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O conflito Rússia x Ucrânia e dois cenários prováveis – por José Renato Ferraz da Silveira e Gabriela Graef

No pós-Trump, de concreto, nada. Segue o impasse e o desfecho é imprevisível

Em encontro com o líder ucraniano Volodymyr Zelensky na Casa Branca, Donald Trump diz que haverá um acordo de paz e propôs encontro a três com Vladimir Putin.

Durante conferência de imprensa na Casa Branca (18 de agosto), o presidente norte-americano disse ao lado de Zelensky que não tem dúvidas que chegará a um acordo para o fim da guerra entre Ucrânia e Rússia: “Eu não tenho dúvidas que chegaremos a um acordo de paz. Temos sete líderes de grandes países e falaremos sobre isso” (Estão presentes na Casa Branca nomes como Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, Mark Rutter, secretário-geral da Otan, além de líderes do Reino Unido, Alemanha, França, Itália e Finlândia).

Trump disse que ligará para Putin após o encontro com o ucraniano. Ele disse que tentará o acordo trilateral para cessar a guerra e que o presidente russo está esperando uma ligação após o encontro com os líderes europeus.

Antes desse encontro, Trump já havia se reunido no Alasca com Vladimir Putin, em uma reunião de caráter reservado (8 de agosto). Segundo reportagem da BBC, a reunião foi cercada de especulações, já que não houve comunicado oficial detalhado sobre o que foi discutido. Ainda assim, fontes próximas relataram que Trump manifestou interesse em construir um “novo caminho diplomático” com Moscou, o que deixou aliados ocidentais em alerta.

Durante a recepção de Zelensky em Washington, o presidente ucraniano destacou que a disposição de Trump em conversar com Putin representa uma faca de dois gumes: por um lado, poderia abrir uma rara oportunidade de diálogo direto; por outro, cria temores de que interesses ucranianos sejam sacrificados em troca de um cessar-fogo rápido. “Estamos prontos para discutir, mas não para abrir mão da nossa soberania”, disse Zelensky.

O medo da Europa

Na Europa, a movimentação gerou fortes reações. Líderes europeus enxergam risco de que os Estados Unidos priorizem um acordo rápido em detrimento da integridade territorial da Ucrânia. A BBC destacou que em Bruxelas e Berlim circulam avaliações de que Trump poderia tentar forçar um congelamento da guerra, ainda que isso significasse aceitar o controle russo sobre territórios ocupados. A possibilidade de um “acordo às curtas da Ucrânia” alimenta desconfiança sobre o compromisso americano com seus aliados.

Do lado russo, a leitura também é marcada por cautela. Analistas próximos ao Kremlin observam que Putin vê a chance de explorar a divisão entre os aliados ocidentais. Moscou acredita que qualquer fissura no apoio europeu e americano a Kiev pode ser transformada em vantagem diplomática. Ainda assim, há preocupação com a resiliência ucraniana, que continua surpreendendo mesmo em meio ao cansaço da guerra.

Portanto, o medo do lado europeu da conversa é de que Washington pressione Zelensky a aceitar condições estabelecidas pela Rússia. Aliados europeus da Ucrânia temem que Trump possa trair o país. Eles acreditam que o norte-americano pode congelar o conflito com a Rússia e reconhecer – mesmo que apenas informalmente – o controle russo sobre um quinto do território ucraniano. Já o presidente ucraniano descartou a possibilidade de aceitar anexação de outros territórios por parte de Putin (Zelensky já afirmou reiteradamente que não vai abrir mão de recuperar a área, alegando que a Constituição ucraniana prevê que o território do país é “indivisível e inviolável”), mas disse que está disposto a fazer um encontro trilateral para discutir a guerra.

A Ucrânia está com pouca margem de negociação.

Dois cenários prováveis

Três anos após a invasão russa de 2022, começam a se delinear os dois cenários mais prováveis para o futuro da Ucrânia.

Como escreve Marcus Walker do jornal americano Wall Street Journal, o primeiro é o de uma partição com proteção: Kiev manteria sua soberania sobre cerca de 80% do território, enquanto a Rússia consolidaria o controle de aproximadamente um quinto do país. Seria uma solução parecida com a da Coreia em 1953: fronteiras congeladas, uma paz imperfeita, mas com garantias de segurança fornecidas pelo Ocidente, possivelmente incluindo presença militar europeia e até americana. Para Vladimir Putin, no entanto, esse resultado seria um fracasso histórico: manteria apenas regiões devastadas e perderia a chance de reabsorver a Ucrânia.

O segundo cenário é muito mais sombrio para Kiev: além da perda de terras, a Ucrânia acabaria subordinada politicamente a Moscou. Isso significaria limitar suas forças armadas, aceitar vetos russos sobre política interna e externa e, na prática, transformar-se em um protetorado. Essa “capitulação” é exatamente o que os ucranianos lutam para evitar.

Impasse e desfecho imprevisível

O impasse reflete o cálculo de Putin, que insiste em falar das supostas “causas de raiz” do conflito – a aproximação ucraniana ao Ocidente e a expansão da OTAN – para justificar sua ofensiva. Para ele, não basta conquistar território; é preciso forçar Kiev a voltar para a órbita russa. Para o analista Oliver Stuenkel, “a guerra, no entanto, segue sem definição clara. A resistência ucraniana, embora cansada e em desvantagem numérica, continua resiliente e surpreende pela capacidade de adaptação. Contra todas as expectativas, o resultado segue em aberto”.

(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Associado IV da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

Gabriela Graef é graduanda do quarto semestre do curso de Relações Internacionais com interesse em política internacional, especialmente nas dinâmicas de poder, comércio exterior e desenvolvimento sustentável. É membro do GTAP (Grupo de Teoria, Arte e Política). Na graduação, participa ativamente em projetos que ampliam a compreensão da área e fortalecem as habilidades analíticas e estratégicas, sendo membro dos projetos UFSMUN e Juca nas Escolas, e diretora de Marketing da Empresa Júnior F5.

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