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Imprensa fala do custo Bolsonaro sem explicar do que se trata – por Carlos Wagner

“Custo Bolsonaro é muito mais que operação matemática”, explica o articulista

Custo Bolsonaro é muito mais que matemática. É preciso lembrar devastação da mata e estragos feito pelo vírus (Foto Reprodução)

Nos últimos meses, aqui e ali já vinha sendo usado pelos comentaristas de assuntos econômicos o termo custo Bolsonaro para dimensionar ao leitor o tamanho do estrago causado pelas lambanças do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), na economia nacional.

O uso se intensificou e se espalhou para outras editorias dos jornais após a tentativa de golpe dada pelo presidente no Dia da Independência, quando as empresas brasileiras perderam o valor de R$ 195,3 bilhões nas bolsas – há matérias na internet. Nós temos que explicar melhor para os nossos leitores a história do custo Bolsonaro porque ele vai muito além de uma operação matemática. É sobre isso que vamos conversar.

Antes uma explicação para quem não é jornalista. Nas redações, os jornalistas são distribuídos por assuntos que chamamos de editorias. Dada a explicação, vamos aos fatos. Logo no início do governo Bolsonaro não eram claras as reais intenções dele e dos grupos políticos que gravitam ao seu redor sobre a administração do país.

Se não tivesse acontecido a pandemia causada pela Covid-19 creio que até hoje não se teria certeza das intenções do presidente da República e seus apoiadores sobre o futuro do Brasil. Elas começaram a se desenhar com clareza assim que Bolsonaro se posicionou negando o poder de contágio e a mortalidade do vírus e transformou o seu negacionismo em política de governo.

A intenção é se perpetuar no poder corroendo as instituições por dentro e reinstalando a ditadura militar que governou o país de 1964 a 1985. E o aríete usado por ele para tentar arrombar os pilares da democracia brasileira foi o vírus.

Ele foi derrotado pelo vírus, que já causou 580 mil mortes no país e deixou um rastro de destruição nas famílias e na economia. A dimensão do estrago está sendo auditada pela Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19 do Senado, a CPI da Covid, que deverá publicar o seu relatório final nos próximos meses.

No episódio da tentativa de golpe no Dia da Independência, o presidente recuou e publicou uma carta em que faz uma “Declaração à Nação” – há matéria na internet. Na questão da sua política de governo negacionista em relação à Covid, ele segue de cabeça em pé, pregando contra ciência e tentando varrer para baixo do tapete episódios como a falta de oxigênio hospitalar em Manaus (AM) e no interior do Pará, que causando a morte por asfixia de dezenas de pacientes de Covid nos hospitais.

Portanto, se no episódio no Dia da Independência o custo Bolsonaro foi a perda de valor de mercado de empresas brasileiras nas bolsas de R$ 195,3 bilhões e a subida do dólar em 2,99%, como vamos quantificar o custo Bolsonaro no caso do vírus? Pelo número de mortes?

Acredito que essas perguntas serão respondidas pelo relatório da CPI da Covid. E nos relatórios da Polícia Federal (PF) encontraremos uma parte importante da devastação causada pela política genocida do governo federal à Floresta Amazônica e aos povos indígenas que vivem na região. A política foi executada pelo então ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, que pediu demissão por estar sendo investigado pela PF por contrabando de madeiras nobres para os Estados Unidos.

Graças a essa política, a invasão de garimpeiros em áreas indígenas nunca foi tão intensa como é nos dias atuais (setembro de 2021). Os danos causados pela devastação da Floresta Amazônica e dos povos indígenas que vivem lá não são só um problema brasileiro. Mas de interesse do mundo – há matérias na internet.

Hoje nós já temos uma ideia bem consistente do que significa para o dia a dia dos brasileiros o custo Bolsonaro no episódio do Dia da Independência, na política negacionista em relação à Covid e na devastação da Floresta Amazônica e dos povos que vivem lá.

Tenho 40 e poucos anos de profissão, sendo que uns 30 e tantos trabalhei em redação fazendo cobertura de conflitos. Não lembro de um governo ter causado tantos danos para o cotidiano do brasileiro como o atual. Portanto, a realidade que o repórter enfrenta hoje no seu trabalho jamais aconteceu antes. Ele precisa costurar os assuntos para ajudar o leitor a entender a situação.

Já disse antes e vou repetir. Não dá para adicionar a cada notícia que publicamos uma tese de mestrado explicando a dimensão do problema. Mas podemos colocar ali uma palavra ou duas, alertando o leitor que o rolo é bem maior.

Lembro os meus colegas repórteres jovens, de meia-idade e velhos como eu que é preciso aproveitar cada chance que se tem para mostrar aos nossos leitores a dimensão da notícia que publicamos. Por quê? É nosso dever informar de maneira simples, elegante e precisa.

Para fechar a nossa conversa. Não é necessário dizer. Mas vou dizer por considerar necessário. Tudo que escrevi não é opinião. São fatos que já publicamos. O que fiz e tenho feito é não perder a oportunidade de lembrar aos colegas a necessidade de explicar melhor as coisas para o leitor. Faz parte do modo de operar do repórter acreditar que todo leitor é um profundo conhecedor do assunto sobre o qual ele está escrevendo.

Eu cometo esse erro repetidas vezes quando trato de assuntos relacionados a conflitos agrários, migrações e crime organizado nas fronteiras, porque sou especializado nesses temas e escrevo a notícia como se todo mundo entendesse do que estou tratando. Portanto, nunca é demais alguém lembrar que é preciso explicar melhor o que estamos falando.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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Um Comentário

  1. Ano que vem, outubro se tudo der certo (vide pandemia), a população se dirigira as urnas, sera escolhido um mandatario e ele tomara posse em 2023. Simples assim.
    CPI da Covid é um circo armado com dinheiro público. Contrataram juristas de renome, quase com certeza com dispensa de processo licitatorio, para esquentar conclusões tiradas pelo coronel Renan. Simples assim.
    Prioridades da população são muito diferentes dos da esquerda. Jornalistas perderam credibilidade. Veiculos noticiosos estão preocupados com faturamento e formatar opinião, não informar.
    Não há um resumo da ópera, mas fica uma questão. Antes da criação das faculdades de comunicação social (e exigencia do diploma de jornalismo) o nivel medio cognitivo das redações era absurdamente mais alto. Cognitivo, não intelectual, ficar decorando literatura para provar que ‘é melhor’ é outra coisa, tem muito ananás por aí superversado em autores famosos, teatro, cinema, etc. Deve ser a decadencia do sistema de ensino. Antigamente até gente com segundo grau incompleto (vide Nelson Rodrigues). Muitos vinham do direito. Curriculo tem estatistica (até para o Big Data)? Não, Introdução ao direito? Não. Psicologia? Não. Informatica? Não. Ferramentas necessárias para os dias de hoje, até para o cidadão comum, como conhecimento geral. Não é a toa que na minha epoca diziam que jornalismo era um EPB de quatro anos. RsRsRs.

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