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Ailton Krenak, o intelectual do ano – Por Leonardo da Rocha Botega

A inusitada (e importante) escolha de um grande militante da causa indígena

“Em vez de ficarmos pensando no organismo da Terra respirando, o que é muito difícil, pensemos na vida atravessando montanhas, galerias, rios, florestas. A vida que a gente banalizou, que as pessoas nem sabem o que é e pensam que é só uma palavra. Assim como existem as palavras ‘vento’, ‘fogo’, ‘água’, as pessoas acham que pode haver a palavra ‘vida’, mas não. Vida é transcendência, está para além do dicionário, não tem uma definição”.

A citação acima foi extraída do livro “A vida não é útil” (Companhia das Letras, 2020) de autoria do líder indígena, ambientalista, filósofo, poeta e escritor Ailton Krenak. O livro, juntamente com “Ideias para adiar o fim do mundo” e “O amanhã não está à venda”, compõe um conjunto de reflexões orais feitas pelo autor (em palestras, entrevistas e lives) sistematizadas em forma de textos. Publicações que trouxeram para o papel a força da visão de mundo e da cultura dos povos indígenas. É foi justamente essa força que levou o autor a ser agraciado com o Prêmio Juca Pato de intelectual do ano de 2020, concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE).

Com o Prêmio, Ailton Krenak se juntou a nomes como Caio Prado Júnior, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Sérgio Buarque de Holanda, Carlos Drummond de Andrade, Antonio Candido, Fernando Henrique Cardoso, Jacob Gorender, Milton Hatoum, Ignácio de Loyola Brandão, Lygia Fagundes Telles e tantos outros pensadores que se destacaram ao longo da História Intelectual do Brasil. Junto com Krenak haviam sido indicados como finalistas Eliane Brum, Laurentino Gomes, Maria Valéria Rezende e Djamila Ribeiro.

Ailton Krenak nasceu em 1953, na região do Vale do Rio Doce. Descendente da etnia Krenak, iniciou sua militância no movimento indígena na década de 1980. Fundou a organização não governamental Núcleo de Cultura Indígena e participou ativamente da luta para assegurar os direitos dos povos indígenas na Assembleia Constituinte de 1988, ano em que participou também da fundação da União das Nações Indígenas. Em 1989, juntamente com outras lideranças, entre elas o líder seringueiro Chico Mendes, organizou a Aliança dos Povos da Floresta, que reuniu comunidades ribeirinhas e indígenas na luta em defesa da Amazônia.

A Aliança dos Povos Indígenas foi recentemente relançada com um novo objetivo: conter o contágio do novo coronavírus em comunidades tradicionais e reagir à catastrófica política ambiental do governo Bolsonaro. No campo cultural, desde 1998, Ailton realiza na Serra do Cipó (MG), através do Núcleo de Cultura Indígena, o Festival de Dança e Cultura Indígena, evento de significativa importância na promoção da integração entre as diferentes tribos indígenas brasileiras.

Sua estreia no “campo intelectual” ocorreu em 1999, quando sua narrativa “O Eterno Retorno do Encontro” foi publicada na coletânea “A Outra Margem do Ocidente”, organizada por Adauto Novaes. De lá para cá, Ailton ministrou inúmeras palestras, participou de documentários e, em 2016, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Em 2015 foi uma das vozes mais fortes na denúncia do crime socioambiental ocorrido no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG) que segundo o próprio Krenak transformou o vívido Rio Doce em um “rio em coma”.

Como podemos ver, sua premiação pode muito bem ser vista como a premiação de uma trajetória. Porém, não o foi, ou se foi, não foi apenas a premiação de uma trajetória. No pandêmico ano de 2020, as reflexões de Ailton Krenak, sobretudo as que foram publicadas em “A vida não é útil”, atingiram como flechas as contradições daquilo que paradigma moderno ocidental costuma conceituar como “Civilização”. Foram um chamado a repensar o nosso modelo de organização social, sobretudo, o consumismo desenfreado, a devastação ambiental e a visão estreita e excludente sobre a humanidade que hegemoniza o nosso cotidiano.

Em um ano onde um quase invisível micro-organismo aguçou a pulsão de morte no mundo todo, Ailton Krenak nos alertou que a Terra estava com febre e que para sair dessa situação existem duas alternativas: ouvimos “a voz de todos os seres que habitam o planeta” junto conosco ou fazemos “guerra contra a vida na Terra”. Em um ano onde a “banalização da vida” conduziu muitos a “banalização da morte”, Ailton Krenak nos alertou para a necessidade de irmos para além da vida banalizada e das formas de pensar egocêntricas e padronizadas, tidas como “normal”. Afinal, se o “normal” nos trouxe até a beira do precipício, talvez seja a hora de mudarmos o “normal”.

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Observação do editor: A foto que ilustra este artigo é uma reprodução da internet.

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Um Comentário

  1. Nome disto é “construção da reputação do militante cumpanheiro”.
    ‘Com o Prêmio, Ailton Krenak se juntou a nomes como […]’ obviamente uma provocação.
    ‘Filosofo’ segura um debate sobre Hegel, Nietzsche ou kierkegaard? Nome disto é ‘desconstrução da academia tradicional e da tradição de pensamento ocidental.
    Figura objeto do texto? Irrelevante. Noticia boa é que a esquerda continua com poucas ferramentas na maleta. Obviamente relacionada a baixa capacidade cognitiva.

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