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Sedes Sapientiae – por Orlando Fonseca

Universidades existe há mais de mil anos e a UFSM é das melhores

Com orgulho, li a notícia de que a nossa UFSM, entre outras mil, tem importância planetária no ensino superior. Ao mesmo tempo em que absorvia a informação, com a mente e com o coração, dava-me conta de que existe este número de universidades no mundo.

Mas o que era orgulho passou a espanto, pois, se existem tantas instituições como essa, como é que, nos últimos anos, o negacionismo, o terraplanismo, a pós-verdade, as fake news e a sem-noçãozice geral tomaram conta do debate por todo lugar? Coisas tais que explicam como, em nosso país, prosperam a tentativa de retorno do voto impresso e a volta ao mapa da fome.

Sinto por vezes a impressão de que estamos perdendo feio para a ignorância dos que negam o valor da ciência, os preceitos da ciência, a vida na democracia, preferindo adorar mitos forjados pela mídia ou pela supervalorização do senso comum. O ministro da educação, desvalorizando o diploma universitário, passa um atestado, com carimbo e tudo, de que a situação é grave.

O brasão da UFSM, apresenta o dístico “Sedes sapientiae”, lugar ou casa da sabedoria. Sou testemunha de que a instituição, pública e gratuita, contribuiu decisivamente, para que a minha personalidade – como cidadão, como professor, como escritor – fosse moldada para agir na sociedade com sabedoria.

Não consigo perceber a forma reducionista que faz alguns aduzirem trata-se de um lugar de uma determinada ideologia. Não por acaso, há esta chancela produzida pelo Academic Ranking of World Universities, o ShanghaiRanking, que divulga anualmente as mil mais bem conceituadas instituições de ensino superior do mundo.

Esse ranking considera indicadores como qualidade da educação, qualidade da instituição (colaboradores que ganharam prêmios e pesquisadores altamente citados) e resultado da pesquisa (artigos publicados nas revistas como Nature e Science).

O ShanghaiRanking é mantido por uma organização independente em inteligência de ensino superior, e é considerado um dos levantamentos mais importantes do mundo, especialmente para universidades dedicadas à pesquisa. Onde está, dentre os critérios, o que poderia ratificar a opinião dos que criticam as universidades? A meu ver, trata-se, tão somente, de falta de informação ou de má fé.

Pesquisando sobre o assunto, descobri que um outro ranking, o da Quacquarelli Symonds, empresa de análise do ensino superior, considera mais de 5.500 universidades ao redor do planeta. E eu que já havia me espantado com as mil anunciadas pela notícia! Entre as 100 mais bem colocadas, 27 estão nos Estados Unidos e 17 no Reino Unido. Esses são, de longe, os dois países com melhor desempenho.

Outra indicação importante é que a instituição Universidade está no mundo há mais de mil anos: a de Bolonha, na Itália, foi fundada em 1088, a de Oxford, do Reino Unido – nossa conhecida por esses dias – em 1096. Por isso fico abestalhado (como Raul Seixas na canção) em como é possível – a estas alturas da História e da civilização – desacreditar dessas instituições da máxima ciência e acreditar em um líder espiritual ou político, aliás, como o era na Idade Média. Como preferir a aceitação de uma liderança fundamentalista ou totalitária, reativando, na Nuestra America, o caudilhismo de séculos passados?

Temos, como seres civilizados, uma tarefa gigantesca no pós-pandemia: aprimorar a escola. Nesses dois anos de luta contra o coronavírus, os estudantes do ensino básico acumularam um prejuízo enorme e incalculável quanto aos seus efeitos para esta geração. A escola é a vacina fundamental e imprescindível para que não prospere a ignorância estrutural que estamos vendo.

É por causa dela que se propagam os sintomas de crise ambiental, estagnação econômica, discursos e crimes de ódio, desconfiança nas instituições democráticas, o neofascismo, conflitos raciais, o feminicídio, a corrupção e todas as mazelas que a fome, o fanatismo e a falta de dignidade humana são capazes de produzir. Precisamos resgatar para o ambiente cultural a virtude de ser “lugar de sabedoria”.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

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4 Comentários

  1. No mais, o velho mimimi, ‘somos contra tudo que é ruim, logo somos bons’. Logica vermelhinha, ‘todos os homens são mortais, sua mãe é mortal, logo sua mãe é um homem’. Kuakuakuakuakua!

  2. Autor esqueceu no testemunho pessoal de falar algo sobre a contribuição da PUCRS. Vindo de alguém com autoconceito tão elevado e autoestima em ordem seria bom ter sido completo.
    Não há como desenhar, mas o que tem a ver lugar no ranking, produção academica e ideologia? China é politicamente uma ditadura de esquerda do PCC (Partido Comunista Chines). Tem produção cientifica consideravel. Como tinha a antiga URSS.
    O que existe na UFSM são nichos dominados ideologicamente.
    Rankings são apresentados com a falacia do ‘lugar na fila’. Massachusetts Institute of Technology é um dos melhores do mundo. Até outro dia tinha mais de 1000 maquinas de sequenciamento de DNA. Existe uma mini usina nuclear no campus. Dinheiro vai para onde existe capacidade e resultado, não onde ‘mandem a grana que daqui 50 anos estaremos bons’. Unicamp tem um acelerador de particulas, o Laboratorio Nacional de Luz Sincrotron. O que leva a outra questão, dos professores da UFSM quantos fizeram o doutorado aqui mesmo ou em POA e quantos foram para fora.

  3. Discurso da esquerda já ultrapassou todos os limites da chatice e tem explicação, quem não tem nada a dizer tem que ficar repetindo sempre a mesma coisa. Fileiras cerradas e falta de criatividade.
    Questão de fundo que o ministro da Educação levanta é: diploma universitario com qual finalidade? Assunto longe de ser pacifico.
    Alás, é um problema de RH. É o passaporte para um concurso publico? É para concorrer a uma vaga na iniciativa privada? Diploma da UFSM garante ao menos uma entrevista em quase todo pais, outras instituições garantem um curriculo na lixeira.
    E o busilis não é simples. Um dos cuteleiros mais afamados do RS é mestre e doutor em Ortodontia. Questão não é somente economica. Odontologia é curso de 5 anos. Mais dois do mestrado e 4 de doutorado (na media). Ou seja, 11 anos da vida do sujeito com dedicação e renuncia, tempo de vida despendido. Nesta hora os vermelhinhos vem com a cascata do ‘melhor cidadão’ ou ‘melhor pessoa’ ou ‘em Cuba até os garçons e motoristas de taxi tem curso superior’.

  4. Sim, a melhor universidade do mundo do bairro Camobi. Quem quiser se iludir que se iluda. Alás, instituição andou perdendo posições num destes rankings (noticia do Diario Vermelho) saiu dos 1000 ou mais (ou seja, nunca foi uma das mil) e pulou para 1200 ou mais. È como aquela que tiraram do bolso ‘Santa Maria é a cidade com maior numero de doutores per capita do Brasil’. Obvio que não, é São Carlos em SP. Parque tecnologico com perto de duas centenas de doutores, USCar, USP, um instituto federal e Embrapa. Campina Grande na Paraiba, um instituto federal, a UFCG,, estadual da Paraiba, e diversas outras, dentre elas uma faculdade de tecnologia do SENAI. Conclusão é obvia, enquanto a aldeia não se olhar no espelho e não olhar o que existe no resto do mundo, a melhor saída continuara sendo a RSC-287. O discurso conservador só vai manter a decadencia e a ‘salvação’ vai depender das ESA da vida.

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