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COLUNA. José Mauro Batista e a volta de algo comum na ditadura: a antidemocrática “arapongagem federal”

Movimentos antifascistas na mira da bisbilhotagem federal – exatamente como aconteceu nos tempos da ditadura, inclusive na UFSM

Arapongas de plantão

Por JOSÉ MAURO BATISTA (*)

É gravíssima a notícia sobre um dossiê com informações de quase 600 servidores públicos produzido pelo Ministério da Justiça. A existência desse relatório sigiloso veio a público em reportagem do Portal UOL, na semana passada, e ensejou pedido de informações do Ministério Público Federal gaúcho ao órgão federal.

O alvo da bisbilhotagem seria um grupo de 579 servidores federais e estaduais da área de segurança identificados como antifascistas, além de três professores universitários. Conforme o UOL, o Ministério da Justiça elaborou esse relatório com nomes e até fotografias e endereços das pessoas monitoradas.

As informações teriam sido obtidas por meio de espionagem nas redes sociais feita pela Secretaria de Operações Integradas, a Seopi, criada pelo governo Bolsonaro e que funciona como serviço de inteligência ligado ao MJ. Tudo leva a crer que o governo está bisbilhotando a vida de adversários políticos com o objetivo de, no mínimo, amedrontar a sociedade. Esse instrumento, porém, poderá ser usado para perseguir quem discorda do poder central.

E NA BOCA DO MONTE…

Mas o que isso tem a ver com Santa Maria? Muito. Nos tempos da ditadura militar, a exemplo de outros locais do país, servidores públicos foram duramente ameaçados, perseguidos e até demitidos. Na Universidade Federal (UFSM), militares vigiavam tudo o que acontecia. Foi criada a Assessoria de Segurança de Informações (ASI), considerada o braço do regime dentro da instituição. Essa comissão tinha o objetivo de investigar quem fosse considerado adversário do regime.

Um professor aposentado me contou certa vez que foi chamado a dar explicações a um coronel do Exército sobre suas aulas nos cursos de Saúde. O docente, que nunca militou em movimentos de esquerda, era acusado de tentar doutrinar os alunos por meio de mensagens subliminares que pregavam o comunismo. No caso, em uma aula sobre um parasita, o professor teria desenhado uma foice no quadro negro. Foi o suficiente para ser convocado a se explicar. O professor então explicou que o patógeno se assemelhava a essa ferramenta agrícola; por isso, a comparação. Satisfeito com a explicação, o militar arquivou o caso.

SE FOSSE A FOICE…

Outro conhecido também ligado à UFSM me mostrou um dossiê feito no final dos anos 70 contra ele e cerca outros 15 santa-marienses, entre eles profissionais de imprensa. Ele me mostrou apenas os nomes de alguns dos denunciados, ocultando a identidade do delator. Na lista, há esquerdistas, sim, mas boa parte não era. Há, inclusive, conservadores. Nem o reitor da época escapou. O motivo seria a agitação política contra o governo na UFSM nos anos finais da ditadura.

O regime perseguiu políticos, professores, policiais civis e militares e demais servidores públicos que não se enquadravam entre os “amigos” do governo federal. Os “inimigos” eram identificados por meio de delações que chegavam a órgãos como a ASI. Tudo muito semelhante ao aparato que parece estar sendo montado pelo governo federal e que, agora, mira servidores da área de segurança pública que se identificam como antifascistas. A questão é que, como ocorreu na ditadura, qualquer um poderá se tornar vítima dessa teia de espionagem e perseguição.

REFLEXÕES PANDÊMICAS

* Em tempos de máscaras, as diferenças sociais estão literalmente na cara das pessoas.

* De vez em quando me assola a paranoia da máscara se tornar peça permanente do nosso vestuário, assim como as roupas que cobrem nossas partes íntimas.

* Em algumas culturas, esconder o rosto já é, há tempos, obrigatório para as mulheres.

* Às vezes penso que nós, sapiens, nos especializamos em extermínio de espécies. Inclusive da nossa.

* Negacionismo é um tipo de crença.

* Em nome da vida, o negacionismo deve ser isolado.

* Ciência é a única vacina contra a ignorância. Infelizmente essa vacina já existe, mas é negada a milhões.

* A seleção natural na política haverá, um dia, de extirpar do cenário políticos oportunistas, desonestos e incompetentes. Esse processo evolutivo é lento, mas pode começar agora.

(*) José Mauro Batista é jornalista. Até recentemente, editor de Região do Diário de Santa Maria. Antes foi repórter e editor do jornal A Razão. Escreve no site semanalmente, aos domingos.

Observação do Editor: A imagem que ilustra esta coluna é uma reprodução obtida na internet.

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5 Comentários

  1. Gnt, que absurdo!
    Difícil acreditar que tempos tão sombrios estão voltando e mais difícil ainda é acreditar que as pessoas ainda negam o que está acontecendo.

    1. Stalinista nao tem moral pra falar de ditadura e de “tempos sombrios”.

  2. Alias, comunista falando em bisbilhotagem também é piada. estudem história pra saber o que a KGB e a Stasi comunistas faziam.

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