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Eleições americanas – por Orlando Fonseca

Para quem se ocupa de olhar atento o que se passa ao redor – nas imediações e no mundo todo – a semana passada foi ocupada, quase toda, com as eleições americanas. Alguns consideram que nós, brasileiros, damos importância demasiada ao que se passa nos EUA.

Considerando os gestos de babaquice explícita por parte do atual governo (falta-me um termo mais específico, em termos técnicos, para definir esta inócua relação diplomática), pode-se dar razão aos que fazem esta crítica. Não temos necessidade de manifestar subserviência ao Grande Irmão do Norte, entretanto não podemos cair na superficialidade analítica de considerar desimportante o que acontece na maior potência militar e econômica do planeta.

E basta olhar a oscilação do dólar, nos últimos dias, para termos certeza de que, sim, tudo o que acontece por lá nos afeta. E o resultado dessa eleição tem repercussões históricas importantes para os norte-americanos e para a realidade mundial. Não se trata de uma revolução, de uma perspectiva de nova ordem mundial. Minha expectativa é modesta: que a chegada de um democrata à Casa Branca possa frear o avanço do fascismo no Ocidente.

Para entendermos a importância dos EUA na conjuntura planetária, é preciso resgatar valores do seu passado que estão presentes no nosso cotidiano, querendo ou não. A começar pela política, pois a sua independência representou a formação de uma Estado republicano com uma experiência democrática, mudança significativa no Século XVIII, que se libertava de todo o entulho do mundo feudal, do absolutismo regido pela aristocracia e o clero.

E isso antes da Revolução Francesa, a qual espalhou pelo mundo os ideais iluministas e a luta pelos direitos humanos. Pode-se criticá-la hoje como, no mínimo, arcaica em seu sistema eleitoral, no entanto, com base naqueles pressupostos, tornou-se uma potência econômica, em razão do desenvolvimento da tecnologia. A língua inglesa se tornou um código universal de comunicação, junto com os produtos que saíram de suas fábricas, indústrias e salas de estudo.

Na cultura, são inúmeras as influências. A música pop atual é produto sucedâneo do feliz encontro entre a musicalidade europeia e africana. Das canções de trabalho, nos campos de algodão do sul dos EUA, surgiu o “spiritual”, matriz do jazz, do blues e do gospel. Os filhos desses gêneros, o R&B, o rock, o funck e o soul estão em muitas canções executadas nas FMs e plataformas de streaming ao redor do mundo.

O cinema, assim como consumimos em nossos aplicativos digitais em casa, hoje, nasceu na Europa, mas foi progredindo para este formato com os avanços, estéticos e tecnológicos, americanos. O modo de nos comunicarmos na atualidade se deve aos modelos criados e/ou aperfeiçoados pelos inventores americanos, com as ondas do rádio, da TV e da internet.

Isso, apenas para reforçar que, cuidando para não parecer baba-ovo, é impossível não reconhecer que o que acontece na América do Norte tem importância decisiva na vida dos brasileiros e do mundo inteiro.

Agora, é importante que se ressalte que tanto o derrotado Donald Trump, quanto o vencedor da eleição Joe Biden são faces do mesmo pensamento político: ambos são liberais. O republicano virado para a direita – ultimamente reunindo um amplo espectro, supremacistas brancos, negacionistas e extremistas de toda ordem; o democrata, virado para a esquerda, mas sem que alcance o que a narrativa de Trump tenta impingir, de comunista ou sequer socialista.

O pensamento imperialista vai continuar, mas é certo que a agenda dos direitos humanos e da política ambiental volta à pauta; que a saúde e a inclusão estarão na ordem do dia, expulsando o negacionismo, o racismo estrutural e todas as fobias sociais.

E isso, por si só, é um alento para indicar que ainda há vida inteligente, diante do avanço da ignorância terraplanista; que o humanismo não morreu, sufocado pela truculência supremacista branca ou pelos fundamentalismos; que o fascismo teve um espasmo, e pode ser superado pela tolerância, pela solidariedade e pela convicção da ciência. 

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

Observação do editor: de Adam Schultz (Divulgação Comitê Democrata), a foto que ilustra essa crônica é do presidente eleito norte-maricano, Joe Biden, logo após a sua própria declaração de vitória no pleito norte-americano.

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3 Comentários

  1. Fobia é medo ‘irracional’ de algo. Novilingua. Formato é o de sempre, um monte de abobrinhas para chamar atenção do leitor e no final uma diarreia ideológica.
    Chefona da Rede BullShit noutro dia largou um ‘não basta ser feminista, não ser homofobico ou racista, é necessário ser anti- machista, ser anti-etc’. Ideologia. Outra pessoa no sábado teve um orgasmo, ‘Bolívia e Argentina já tem governos de esquera, Brasil não pode ficar de costas para a AL’, “é a ‘nova onda'”, Biden poderia não durar e teríamos a primeira mulher negra presidente que derrotaria Trump (74 anos) na próxima eleição, iria escrever um artigo sobre o novo mundo que estava nascendo.
    Vida inteligente? Acham-se o máximo, acreditam nas próprias lorotas e que convencem alguem. Para mim serve.

  2. Direitos humanos bate de frente com a China (mais de um milhão em campos de ‘reeducação’), Irã, Coreia do Norte, Venezuela, etc. Ênfase deve ser na Russia que tem economia do tamanho da tupiniquim e baseada no gás. Cortina de fumaça e ideologia.
    No pais ianque exste os 3%. Defendem a segunda emenda. Como foram classificados pela mídia? Grupo de extrema direita anti-governo, milícia, etc. Mentira. Só completos imbecis tentam enganar com informações facilmente verificáveis.
    Existem socialistas e comunistas na garupa do governo Slow Joe. Declaram-se assim, dão entrevistas.
    Sociologa ianque deu entrevista afirmando que deveriam aproveitar esta eleição porque seria a primeira em que demograficamente os brancos seriam minoria. Que quer saber o que rola por la tem que assistir o noticiário produzido lá.

  3. Problema não é este, problema é que se dá importância de menos para o resto do mundo e acredita-se que o Brasil é o umbigo do mundo.
    Observar oscilação do dólar e da bolsa sem ter o couro no negocio é só para aumentar o stress e a ansiedade.
    França financiou em parte a independência americana e até mandou gente para combater.
    Tem importância mas não deve ser por muito tempo, império está em decadência.
    Slow Joe e Kamela são beeeeeem menos liiberais. Não deixarão é de defender interesses americanos.

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