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A vida não cabe nos números – por Giuseppe Riesgo

‘Na ânsia de corrigir distorções, governo entra em uma espiral de intervenções’

Nessa semana, após o fim da bandeira preta, tivemos a apresentação por parte do Governo do Estado das novas regras sugeridas de distanciamento social para a prevenção e enfrentamento do coronavírus no Rio Grande do Sul.

Enquanto me debruçava sobre o novo modelo em debate, um aforismo teimava em minha mente: a vida não cabe nos números. A cada página da apresentação, essas palavras voltavam e voltavam a me perseguir.

Essa concepção não é propriamente uma novidade. Um dos pontos que mais critiquei no modelo de bandeiras era, justamente, o alto grau de tecnicismo e rigidez na análise da disseminação da pandemia no nosso Estado. O antigo modelo – e, aparentemente, o novo também –, ignorava os incentivos e a subjetividade nas escolhas humanas.

O anterior pecava por considerar que poderíamos controlar a mobilidade urbana e uma enorme gama de atividades e escolhas econômicas sob regras que, semanalmente, se alteravam. O atual, aparentemente, se equivoca pelo alto grau de discricionaridade adotado (o que pode gerar mais ruído informacional na população acerca das regras e dos mecanismos de controle a serem utilizados).

O fato é que a vida não permite tamanho planejamento central. O Nobel em Economia, Friedrich Hayek, já alerta que a “ordem espontânea” das sociedades não deveria ser afetada por dirigismos governamentais, simplesmente, porque o governo não dispõe de todo o conhecimento possível para planejar as nossas vidas.

Em síntese, o governo é formado por pessoas com o mesmo grau de desconhecimento humano ao qual todos estamos submetidos. Não há pleno conhecimento na sociedade e o governo não está imune da ignorância.

Já outro economista, Ludwig von Mises, alertava que ignorar o exposto por Hayek – além de gerar ineficiência econômica e revolta social -, acarretava numa “lógica intervencionista” que renega à sociedade mais estatização e miséria.

Em síntese, na ânsia de corrigir distorções não planejadas, o governo entra em uma espiral de intervenções que levam a novas distorções, novas intervenções e, assim, sucessivamente.

O resultado? Uma sociedade cada vez mais estatizada e, obviamente, menos livre. Um ambiente propício para a disseminação do populismo e da miséria social.

Por isso, qualquer semelhança com o que vimos no modelo de distanciamento controlado não é mera coincidência. Há um ano, verificamos intervenções e mais intervenções que apenas evidenciaram a limitação do conhecimento governamental sobre a vida humana e seus incentivos.

O resultado? Aumento da crise socioeconômica, revolta social e descrédito com o governo, o modelo adotado e a política como um todo.

Por isso, “demonstrar aos homens o quão pouco eles sabem sobre aquilo que imaginam poder planejar” era o grande desafio e o mais importante alerta que Hayek deixou aos políticos e a formulação das políticas públicas. É importante que o governo meça e se abasteça de informações para a tomada de decisão.

No entanto, mesmo com isso, a miséria do nosso conhecimento persiste e, infelizmente, é essa advertência que os governantes e políticos como um todo ignoram e∕ou desconhecem. A vida não cabe nos números. Eis a lição de humildade que os políticos deveriam lembrar na hora de desenhar seus modelos e planejar a vida de tanta gente. 

 (*) Giuseppe Riesgo é deputado estadual e cumpre seu primeiro mandato pelo partido Novo. Ele escreve no Site todas as quintas-feiras.

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4 Comentários

  1. India é um pais peculiar. Fez lockdowns severos. Morreu gente nos deslocamentos inclusive.
    Final de março, começo de abril, o governo declarou o Covid vencido. Há vídeo do primeiro ministro dando discurso para uma multidão gigantesca, um festival religioso.
    Ontem morriam, nos números oficiais, duas pessoas por minuto naquele pais. Aviões levam oxigênio dos EUA para lá, auxilio via USAID. França manda usinas de oxigênio.
    Um gerente de um crematório sustentado por uma ONG afirmou (vídeo no Youtube) que os números reais são muito maiores. Muita gente desgarrada por la, gente longe da família. Acabam em abrigos para doentes e, quando morrem, ficam por conta do destino. Lembrando que os que não tem dinheiro para cremação acabam jogando o cadáver inteiro no rio muitas vezes.
    Entrevistaram um sujeito (mesmo vídeo) alterado, tentou invadir o hospital porque tinha conseguido um remédio no mercado negro, chamaram a policia.
    Erros todos cometem, nem tudo é passível de planejamento, ser humano não cabe numa equação, existe aleatoriedade, tudo isto é verdade. Porem, na tomada de decisão, uns são mais preparados. Governantes são escolhidos da mesma foram que o BBB, concurso de popularidade. Servidores públicos são estáveis, não devem satisfação a ninguém. Deste jeito o ‘tamanho do Estado’, maior ou menor, é questão secundária. Motivo é simples, as ‘peças’ que o constituem não funcionam. Basta um pneu furado para que um carro não ande direito.

  2. Keynes morreu em 1946. Mises em 1973 com mais de 90 anos. Hayek em 1992, também quase centenário.
    Problema é que tocar o mundo com filosofia politica não parece ser uma boa receita.

  3. Midia focou nos epidemiologistas, imunologistas e na eleição de 2022, meter o pau no Cavalão (não sem motivo). Sociólogos, psiquiatras e psicólogos ficaram no escanteio. Negocio era trancar tudo e ‘governo federal depois resolve’. Alás, quantos leitos existem na aldeia? Quatrocentos, 500? Para um milhão de habitantes na região da bandeira?

  4. Muita calma nesta hora.
    Primeiro modelo era um interruptor de luz. Foi comentado à época que era um absurdo, por conta de casos em POA, Caxias e Bagé colocaram Boa Vista do Buricá, a 500 Km, em lockdown (limitado). ‘Gestor publico’ é um burocrata, limita-se a executar orçamento, diferente da iniciativa privada não tem que lidar com risco.
    Modelo de bandeiras, também comentado à época, era o que a casa tinha para oferecer, economistas utilizando modelos matemáticos utilizados em ricos de atividades produtivas elaboraram alguns critérios para deixar o interruptor de lado. Foi um avanço. Necessitaria de correções, também comentado à época, sim.

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