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É só pelo dinheiro que o presidente do PL, Costa Neto, engoliu a filiação de Bolsonaro? – por Carlos Wagner

O articulista e uma interessante analogia entre os dois e Muhammad Ali

Valdemar Costa Neto (esquerda) sabe algo sobre o Jair Bolsonaro que ninguém mais sabe? (Foto Reprodução)

Ouvi certa vez de um comentarista político, enquanto ele tomava um cafezinho e fumava um cigarro na redação, nos tempos das máquinas de escrever, um comentário que tenho carregado pelas minhas andanças como repórter. Com o rosto encoberto pela fumaça do cigarro, que saía das suas narinas, ele disse: “A política é muito parecida com uma luta de boxe. Onde saber apanhar é mais importante do que bater”. Acrescentou: “Lembra do Muhammad Ali?”

Quem não lembra? Foi um dos maiores pugilistas dos Estados Unidos e do mundo. Irritava o adversário e o deixava bater até cansar. Então, o derrubava com o golpe. Essa conversa tem mais de 40 anos e lembro dela porque sou fã de Muhammad Ali – a história dele está na internet. Por isso a resgatei e uso nas minhas palestras.

Agora estou usando essa lembrança para amaciar o terreno e começar a conversar com os leitores e colegas sobre uma história que está rodando pelos noticiários. Trata-se da novela da filiação do presidente Jair Bolsonaro ao Partido Liberal (PL), presidido por Valdemar Costa Neto, 72 anos. O que tem a ver o boxeador com Costa Neto? Vamos seguir os fatos para descobrir.

Antes uma explicação que considero fundamental para entender a história. Bolsonaro tem mais 30 anos de andanças pela política como vereador do Rio, deputado federal e agora presidente da República. Durante todos esses anos, ele trocou de partido como quem troca de camisa.

O presidente e os seus três filhos parlamentares – Carlos, vereador do Rio, Flávio, senador do Rio de Janeiro, e Eduardo, deputado federal por São Paulo – sempre se comportaram como se fossem o personagem do filme Alien, o 8º Passageiro, um alienígena que se hospeda no corpo humano e o explode quando se reproduz.

O presidente se elegeu pelo PSL e tentou tomar conta do partido. Não conseguiu. Mas causou um enorme tumulto e saiu da legenda. Para concorrer à reeleição em 2022 é necessário estar filiado a um partido.

Sem problemas. Com a caneta na mão para nomear quem bem entende e desfrutando da fama de ter sido um grande puxador de votos na eleição de 2018, quando fez quase 60 milhões de votos e ajudou a eleger parlamentares e governadores, vários partidos quase se mataram para tê-lo como filiado. Finalmente, no início em outubro, anunciou que iria se filiar ao PL no dia 22, uma sexta-feira.

Horas antes da filiação, Bolsonaro teve com Costa Neto uma discussão pelo celular. Foi uma briga feia, em que os dois citaram até as respectivas mães na troca de ofensa. O núcleo da bronca foi que Costa Neto defendeu o seu direito como presidente do PL de fazer acordos regionais com outros partidos, incluindo adversários dos bolsonaristas.

O presidente da República se posicionou contra. Exigiu, inclusive, que a direção do PL de São Paulo fosse entregue ao seu filho Eduardo. Os caciques do PL pressionaram Costa Neto a aceitar as exigências do presidente. Até aqui resumi toda a história porque já fui repórter em início de carreira e sei o valor que tem um “remember” feito por fonte confiável na hora da correria de baixar a matéria. Voltando à história.

Ontem (terça-feira 30/11), Bolsonaro assinou ficha no PL. Foi seguido por dois ministros, Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) e Onyx Lorenzoni (Trabalho e Previdência). Por ser deputado federal, Lorenzoni, o senador Flávio Bolsonaro e outros 15 parlamentares deverão esperar a “janela partidária” para assinar a ficha no PL.

Aqui chegamos ao centro da nossa conversa. Vejam bem. Na época que os partidos disputavam a entrada do presidente nos seus quadros ele era um cometa brilhante nos céus do Brasil. Hoje está mais para estrela cadente devido à soma de erros na sua administração, as lambanças em que se envolveu, a tentativa de golpe no dia da Independência e, por último, a entrada na corrida eleitoral do seu ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro, que assinou ficha com o Podemos há poucos dias e já tira votos dele.

Frente a esse quadro, a pergunta que se faz é a seguinte: por que Costa Neto se deixou surrar por Bolsonaro? Vou responder à pergunta citando o boxeador Muhammad Ali. Ele se deixou surrar pelo presidente porque sabe apanhar e bater na hora certa.

O currículo parlamentar de Costa Neto é imensamente mais recheado do que o do presidente – está disponível na internet. No governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003 a 2011) ele se envolveu no escândalo do Mensalão. Matou a história no peito. Em 2012, foi condenado a sete anos e 10 meses de pena. Em 2016, conseguiu um indulto de Natal e saiu livre.

Ao baixar a cabeça e aceitar a imposição de Bolsonaro de só apoiar os seus aliados nas eleições em 2022, Costa Neto coloca em risco a sobrevivência do PL, que até hoje tem sido garantida pelo envolvimento partidário em apoio a vários candidatos, inclusive adversários.

Ele fez isso porque acredita que o presidente pode reagir e acabar se reelegendo? A possibilidade existe. Ninguém imaginaria em 2018 que Bolsonaro seria eleito, nem ele. Uma série de fatores, como a prisão de Lula pela Lava Jato, que na época era o candidato preferido dos eleitores, e o atentado a faca que sofreu, acabaram o elegendo.

Sabe-se lá o que acontecerá até o fechamento das urnas em 2022. Se Bolsonaro não for reeleito, ele perde o foro privilegiado na Justiça. Isso significa que as dezenas de processos civis e criminais – desde andar sem máscara na rua até as acusações da CPI da Covid – que correm contra ele no Supremo Tribunal  Federal (STF) vão todos para a primeira instância. Onde as coisas andam mais rápido. Ele vai passar um bom tempo da sua vida entrando e saindo de tribunais.

Nos dois casos Costa Neto ganha. No caso de vitória, o PL ganha cargos na administração federal, novos parlamentares e o prestígio de ser o partido do governo. No caso da derrota, Costa Neto fica com o espólio político de Bolsonaro, que consiste basicamente em vários grupos políticos que gravitam ao redor do atual presidente.

Se por qualquer motivo Bolsonaro e seus filhos parlamentares tentarem implodir o PL, como fizeram com outros partidos que os hospedaram, Costa Neto pode derrubá-los com um gancho de direita, como fazia Muhammad Ali.

Não estou dizendo que Costa Neto é o Muhammad Ali da política. Por tudo li a sobre ele e ouvi de fontes a respeito da sua vida profissional, a conclusão a que se chega é que ele não entraria em uma disputa com a família Bolsonaro sem nada nas mãos. O que Costa Neto tem na mão contra Bolsonaro? Dá uma boa matéria investigativa.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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Um Comentário

  1. Mais um convite à adivinhação. Moro, pode ser só o hype da novidade, mudou o jogo. Pessoal do Cavalão, o mesmo não indo para o segundo turno, não vai votar no Molusco com L. Sem falar que falta muito tempo. Tentativa de ‘desgaste’, esta é patética.

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