ARTIGO. Ricardo Ritzel e João Niederauer Sobrinho, coronel de Santa Maria, herói na Guerra do Paraguai

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Igreja Nuestra Señora Del Rosário, em Villeta, provável local de sepultamento. Na ilustração destacada, o mesmo local à época do conflito

O coronel volta da guerra      

Por RICARDO RITZEL (*)

No final de outubro de 1864, o 7° Corpo de Cavalaria da Guarda Nacional deixa a Vila de Santa Maria da Boca do Monte em direção à fronteira uruguaia.

Eram seis esquadrões, cada um deles com, em média, 58 integrantes, chegando a um total de 396 homens. Cada esquadrão era comandado por um capitão e tinha como subalternos um tenente, um alferes, um 1º sargento, dois 2º sargentos, um furriel, seis cabos e um corneteiro.

O Estado-Menor era formado por um corneteiro mor, um sargento quartel-mestre e um sargento-ajudante. O Estado-Maior era composto por um alferes-secretário, um tenente quartel-mestre, um major e o comandante, o tenente-coronel João Niederauer Sobrinho.

A sua missão, dada expressamente pelo imperador Don Pedro II, era se unir as milícias “coloradas” do general Flores e as tropas argentinas do presidente Mitre para derrubar o governo “blanco” de Aguirre.

Naquele momento, eles eram parte da melhor tropa brasileira, a mais preparada, a mais experiente em guerras, batalhas, combates e refregas: a cavalaria rio-grandense. Enfim, aqueles homens eram a elite do ainda incipiente exército brasileiro.

Finda a campanha uruguaia, eles não voltaram para casa. O exército paraguaio havia invadido o Rio Grande do Sul e Mato Grosso e o destino do 7º Corpo de Cavalaria de Santa Maria era naquele momento o maior e mais sangrento conflito da América do Sul: a Guerra do Paraguai.

Quatro anos depois, Niederauer já era um condecorado coronel que havia liderado heroicamente seus esquadrões em 14 combates e duas batalhas. Era homem de confiança de seu superior direto, general Andrade Neves, assim como de Caxias, o então comandante geral da Tríplice Aliança, que delegava a ele as mais importantes e arriscadas missões.

Por outro lado, entre os inimigos, tinha a admiração que somente os grandes guerreiros conquistam em combate, além do respeito natural de prisioneiros e feridos, sempre tratados com magnanimidade e, sobretudo, humanidade pelo coronel santa-mariense.

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Coronel João Niederauer Sobrinho, herói santa-mariense ainda no Paraguai

Sua cavalaria sempre esteve na vanguarda do exército aliado. Em um Paraguai ainda desconhecido, inóspito e sem nenhum mapa que pudesse orientar aqueles soldados, ele e seus homens fizeram grande parte do reconhecimento do terreno, sempre em constantes refregas com o inimigo.

Seus feitos e atitudes no conflito guarani foram contados e recontados em obras clássicas, como a de Dionísio Cerqueira, Tasso Fragoso e José Bernadino Bormann, além de historiadores paraguaios e memórias escritas pelo próprio inimigo.

E foram tantas ações arriscadas e com tremenda bravura que é unânime entre seus contemporâneos na campanha paraguaia, assim como historiadores do conflito, que se não fosse atingido mortalmente por uma lança inimiga, teria se tornado o comandante geral das forças aliadas a volta de Caxias ao Brasil, depois da Tomada de Assunção.

Em um desses feitos, na estratégica Batalha de Itororó, lutou literalmente de peito aberto na vanguarda brasileira contra um inimigo muito bem posicionado, em maior número e com artilharia à disposição. Depois de quatro tentativas, quebrou a resistência paraguaia, completou o cerco aliado às tropas inimigas e ainda salvou o general Luis Alves de Lima e Silva da morte certa ao, em uma ação corajosa e praticamente suicida, jogar seu cavalo sobre um grupo de infantes que perseguiram e cercaram o futuro Duque de Caxias com nítido objetivo de matà-lo.

Perdeu seu cavalo, morto na temerosa ação, mas logo estava cavalgando em uma montaria reserva e ainda perseguiu o que sobrou das forças inimigas por três léguas.

Alguns dias depois, na célebre Batalha do Avaí, assim foi descrita pelo então infante Dionísio Cerqueira a entrada em combate de Niederauer junto com seus cavalarianos gaúchos:

“De repente, os batalhões inimigos manobraram rápidos e formaram quadrados. Por que desta manobra? Não víamos cavalaria por perto. Só a artilharia jogava seus schrapnels certeiros e a infantaria tiroteava à distância.

Surgiram em seguida, como por encanto, nas fraldas das colinas, pela direita (liderados pelo coronel João Niederauer) e pela esquerda ( pelo coronel Vasco Pereira), além do arroio onde pelejavam no alto os quadrados escalonados, os nossos belos regimentos de cavalaria rio-grandenses, de lanças perfiladas e as banderolas vermelhas e brancas tremulando, como indicando o caminho da vitória.

Ouvimos o som vermelho dos clarins e todas aquelas lâminas rutilantes se abaixaram e as bandeiras sumiram. Era a carga. Uma carregava sobre a outra.

Quando cessou a épica refrega e os esquadrões se reformaram, não havia mais quadrado em pé. Todos haviam sido esmagados pela avalanche fatídica”.

Garantida a vitória para as forças brasileiras, Niederauer volta ao campo de batalha para socorrer camaradas feridos, assim como inimigos paraguaios que agonizavam em torno do Arroio Avaí. Neste momento, foi atingido por um golpe de lança de um jovem soldado inimigo que havia se escondido na densa vegetação do local. Infeccionado o ferimento, morreu dois dias depois em um hospital de campanha na cidade de Villeta e lá foi sepultado.

Com o passar do tempo, a sepultura do herói santa-mariense nunca mais foi encontrada.

Até agora!

A novidade é que o pesquisador Juan Farinolli Niederauer, que também é tetraneto do coronel, praticamente encontrou a tumba que abriga há mais de 150 anos os restos mortais do célebre cavalariano rio-grandense, e deve repatriá-los em breve para o Rio Grande do Sul, quando também lançará um livro sobre a vida e feitos do coronel santa-mariense.

O livro e o volta do coronel para casa também serão transformados em filme (ou minissérie) com equipe técnica santa-mariense. A previsão de lançamento do livro e início das gravações no Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai é tão logo passe este período de pandemia, possivelmente no início de 2021.

Abaixo, o depoimento do pesquisador que vai trazer o lendário coronel para casa depois de mais de 150 anos.

Em busca do coronel

Por  Juan Francisco Farinoli Niederauer (**)

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O pesquisador e escritorJuan Niederauer, tetraneto do coronel, no exato local onde foram encontrados oficiais da cavalaria rio-grandense sepultados

Na primavera de 1864, o coronel João Niederauer Sobrinho partiu do Rio Grande do Sul para mais uma guerra na América Meridional.  O destino era o Uruguai e, mesmo sem ele ainda saber, a longa campanha contra o Paraguai de Solano Lopez que viria a seguir.

Foi a derradeira despedida do Comandante do 7° Corpo de Cavalaria da Guarda Nacional de sua família, de seus amigos e de sua Vila de Santa Maria da Boca do Monte.

E, segundo a tradição oral da família Niederauer, foi também o momento de seu último pedido: – “Caso venha morrer, não abandonem meu corpo em solo estrangeiro. Tragam-me de volta ao Brasil”.

Hoje, 152 anos depois de sua morte na cidade de Villeta, o coronel continua sepultado em terra guarani.

Por isto, também por eu ser seu descendente direto e, principalmente, por ele ser um dos mais valentes e lendários integrantes da cavalaria rio-grandense, a repatriação de seus restos mortais será até o último dia da minha vida o meu mais importante desafio.

Niederauer foi aquele autentico herói oculto que emprestou sua bravura e valentia para que, hoje, outros nomes apareçam nos livros de história como autores de grandes realizações militares e atos de uma humanidade ímpar em meio ao caos do maior conflito militar da América Latina.

Porém, basta lermos documentos oficiais de todos os países envolvidos na Guerra do Paraguai, assim como autores contemporâneos do coronel da cavalaria rio-grandense, para se descortinar uma lista enorme de façanhas desse personagem tão esquecido na História brasileira.

Divulgar esses feitos, é também um dos principais objetivos de meu trabalho.

A pesquisa para localizar os restos mortais do meu tetravô e trazê-lo de volta para casa iniciou em 2018, logo após vários anos de estudos sobre a vida e morte deste grande homem.

No começo, me deparei com várias teorias sobre seu sepultamento. A mais conhecida apontava o Cemitério Comunitário de Villeta, local onde há vários anos já tinha sido visitado por pesquisadores brasileiros com o mesmo objetivo, mas novamente seus restos mortais não foram encontrados.

Porém, depois de uma pesquisa mais aprofundada sobre o lugar para onde Niederauer foi levado, logo após ser ferido, em 11 de dezembro de 1868, me ajudou a determinar um cemitério particular como o provável local que procurava: a parte dos fundos da Iglesia Nuestra Señora del Rosario, onde funcionou um Hospital de Sangue das tropas brasileiras

Logo, comecei a levar adiante os passos formais para trabalhar no local. O primeiro foi entrar em contato com historiadores e pesquisadores paraguaios, que muito me ajudaram, como Carlos Von Horoch e Ezequiel Pereira.

Também estive reunido com autoridades daquele país, como a deputada nacional Rocio Vallejos e o ministro da Defesa, general Bernardino Soto Estigarribia. Os meus projetos foram passados diretamente para o presidente da República do Paraguai e, rapidamente, as autorizações para localizar Niederauer foram liberadas.

Pelo lado brasileiro, tive a inestimável colaboração do meu caro amigo, Professor José Antonio Brenner, do general Schons (ex-comandante da Brigada Niederauer, hoje, radicado em Brasília) e a do General Pimentel, atual comandante da Brigada Niederauer, assim como de muitos de meus familiares, todos descendentes do lendário coronel de cavalaria.

Autorizações dadas e com a ajuda de aparelhos para detectar metais, começamos a buscar por botões e acessórios que identificassem a arma, o posto e a nacionalidade daqueles soldados ali sepultados.

Encontramos, então, sete locais com potencial para abrigarem a tumba do coronel. Todos em um espaço bastante reduzido no antigo campo santo da Iglesia Nuestra Señora del Rosario.

Foi neste momento que surgiu uma sólida pista sobre a localização exata da tumba do coronel: na década de 1970, durante uma grande reforma na referida igreja, trabalhadores encontraram a sepultura de três oficiais da cavalaria rio-grandense. Ao tomar conhecimento do fato, o padre responsável pela paróquia ordenou que não fossem removidos e os restos mortais dos soldados foram mantidos no mesmo local.

Consegui identificar o religioso, já entrei em contato com ele e tão logo seja possível viajar a cidade Villeta, a grandes chances de identificar rapidamente e com segurança onde o coronel repousa em terras paraguaias

A próxima etapa, adiada pela atual situação mundial, é a do escaneio do solo com máquinas especializadas, para logo fazer as escavações, exumações e exames finais que irão determinar com extrema precisão qual daqueles bravos ali enterrados é o nosso personagem.

É uma emoção imensa saber que estamos chegando bem perto de cumprir com o pedido de Niederauer e realizar o seu, e o meu, sonho de trazê-lo de volta pra casa.

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Santa Maria homenageia seu herói de guerra com o nome de uma Brigada de Exército, uma rua central e busto (foto) inaugurado em 1922

(*) RICARDO RITZEL é jornalista e cineasta. Apaixonado pela história gaúcha é roteirista e diretor do curta-metragem “Gumersindo Saraiva – A última Batalha”. Também é diretor de duas outras obras audiovisuais históricas: “5665 –Destino Phillipson”, e “Bozzano – Tempos de Guerrra”. Ricardo Ritzel escreve neste site aos sábados.

 (**) Juan Francisco Farinoli Niederauer é tetraneto do lendário coronel, pesquisador de sua vida e feitos e, em breve, deve lançar um livro sobre seu antepassado. Uma minissérie (ou longa metragem) baseada na pesquisa já está sendo construída, com estimativa de lançamento em 2022.

Nota do Editor. As fotos são dos arquivos de Juan Francisco Niederauer e José Antonio Brenner (a do busto na praça)



1 comentário

  1. O Brando

    Faltou a sigla mágica DNA. No mais, bom como de hábito. Alás, o Instituto de Biologia do Exército tem um Laboratório de Genética Forense.
    Conde d’Eu que assumiu o comando das tropas tinha sido capitão de artilharia do exercito espanhol. Lutou no Marrocos. Não era só marido da princesa.

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