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Em tempos de ódio e negação, bem-vinda é a Campanha da Fraternidade, do Diálogo e do Amor – por Valdeci Oliveira

Sabemos que estamos diante de um grave problema quando somos obrigados a explicar ou defender o óbvio. Se trata de uma situação que reúne, em um mesmo escopo, diversos graus de distorção proposital da realidade e traz consigo a falta de empatia e em certos níveis a quebra do chamado contrato social, a metáfora filosófica que, em última análise, nos diferencia, na forma como nos organizamos, do restante dos animais. Nos últimos dois anos, pelo menos, não nos faltaram exemplos dessa verdadeira distopia em curso, em que o esforço para colocar armas nas mãos da população é infinitamente maior que os gestos para garantir, por exemplo, vacinas contra um vírus pandêmico, renda para os mais vulneráveis e trabalho para uma população economicamente ativa, mas desempregada.

A mais recente mostra desse quadro coberto por tintas que beiram o surreal, e que parece colocar em xeque até mesmo o acúmulo de aprendizados por nós conquistados nos últimos séculos da evolução humana, é a série de ataques perpetrados por grupos ultraconservadores vinculados à extrema-direita a pessoas e lideranças religiosas vinculadas à Campanha da Fraternidade deste ano e que foi lançada na última quarta-feira (17). A justificativa desses setores para sustentar a sua ira insana seria o tema da atual edição, cuja prerrogativa nos é cara, a “Fraternidade e o Diálogo: compromisso de amor”, e que joga luzes sobre o negacionismo oficial da ciência e a violência e perseguição contra as minorias sociais – mulheres, negros, indígenas e LGBTs. Como vemos, as minorias aqui não se referem propriamente à quantidade, visto que mulheres e negros são grupos numericamente superiores na população brasileira, mas segmentos cujos direitos, quando os têm, são relegados a um segundo plano ou à sua completa inexistência prática. E o alvo da Campanha, por assim dizer, vai além, na própria carne, uma vez que questiona também a postura das igrejas e templos pelo viés do distanciamento social, tão ignorado apesar das evidências de ser uma das medidas essenciais para a não proliferação do vírus.

Desnecessário dizer que tais segmentos críticos são e estão umbilicalmente ligados ao bolsonarismo, à sua cruzada cultural e à pauta de costumes que buscam imprimir na sociedade brasileira um modo de vida irracional e distante de tudo aquilo que aprendemos como ensinamentos de Cristo. Esses setores chegam ao ponto de distorcer o que está escrito na Bíblia e fazer avaliações literais do que lá está redigido para sustentar a postura armamentista, belicista e intolerante com o diferente do governo de plantão.

Ao olhar mais de perto quem são e o que fazem enquanto grupos socialmente organizados, enxergamos as mesmas digitais que ferozmente vêm atacando, desde 2013, Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, por conta de suas opiniões e atos em favor da ciência, do meio ambiente, dos menos favorecidos, por uma sociedade mais justa e igualitária, dos direitos dos imigrantes, contra as guerras e a concentração da riqueza nas mãos de poucos. Os ataques, que se utilizam de teorias conspiratórias e de farta quantidade de fake news, entre elas a de uma “agenda gay” na Santa Sé, são feitos por homens e mulheres cujo radicalismo encontra eco e apoio principalmente do clero conservador norte-americano e muita força junto aos seus pares na América Latina, principalmente no Brasil. São os mesmos que, a bordo de um fundamentalismo religioso, buscaram desacreditar o líder máximo do catolicismo por este defender uma política de distribuição de preservativos em países da África e Ásia diante da gravidade do aumento de casos, óbitos e baixo tratamento para a AIDS junto às populações dessas nações.

Essa mesma estratégia, do descrédito e do conspiratório, também está em curso agora para enfraquecer a Campanha da Fraternidade, que não custa lembrar, é feita anualmente desde os anos 1960 e construída pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Para os fundamentalistas, a atual Campanha teria contornos abortistas e até mesmo anticristãs. E para freá-la e enfraquecê-la, colocaram em prática movimentos, principalmente nas redes sociais e no Whatsapp, para que as pessoas dela não participem, não façam suas doações nem apoiem suas respectivas ações sociais. Num momento tão grave pelo qual passa toda a sociedade brasileira, para não dizer planetária, tal postura se mostra ignóbil, vil e, quiçá, criminosa.

E nesse contexto duas frases me vêm à mente. Uma de dom Hélder Câmara (1909 – 1999), que dizia “se dou pão aos pobres, todos me chamam de santo. Se mostro por que os pobres não têm pão, me chamam de comunista e subversivo”. A outra é de dom Pedro Casaldáliga (1928-2020), para quem “Jesus se fez humano no ventre de Maria e se fez classe na oficina de José”.

Dito isso, acredito não ser necessário dizer mais nada, além de um pedido: apoiem, divulguem e defendam a Campanha da Fraternidade 2021. Como diz o seu lema, é um compromisso de amor.

*Valdeci Oliveiraque escreve sempre as sextas-feiras, é deputado estadual pelo PT e foi vereador, deputado federal e prefeito de Santa Maria. Também é 1º Secretário da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa e Coordenador da Frente Parlamentar em Defesa da Duplicação da RSC-287.

Crédito do cartazConselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic)

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