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A precarização da educação especial – por Demetrio Cherobini

Os complicadores que levam às dificuldades enfrentadas pelos educadores

A precarização da educação especial é bastante visível ao analisarmos dois fatores: 1) a proporção de professores dessa especialidade e alunos incluídos; 2) a relação entre as múltiplas tarefas a serem realizadas e o tempo disponível para elas.

Tomemos a seguinte situação (fictícia, mas facilmente identificável na prática): uma professora de educação especial trabalha em duas escolas e, em cada uma delas, possui dezesseis alunos sob sua responsabilidade pedagógica. Seu regime de trabalho envolve quarenta horas semanais, das quais oito são comumente dedicadas ao planejamento das aulas. Restam trinta e duas horas para o trabalho frente ao seu público-alvo.

Imaginemos essa educadora dividindo os estudantes em duplas, de modo a poder trabalhar duas vezes por semana com cada um deles. Mesmo que ela consiga – e isso já é difícil, pois, como se sabe, os alunos incluídos, muitas vezes, têm condições de aprendizagem singulares, demandando, via de regra, atendimento individualizado –, as duas horas complementares serão pouco para o que uma criança com necessidades especiais verdadeiramente precisa. A precarização da educação especial se manifesta, inicialmente, nessa situação.

Outro elemento complicador está no fato de que essa profissional tem, entre suas atribuições laborais, não só o trabalho frente aos alunos. Ela deve, sobretudo: elaborar planos gerais individualizados para os atendimentos; participar das reuniões; interagir diariamente com a direção a fim de resolver os problemas práticos diários; esclarecer os pais quanto às ações feitas; avaliar estudantes para o ingresso no Atendimento Educacional Especializado; orientar os corpos docente e discente da escola sobre temas da inclusão; adaptar materiais pedagógicos; redigir pareceres; entre outros.

Essas atividades devem ser encaixadas no seu horário, o que tende a reduzir seu tempo frente aos alunos. Não obstante, com a pandemia, a quantidade de trabalho aumentou com o forçoso uso das tecnologias. Agora, é preciso fazer tarefas on-line, aprender as novas ferramentas, postar exercícios, preencher infindáveis planilhas etc.

E existem também questões de gênero envolvidas, pois as mulheres fazem mais trabalho doméstico. Se a professora tiver filhos, o trabalho em casa crescerá exponencialmente. Além disso, caso queira realizar uma formação paralela – pós-graduação, cursos, palestras, línguas estrangeiras etc. –, a fim de se manter atualizada a respeito dos desafios da profissão, o dispêndio de energias aumentará. Soma-se a isso as horas de planejamento requisitadas com frequência para outras atividades na escola.

Conclusão geral: há muito trabalho a ser feito e poucos profissionais para fazê-lo. Nessas condições, o trabalho é intensificado, com ritmo acelerado, no intuito de se encaixar nas horas disponíveis. A professora precisa “correr”, extrapolar o tempo na escola e trabalhar mais em casa. Como resultado, o desgaste cresce, a qualidade do trabalho tende a diminuir, a frustração se faz presente e as doenças físicas e mentais podem aparecer.

Os estudantes da educação especial, para se desenvolver realmente, necessitam algo bem diverso dessa realidade precarizada na qual nos encontramos, com os poucos professores especializados sobrecarregados e exauridos pelo trabalho excessivo.

(*) Demetrio Cherobini, professor da rede municipal de Santa Maria, é licenciado em Educação Especial e bacharel e Ciências Sociais pela UFSM, mestre e doutor em Educação pela UFSM e pós-doutor em Sociologia pela Unicamp.

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