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ARTIGO. Luciano do Monte Ribas, a gare e a decisão liminar da Justiça Federal, que tranca a cessão do local

A arrogância é inimiga da eficiência

Por LUCIANO DO MONTE RIBAS (*)

A arrogância é, de forma geral, uma característica condenável. Seu “exercício” dificilmente gerará alguma consequência positiva, mesmo que uma hipotética “boa intenção” possa mover a pessoa que age de forma arrogante. Afinal, a própria definição da palavra (obtida AQUI no Dicionário Online de Português) evidencia seu caráter negativo: “prepotência; atitude de quem se sente superior aos demais ou da pessoa que assume um comportamento prepotente, desprezando os outros”.

Porém, de todas as áreas onde o ser humano está presente, talvez a gestão pública seja aquela onde a arrogância é ainda mais imperdoável. Para não nos alongarmos em exemplos, pensemos no néscio que ocupa a presidência da República, em todas as suas atitudes questionáveis e nas suas infindáveis excrescências verbais. Provavelmente, lembrar delas seja o bastante para amparar meu argumento e, assim, irmos adiante…

Nessa semana, a Justiça Federal determinou a suspensão do processo de cessão da Estação Ferroviária à iniciativa privada, entendendo que ele não está em conformidade com a legislação brasileira.

Essencialmente, a Justiça (e, antes dela, o MP) fez alguns dos mesmos alertas que pessoas e grupos que desejam ver a Gare preservada e exercendo plenamente suas funções culturais, turísticas e educacionais vinham fazendo. Entre essas pessoas, este que vos escreve, ex-presidente do Conselho Municipal de Política Cultural (CMPC) e membro do Coletivo Memória Ativa.

Antes de recorrermos à Justiça, no entanto, buscamos de todas as formas sensibilizar a secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Inovação para que ela modificasse aspectos relevantes do edital, aperfeiçoando o processo e tornando-o democrático e participativo. Foram reuniões presenciais, artigos na imprensa, textos entregues e debates públicos, sempre demonstrando a necessidade de que o diálogo ocorresse.

Queríamos e queremos coisas simples: uma audiência pública, mesmo que online, para que a comunidade possa opinar; a discussão do edital no CMPC, onde 20 segmentos culturais estão representados; definir o espaço mínimo que os usos previstos no convênio que cedeu a área à Prefeitura devem ter; incluir representantes da secretaria de Cultura, Esporte e Lazer e do CMPC na comissão de avaliação. Nada capaz de atrasar o processo como um todo, desde que não fosse o calendário eleitoral a determinar os prazos desejáveis.

Fomos ouvidos, mas nunca escutados. Pelo contrário, pois não deixou de existir a tentativa de colocar nessas pessoas e grupos a pecha de “reclamões” e “do contra”, velha cantilena de quem não está nem aí para o patrimônio histórico, cultural e arquitetônico. Manobra mesquinha que, infelizmente, volta a ocorrer na tentativa de mascarar o óbvio: a arrogância de quem insistiu no erro é a verdadeira responsável pelo atraso na recuperação da antiga Estação.

Mas, para quem defende a preservação da Gare com novos e relevantes papéis no desenvolvimento da cidade (sobretudo nas atividades ligadas à economia criativa), a decisão da Justiça não é uma vitória, na tradução plena da palavra, embora seja um “mal necessário”. Até porque quem deve “vencer” nesse processo é a cidade como um todo, recebendo de volta um patrimônio destruído pela privataria tucana dos anos 90. E isso ainda pode ser alcançado, se houver humildade e inteligência emocional por parte dos gestores municipais.

Em resumo, é hora da Prefeitura abandonar a atitude arrogante e exercitar a construção positiva que há meses temos buscado. Ouvindo, sim, mas também escutando.

(*) Luciano do Monte Ribas é designer gráfico, graduado em Desenho Industrial / Programação Visual e mestre em Artes Visuais, ambos pela UFSM. É presidente do Conselho Municipal de Política Cultural e um dos coordenadores do Santa Maria Vídeo e Cinema, além de já ter exercido diversas funções na iniciativa privada e na gestão pública.

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Observação do autor, sobre a foto “Apoxiômeno” – cópia romana em mármore (século I) do original grego de bronze (c. 320), feito pelo escultor Lísipo. A estátua está no Museu Pio-Clementino, no Vaticano.

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7 Comentários

  1. Ensinando para OBRANDO
    o·brar – Conjugar
    (latim operor, -ari, ocupar-se em, trabalhar, levar a efeito, exercer, praticar)
    verbo transitivo e intransitivo
    1. Fazer um trabalho, uma tarefa. = TRABALHAR

    2. Pôr em obra. = FAZER, REALIZAR

    3. Operar.

    4. Causar.

    OBRANDO, ato ou efeito de OBRAR. Extraido do dicionário

    verbo intransitivo
    5. Proceder.
    6. Expulsar os excrementos pelo ânus. = DEFECAR, EVACUAR
    “obrar”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/obrar [consultado em 31-08-2020].

    1. Kuakuakua!
      No meu caso é copia descarada do Barão de Itararé. É evacuar mesmo.
      Não carecia de consultar o amansa burro. Kuakuakua!

  2. Atento a tudo, pude notar que o comentário do Homero Antunes Boucinha é sensato e se identificou publicamente.
    O outro é um comentário ARROGANTE, fazendo juz ao titulo do artigo, a ponto do redator escoder-se atrás de um pseudo nome, O Brando.
    Acho que no Ministério Público ainda tem gente sensata.

    1. Grande abraço Jaguaraassu! E sempre bom saber que a pedra atingiu a vidraça! Grato também pelo tempo dispendido na argumentação!

  3. Por partes. Coletivo Memória Ativa é um soviet cultural que não tem procuração para representar ninguém além dos próprios integrantes.
    A Associação Amigos da Gare – Associação Cultural de preservação Histórico-Ferroviária, de Santa Maria era o único grupo na disputa. Situação idem no quesito representatividade.
    Quanto a gare ambos os grupos aparentam não ter dinheiro (um nem concorreu)para fazer nada. Iriam precisar de vaquinhas e dinheiro publico. Ou seja, iria ficar 15 anos tudo parado.

  4. A prefeitura de Santa Maria foi alertada, em tempo hábil, sobre as incongruências técnico-juridicas, bem como foi questionada quanto às generalidades e incertezas sobre a gestão cultural da Gare.
    Infelizmente, a prefeitura seguiu a trilha da insensatez, que acaba onde começou.
    O que fazer agora?
    Recomeçar, da forma correta, conforme os padrões do Direito, da Arte e da Democracia!

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