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ARTIGO. Ricardo Ritzel conta o que viram Agueda e Hermito, 2 testemunhas da “batalha de Santa Maria”

Centro de Santa Maria em 1925 – um ano depois, a Praça Saldanha Marinho foi o palco de combates entre tenentistas e brigadianos (Foto Venâncio Schleiniger – Acervo do Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria – Wagner Serafini dos Santos)

Eles estavam na Batalha de Santa Maria (final)

Por RICARDO RITZEL (*)

Na madrugada do dia 16 de novembro de 1926, os tenentes Nelson e Alcides Etchegoyen sublevaram o 5º RAM (atual Regimento Mallet) e os tenentes Yguatemy Moreira e Heitor Vale dominaram o 7º RI, dando voz de prisão ao seu comandante.

Auxiliado por sargentos e recrutas das duas unidades militares, rapidamente se apoderaram de canhões, metralhadoras, fuzis e farta munição. Em seguida, enviaram patrulhas de vanguarda para identificar as posições da Brigada Militar.

Exatamente às 5h45 daquela manhã, a cidade foi acordada com toques estridentes de clarim e, logo após, os primeiros tiros de canhão foram disparados na frente do 7º Regimento de Infantaria. Os alvos eram posições legalistas no Centro de Santa Maria liderada pelo major Aníbal Barão, então comandante interino do 1º Regimento de Cavalaria da Brigada Militar.

Famílias inteiras começaram a buscar abrigo em porões de suas residências ou saíram em fuga descontrolada para periferia da cidade. Seguiu-se a outro tiro de artilharia, e mais outro, e assim sucessivamente.

Os 12 canhões rebeldes passaram todo aquele dia bombardeando posições da Brigada Militar ao longo da linha de frente legalista. Em especial, vomitaram petardos na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Silva Jardim, onde uma encarniçada defesa estava sendo liderada pelo capitão Jorge Pelegrino Castiglione, conforme pesquisa de Hermito Lopes Sobrinho, em seu livro “A Revolta em Santa Maria”.

E mesmo os rebeldes possuindo uma contingente maior e armamento muito superior a tropa brigadiana, encontraram pela frente uma aguerrida defesa da cidade com homens experientes em combate muito bem posicionados e fazendo uso disto.

Com a chegada da noite, a chuva, que durante todo o dia fora uma garoa, se transforma em um aguaceiro torrencial, assim como também se intensifica, e muito, o combate pelo controle da Santa Maria.

À meia noite, o aumento ainda maior de petardos sobre a cidade e o pipocar contínuo e constante das metralhadoras rebeldes camuflam a retirada dos revolucionários que, completamente exaustos depois de quase 24 horas de combate, tomam o rumo da fronteira.

Não foram perseguidos por total falta de recursos e completa exaustão de soldados e oficiais da Brigada Militar. Era o fim da noite mais longa da história de Santa Maria da Boca do Monte.

Dias depois, os revolucionários se entrincheiraram na Serra do Seival, onde atraíram e derrotaram um forte contingente legalista comandado por Osvaldo Aranha.

Com muitas perdas e baixas depois da luta no Seival, a Coluna rebelde incorpora na tropa do lendário general Zeca Netto e, juntas, ocupam a cidade de São Sepé.

Já novamente em movimento, no Natal de 1926, um destacamento legalista encurralou os revolucionários nas serras de Santa Bárbara e os derrotou com força e causando muitas baixas.

Quem e o que sobrou da Coluna revolucionária tenentista foram obrigados ao exílio e entraram Uruguai adentro no dia 5 de janeiro de 1927, pela localidade de Três Vendas.

Os depoimentos abaixo são de quem presenciou esses acontecimentos em Santa Maria naquele já distante novembro de 1926. É o olhar de quem é testemunha primária da história. A nossa História!

O pesquisador e escritor santa-mariense Hermito Lopes Sobrinho relembrou a sua infância e escreveu um livro sobre a Revolta de 1926. Já a professora Agueda Brazzale Leal lembrou da menina de 13 anos que assistiu aos acontecimentos daquele novembro (fotos Reprodução)

Memórias do Porão – Professora Agueda Brazzale Leal

O dia 16 de novembro de 1926 começou normalmente para menina Agueda Brazzale, de 13 anos de idade. Naquela manhã, ela saiu cedo de casa, na Avenida Rio Branco, para frequentar as aulas na Escola Santa Terezinha, onde hoje é o Colégio Manoel Ribas.

Pouco depois, viu seu pai ir buscá-la na escola bastante preocupado, nervoso. Havia começado uma revolta de militares na cidade.

No retorno para casa, por volta das 8 horas da manhã, um pelotão da Brigada Militar estava se posicionando na Avenida Rio Branco, exatamente na frente de sua residência. Seu pai teve que pedir permissão para passar.

Lembro bem quando comandante daquele pelotão falou que devíamos nos proteger dentro de casa e, no mesmo instante, começaram os tiros de canhão e a fuzilaria lá pelo centro da cidade, pelos lados do quartel da Brigada. Naquele momento fiquei mais curiosa do que com medo”, lembrou a professora Agueda Brazzale Leal, oito décadas depois.

E assim foram se passando as horas do dia para aquela menina. Tiros de canhão, de fuzis e longos silêncios. Outro tiro de canhão, mais fuzilaria e outro silêncio.

Os vizinhos trocavam informações pelos pátios das casas. Os movimentos dos rebeldes, a resistência dos brigadianos e os possíveis alvos. Tudo era falado e repassado pelos fundos as residências daquela Santa Maria da década de 20.

Com sua memória privilegiada, Agueda Leal recordou também que, próximo das 17 horas, aquele mesmo comandante do pelotão próximo a sua casa avisou sua família que os rebeldes estavam se preparando para realizar um forte ataque de artilharia contra as posições da Brigada. Sendo que os principais alvos eram o prédio da Prefeitura (atual Câmara de Vereadores de Santa Maria), a estação ferroviária e o serviço de telégrafo que funcionava junto à gare naquela época. Todos locais bem próximos da casa de seus pais.

A orientação da Brigada Militar era de evacuar a cidade para evitar baixas civis. Mas minha mãe foi contra a ideia e sua opinião foi compartilhada pela nossa vizinha, Dona Tudinha Benicá: era mais seguro ficar em casa do que um descampado qualquer.

E assim foi feito!

No fim da tarde daquele dia, quando os tiros e explosões começaram a se aproximar de nossa casa, eu, meus pais e meus irmãos nos abrigamos no porão da família Benicá. Ouvi os adultos falarem que o 7º RI estaria atacando a Prefeitura na Rua Silva Jardim e o 5º RAM iria atacar, ou já estaria atacando, a gare da viação férrea pela Rua 7 de setembro”, relembrou a professora.

Na manhã do dia 17, ao saírem do porão, Dona Agueda se recorda das capsulas de fuzis no pátio, das conversas quase escondidas dos mais velhos sobre mortos e feridos e que as aulas só voltaram alguns dias depois.

O certo é que aquela noite no porão foi inesquecível para aquela menina com a expectativa de grandes acontecimentos. Os clarões das granadas, o pipocar das armas, o nervosismo dos adultos.

Tudo para nós, crianças daquele porão, era uma grande aventura. E o resultado destas recordações é que, nestes momentos, voltei a ser aquela menina de 80 anos atrás”, concluiu Agueda Brazzale Leal.

O Menino e a Revolução – Hermito Lopes Sobrinho

Na manhã do dia 16 de novembro de 1926, o jovem Hermito Lopes Sobrinho estava jogando bola com um primo na antiga Rua Figueiredo, próximo da estação ferroviária, quando os canhões comaçaram a atuar.

– “Tive que ir para dentro de casa”, lembrou-se de seus nove anos o professor, escritor e pesquisador santa-mariense, autor do livro “A Revolta em Santa Maria”. Hermito teve sua vida completamente transformada pelos acontecimentos daquele já distante dia.

– “Minha mãe estava bastante doente e meu pai e um primo chamado Euclides Lopes Oliveira estavam envolvidos diretamente na luta ao lado dos revoltosos.

Naquele mesmo dia meu pai foi considerado morto em combate e, pouco tempo depois, minha mãe faleceu. Mais tarde ficamos sabendo que meu pai tinha conseguido escapar e estava exilado no Uruguai. Perdi meu pai e minha mãe naqueles dias”, relembrou o professor.

– “Me recordo bem do Desfile da Vitória dos brigadianos. Os soldados vinham com flores dentro dos canos dos fuzis e traziam prisioneiros rebeldes pelas ruas de Santa Maria. A população ovacionava a tropa com aplausos e vivas”.

Depois dessas lembranças da infância, Hermito explica que somente veio a pesquisar os acontecimentos bem mais tarde, a pedido de sua filha, Betina, que demonstrou curiosidade em saber mais sobre a vida de seu avô e seu envolvimento nas diversas revoluções e levantes nos anos 20 do século passado.

De suas pesquisas, o escritor ressalta alguns pontos que acredita serem relevantes aos acontecimentos de novembro de 1926.

– “O coronel Enéias Pompílio não tomou nenhuma providência para abafar o movimento, mesmo quando toda Santa Maria já sabia da iminência do levante dos tenentes. Possivelmente para não criar mais conflitos entre a oficialidade da época, mesmo sendo abertamente conspiratórios os seus preparativos.

O comandante do 5º RAM se apresentou na manhã do dia 16 para o alto comando da Brigada Militar e, logo, recebeu o comando geral da tropa do Major Aníbal Barão. Ao ouvir a estratégia do major brigadiano para defesa da cidade, se convence da solidez do plano com tamanha riqueza de detalhes que imediatamente devolve a ele o comando geral da tropa legalista. É bastante plausível acreditar que a Brigada Militar tenha elaborado a defesa da cidade com bastante antecedência aos acontecimentos”, enfatiza o pesquisador.

Ele também relembra que suas pesquisas constataram que o maior número de brigadianos mortos e feridos foi de soldados músicos em um enfrentamento que aconteceu perto atual Colégio Cilon Rosa e, encerrando suas memórias, salienta que não foi o Exército Brasileiro que se rebelou, e sim quatro tenentes que prenderam oficiais superiores e alguns sargentos comandando uma tropa de recrutas.

E a consideração mais importante que Hermito faz daquele dia de novembro de 1926: sua vida nunca mais foi a mesma!

Rua Doutor Bozzano em 1925 – a antiga primeira quadra, hoje Calçadão Salvador Isaia, estava exatamente na frente de combate durante a Batalha de Santa Maria (Foto Acervo Casa de Memória Edmundo Cardoso – restauração. José Antonio Brenner -jul/2013)

OBSERVAÇÃO: As entrevistas com a professora Agueda Brazzale Leal (in memoriam) e o pesquisador e escritor Hermito Lopes Sobrinho (in memoriam) foram realizadas em novembro de 2006 e publicadas pelo autor no jornal A Razão, de Santa Maria, no dia 16 de novembro daquele ano, em matéria sobre os 80 anos da Batalha de Santa Maria.

Clique AQUI e leia a 1ª parte do artigo A Batalha de Santa Maria.

Clique AQUI e leia a 2ª parte do artigo A Batalha de Santa Maria

(*) RICARDO RITZEL é jornalista e cineasta. Apaixonado pela história gaúcha é roteirista e diretor do curta-metragem “Gumersindo Saraiva – A última Batalha”. Também é diretor de duas outras obras audiovisuais históricas: “5665 – Destino Phillipson”, e “Bozzano – Tempos de Guerrra”. Ricardo Ritzel escreve neste site aos sábados.

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2 Comentários

  1. Muito bom. Cabe lembrar que na revolução de 30, quatro anos mais tarde, todos estavam, se não me engano do mesmo lado. Acredito que a tropa de revoltosos no acontecido era menor.
    Onde hoje é o Cilon Rosa tinha outro aspecto. Na década de 60, anos mais tarde, havia uma cia do exercito ali aquartelada. A Vila Militar ficava no limite da cidade. Havia um banhado ali por perto e também uma sanga.
    A foto mostra ao fundo a direita o banco (a cúpula) que foi demolido para construção do Banrisul. Rua Dr. Bozzano, que era advogado, dois anos antes era, se lembro bem, Rua do Comércio.

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