CRÔNICA. Orlando Fonseca e aquilo que é mais que apenas o “salpico de saliva que alguém lança ao falar”

CRÔNICA. Orlando Fonseca e aquilo que é mais que apenas o “salpico de saliva que alguém lança ao falar”

CRÔNICA. Orlando Fonseca e aquilo que é mais que apenas o “salpico de saliva que alguém lança ao falar” - 39737b96-orlando-crônicaPerdigotos

Por ORLANDO FONSECA (*)

Um leitor atento de obras clássicas da literatura nacional já deve ter-se deparado com a palavra que aparece no título desta despretensiosa crônica. No entanto, deve fazer muito tempo que não se deparava com a referida em outros textos. Os cronistas colocaram-na entre as que servem para indicar qualificativos não honrosos em suas personagens, especialmente em situações cômicas.

Com o tempo, a palavra foi perdendo a sua força semântica, não que o hábito, muito humano, tenha desaparecido. Ao contrário, perdigotos continuaram a sua sanha pejorativa ao longo das décadas, mas assim como borborigmo, flatulência, constipação e outras palavras comuns de um cotidiano antigo foram desaparecendo do vernáculo. No entanto, perdigoto readquiriu a sua força significativa nos últimos meses, por conta da pandemia. Explico-me.

Em tempos de cautelas virais, pela Covid-19, precisamos consultar o dicionário, em busca da terapêutica comum desses casos filológicos. Nem é preciso ir ao “doutor” Antenor Nascentes, patriarca dos lexicógrafos brasileiros, o Aurélio é clínico geral suficiente e dá conta, no caso.

Em sua acepção popular, perdigoto é um substantivo masculino que significa “salpico de saliva que alguém lança ao falar”; flexão do verbo perdigotar (apesar da prática descuidada, nem sabia da existência de tal verbo) na primeira pessoa do singular do presente do indicativo.

Antes de virar essa coisa meio nojenta que representa, o termo tinha um uso, digamos, mais nobre, quando a caça estava entre os atos humanos considerados como tal, pois era o termo usado para indicar uma perdiz nova, de carne muito apreciada.

Perdigoto, portanto, ao longo de um uso literário, com finalidades de escracho, era palavra mais usada no plural, para constituir uma cena depreciativa. O sujeito que fala muito, o sujeito que tem a boca mole, o chefe em sua atitude imperiosa a desancar um subalterno, o bêbado que insiste em contar uma piada, o impertinente no coletivo (ônibus ou metrô), tentando contar uma inconfidência ao amigo, o qual tenta se proteger da torrente asquerosa.

Aliás, chuva de impropérios é uma dessas figuras de linguagem tornadas clichê pela força de sua construção sinestésica. Enfim, antes do coronavírus e sua avassaladora chegada ao planeta, o termo tinha deixado de ter força expressiva e estava quase na condição do lobo guará (que a nota de 200 pilas pretende redimir): em vias de extinção. Aí a coisa mudou. Sem uma vacina eficaz, os perdigotos ganharam seu espaço de fama na mídia massiva, e nos artigos científicos.

Isso mesmo, a ciência está ocupada, tanto em descobrir a cura para a Covid-19, com a erradicação do vírus, quanto em estudar como esse se propaga. E aí, bingo, os perdigotos estão entre os mais perigosos vetores do coronavírus. Já tinham estado em outras endemias famosas, como a SARS, MERS e influenza H1N1, mas agora a coisa ficou realmente séria.

Criou-se inclusive até mesmo uma nova etiqueta, em que se recomenda o uso das costas da mão ao tossir, encostar a boca próximo ao cotovelo ao espirrar e, para evitar os perdigotos, o uso permanente de máscaras. Sim, porque os estudos científicos indicam que o ato de falar pode liberar um spray de até 2.600 gotículas de saliva por segundo, isso mesmo, uma legião de perdigotos que podem permanecer no ar de 8 a 14 minutos.

E os atuais inimigos número um da humanidade são duros de matar: podem permanecer durante muito tempo em maçanetas, corrimões e telas de celular. Ou seja, o distanciamento social indica que, além de ficarem isoladas, as pessoas devem ficar caladas, ou só falar o essencial, não gastar perdigoto à toa. Perdigoto virou perigo público nesta tragicomédia humana, em uma versão que o Balzac faria, se vivesse em pleno Século XXI.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

Observação do editora foto (sem autoria determinada) que ilustra esta crônica foi extraída de notícia do portal tecmundo.com.br (AQUI)



1 comentário

  1. O Brando

    Perdigoto é o terror de quem fala na frente de uma câmera de vídeo. Explico. As vezes um branco mais avantajado fica pendurado na lábio da criatura, O ser falante geralmente sente que ele está lá. Sabe que é nojento. Sabe que chama atenção e o que ele diz fica em segundo plano.
    Quanto ao Covid, problema não são os perdigotos, as gotículas. São os aerossóis, ordem de grandeza diferente.
    Obviamente existe aleatoriedade no assunto. Aerossóis devem conter carga viral suficiente para causar a infecção. Ao ar livre durante o dia existe ação dos raios ultravioleta que mata o vírus.
    Alas, meios de desinfecção pouco utilizados devido ao custo. Na China em alguns lugares utilizam lâmpadas de raios UVC. Nenhum espanto, fabricam lá, por aqui custa uns 250 pila cada uma. Maquinas geradoras de ozônio, do tipo que se utiliza para tirar odores de automóveis. Custam de 300 a 3000 reais, depende da capacidade.

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