Acampamento de Tuiuti, em 24 de maio daquele mesmo ano, o general gaúcho e sua brigada foram cercados por uma força muito superior em gente e armas ao alimentarem a cavalhada no Potreiro Pires.

Lutaram a pé e em retirada por várias horas, mas não deixaram o inimigo envolver o acampamento aliado, fator que decidiria com absoluta certeza a vitória inimiga. Quando as balas guaranis diminuíram e o combate se transforma em uma monumental refrega de lâminas, os cavalarianos de Netto fazem a tropa de Lopez retroceder cada metro conquistado e a voltar para a floresta. Afinal, o combate corpo a corpo com arma branca era a especialidade daquela gente.

Mas a vitória teve seu custo. O lendário general Netto foi ferido na barriga por lança (alguns dizem ser por um tiro), foi transferido para um hospital de campanha em Corrientes, onde veio a falecer por septicemia no dia 1º de junho.

Ele tinha 63 anos.

Com a morte de seu general, a Brigada de Cavalaria Ligeira foi realocada para a chefia do também lendário general Câmara e continuou como força de elite do exército. Com a chegada de Caxias ao teatro de Operações, a gauchada de Netto continuou fazendo a vanguarda brasileira e também a segurança pessoal do novo comandante em chefe das forças da Tríplice Aliança, até sua substituição pelo genro do imperador, Conde D’Eu.

Um pouco antes disto, em 1869, o então cabo de infantaria, Dionísio Cerqueira (**), assim relata em seu livro “Reminiscências da Campanha do Paraguai”, o encontro com os cavalarianos gaúchos na cidade de San Pedro:

Werner Schunemann interpretou o mitológico general na Guerra do Paraguai no filme “Neto Perde sua Alma”, dirigido por Tabajara Ruas

“Quando fui postar a frente de meu contingente, aproximava-se uma força de cavalaria do Rio Grande. Montavam todos a brida, com as pernas estendidas e a ponta do pé apenas tocando o estribo.

Fizeram alto e apearam.

Havia oficiais, inferiores e soldados.

Alguns tinham barbas longas que lhe desciam até o peito, e os cabelos trançados que chegavam até a cintura. Seu guisamento era digno de nota: longas adagas de fortes punhos com virotes em cruz e bainhas de prata lavradas; pesadas chilenas também de prata, com tão longos copetes que lhe chegavam aos artelhos, e cossouros de tal diâmetro que lhe dificultavam a marcha; chapéus de feltro de abas estreitas, cobertos de ganga vermelha e presos por barbicachos de borla à ponta do nariz; bombachas vermelhas ou negras e ponches de bicuinha de cores vivas ou de estofos bordados à seda e agaloados; espadas de ferraduras com três dedos de largura; lanças imensas de conto de prata ou aço polido, de choupa longa e brilhante com galhos direitos ou em meia lua invertidas, os cornos pontiagudos voltados para cima e para baixo, que mais pareciam lâminas de corseques e partasanas alemãs; um par de pistolas à cinta, na pistoleira, que era a larga guaiaca, espécie de balteo coberto de chaparias e moedas, onde guardavam onças e libras de ouro, patacões e bolivianos de prata.

Os cavalos tinham as crinas tosadas em cogotilho e as colas atadas. Cada um tinha em cima um montão de prataria lavrada. As cabeçadas com as grandes meias-luas nas testeiras; as rédeas de bombas ou passadores chatos ou esféricos; As bridas de fortes caimbas, florões e copas, os largos fiadores de chapas ou filagrana, os buçais, os cabrestos, as cabeças de serigotes, os estribos do século XVI de grande picaria com longos boçais cilíndricos ou faceados, as cantoneiras das caronas de pele de tigre, os rabichos e os peitorais; tudo era da mais fina prata lisa ou cinzelada.

Sobre os lombilhos e serigotes, pelegos negros cobertos por uma badana e sobrecincha de couro de lontra, de veado, ou cinchões escarlates bordados e franjeados. Todos tinham boleadeiras, umas de marfim, outras de ferro retovadas de couro presas debaixo dos pelegos do lado da garupa.

Em muitos, viam-se laços bem trançados presos ao cinchador, do lado direito, enrodilhados sobre a anca e atados ao serigote por um tento de lonca. Poucos traziam pendurados na argola da sugicola ou no peitoral a chaleirinha do mate.

Era pitoresco. Havia altos e robustos, claros, de olhos azuis e cabelos alourados; outros morenos, musculosos, de cabeleiras negras e lisas e barba rarefeita; alguns de lábios grossos, dentes alvos, maças do rosto salientes, nariz achatado e cabelos cacheados caindo nos ombros. Um ou outro negro. Parecia uma cabila de guerreiros da Mauritânia. Faltavam-lhes os albornozes.

(…) Aqueles bárbaros, todos bravos e alguns de bom coração, julgavam o saque natural e muito lícito. Era a herança que tinha ficado da raça de seus antepassados. Saquearam o que puderam”.

Em 1966, no centenário da morte do general Netto, comandante e idealizador da 1ª Brigada de Cavalaria Ligeira Rio-Grandense, seus restos mortais foram exumados e transferidos para um mausoléu em Bagé, sua cidade natal.

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(*) RICARDO RITZEL é jornalista e cineasta. Apaixonado pela história gaúcha é roteirista e diretor do curta-metragem “Gumersindo Saraiva – A última Batalha”. Também é diretor de duas outras obras audiovisuais históricas: “5665 –Destino Phillipson”, e “Bozzano – Tempos de Guerrra”. Ricardo Ritzel escreve neste site aos sábados.

(**) Dionísio Cerqueira se alistou como voluntário da Pátria na arma de infantaria para a guerra contra Solano Lopez e voltou para o Brasil já como official, por sua conduta em campo de batalha. Mais tarde, chegou ao posto de general do Exército brasileiro.

Bibliografia:

Reminiscências da Campanha do Paraguai, de Dionísio Cerqueira, Biblioteca do Exército, edição especial de 1980

Nota do Editor. As fotos que ilustram esse artigo são reproduções ou, no caso do ator Werner Schunemann, de Divulgação do filme “Neto perde sua alma”

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2 Comentários

  1. Primeiro: Tabajara Ruas há que se assistir cum grano salis.
    Segundo: no Paraguay o Mariscal Solano Lopez tem monumentos para todo canto porque combateu o imperialismo brasileiro.
    No mais, loco de especial.

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