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O “desrespeito” às mulheres, segundo os machistas – por Elen Biguelini

A articulista reflete (e opina) sobre fatos recentes. E nem é preciso nominar

Estas últimas semanas têm sido repletas de discussões sobre o respeito para com as mulheres.

Recentemente, um grupo que não é a favor de vacinas, e usa remédios comprovadamente ineficazes contra a pandemia de Covid-19, começou a se posicionar contra o “desrespeito” para com mulheres médicas.

Desrespeito para com mulheres é algo comum na sociedade atual. Políticas, jornalistas, escritoras, etc… Todas sofremos com o desrespeito. A imagem corporal da ex-presidenta brasileira era utilizada frequentemente para ser difamada de forma horrível e machista. Marielle teve sua imagem deturpada após ter sido assassinada por ter denunciado os horrores da milícia carioca. Quantas jornalistas têm que ouvir absurdos em todas as suas mídias sociais? Há poucos anos, atrizes tiveram que se retirar do twitter, após um grupo pequeno mas insistente de fãs homens machistas destruírem sua autoestima e imagem pública com ataques absurdos.

Mulheres são desrespeitadas todos os dias: algumas são assassinadas por seus maridos em frente a seus filhos, são empurradas de sacadas e tem sua imagem destruída por advogados. Aprendemos desde cedo a conviver com assobios e comentários de homens mais velhos, nojentos as vezes, que acham que o corpo feminino é menos digno de respeito.

Críticas, no entanto, a mulheres que exercem de forma ruim a sua profissão; crítica a mulheres que falam absurdos e defendem medicamentos que não funcionam; que participam de governos que insistentemente tratam outras mulheres com escárnio – numa misoginia sem tamanho –  não são desrespeito para com as mulheres. Se uma médica comete má prática médica, merece um tribunal. Quando comete um erro que leva à morte de milhares, merece ser interrogada por membros de uma CPI. O mesmo vale aos homens.

Elas não foram mandadas “calar a boca”, ninguém as chamou de “fraquejadas”, não tiveram seus corpos expostos pela internet, os corpos de suas filhinhas de cinco anos distribuídos em redes de pedofilia. Ao mesmo tempo, nunca sofreram o que homens, mulheres e crianças negras sofrem todos os dias na mão de policiais racistas; ou jovens LGBTQ+ na mãos de homofóbicos; ou mesmo vereadoras trans que têm sua vida posta em risco pelo desejo de acabar com o preconceito.

Existem muitos movimentos feministas, mas quando homens se utilizam das falas femininas que pedem o direito para com as mulheres para defender o que não é desrespeito, somente porque assim defendem suas próprias opiniões, não estão auxiliando o movimento feminista, ou a vida de nenhuma mulher. Acabam, sim, por desprezar todos os movimentos que existiram até então; todos os direitos conseguidos e batalhados.

Como mulher, como feminista, essas mulheres não me representam. E os homens que as defendem não deixam de ser machistas, que se aproveitam das mulheres em seu próprio favor. Se defendessem realmente a igualdade de gênero, teriam se rebelado semanas  antes, quando outras mulheres foram humilhadas na mesma CPI. Teriam se posicionado contra a violência doméstica que tira a vida de muitas todos os dias!

Isto não é movimento feminista, é, sim, um falso feminismo que defende apenas o que é de seu próprio interesse!

(*) Elen Biguelini é Doutora em História (Universidade de Coimbra, 2017) e Mestre em Estudos Feministas (Universidade de Coimbra, 2012), tendo como foco a pesquisa na história das mulheres e da autoria feminina durante o século XIX. Ela escreverá semanalmente aos domingos, no site.

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