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O que os jornais estão esperando para colocar os repórteres na estrada? – por Carlos Wagner

“Os grandes noticiários não sabem o que está rolando pelo interior do Brasil”

Os repórteres são os olhos e os ouvidos da redação. Sem eles nas ruas o voo é as cegas (Foto Reprodução)

Repórter na estrada é um negócio caro para o jornal. Aprendi isso ao longo de mais de 40 anos na profissão de repórter, a maior parte deles trabalhando em redação. O que nos manteve na estrada por muitos anos foi a concorrência entre os jornais. Hoje parece que houve um grande acordo entre as grandes e médias empresas de comunicação para economizar dinheiro mantendo seus repórteres dentro das redações.

De fato, a falta de dinheiro é real, resultado da migração de anunciantes e assinantes para outras plataformas de comunicação que surgiram com o advento das novas tecnologias. Mas a situação mudou. Porque o mundo como conhecemos por muitos anos foi alterado pela pandemia da Covid-19, que já causou mais de 6 milhões de mortes no mundo, sendo mais 600 mil no Brasil, e agora a invasão da Ucrânia por tropas russas, um conflito que está sendo transmitido online para o mundo todo.

Por conta disso, vivemos em um daqueles momentos da história em que as pessoas mais necessitam de informações de boa qualidade para tocarem as suas vidas. E isso significa uma grande oportunidade para os jornais voltarem a ser competitivos na disputa por assinantes e anunciantes.

Os repórteres são os olhos e os ouvidos da redação. Sem repórteres na rua, a redação, usando uma linguagem dos pilotos de aeronaves, está voando às cegas. Por quê? O Brasil é um país continental, onde vivem pessoas de várias culturas, e com uma economia muito diversificada.

A maneira como os habitantes do Sul interpreta as coisas é diferente de quem vive no Nordeste. Sem saber o que os brasileiros de todas as regiões pensam fica difícil fechar um texto analisando uma situação nacional. Se analisarmos o material publicado pelos colunistas políticos e econômicos de alguns anos atrás e o compararmos com as publicações atuais poderemos perceber que antes os textos continham mais informações do que opiniões.

Sempre viajei muito a trabalho, participando da cobertura de conflitos agrários, crime organizado nas fronteiras e migrações. Lembro-me que várias vezes, quando estava envolvido na cobertura de algum conflito, eu e os repórteres de outros jornais recebíamos ligações dos colegas colunistas de política e economia, que buscavam informações sobre o que estava acontecendo.

Era muito legal, porque os colunistas tinham acesso a fontes junto a governantes e grandes empresários. E nós, que estávamos no local do conflito, tínhamos acesso às lideranças dos lados envolvidos na disputa. Logo, a troca de figurinhas era benéfica para os repórteres e para os colunistas.

Em várias oportunidades troquei figurinhas com colunistas de outros jornais que trabalhavam em Brasília (DF). Antes de seguir, uma explicação para quem não é jornalista. “Trocar figurinhas” no jargão das antigas redações significava compartilhar informações.

Nos dias atuais, quando acontece um grande rolo, toca o horror na redação porque não há repórter nem dinheiro para montar uma força-tarefa e mandar gente para a estrada. Claro, diferentemente de alguns anos atrás, hoje se tem tecnologia à disposição que permite ter uma ideia da repercussão, principalmente nas redes sociais.

Mas isso não resolve o problema, porque o que existe ali são opiniões de pessoas que conhecem apenas uma parte da história. Alguém ouviu, viu ou leu sobre algo que aconteceu e emitiu a sua opinião sobre o assunto. Nessas ocasiões, vale ouro ter por perto um repórter que tenha uma boa agenda de telefones de fontes espalhadas por vários cantos do país. Para “fazer” essas fontes demoramos uma vida inteira viajando por aí.

Voltando ao nosso problema da falta de repórteres nas estradas. Os grandes noticiários não sabem o que está rolando pelo interior do Brasil. Isso salta aos olhos lendo, ouvindo ou vendo as matérias. Por exemplo, não se publicou ainda uma boa reportagem sobre como a polarização entre o presidente Jair Bolsonaro (PL), candidato à reeleição, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) está sendo tratada nas pequenas e médias cidades do interior do Brasil.

Por que interessa saber? Simples. Torna a matéria bem mais interessante para os leitores. Hoje Bolsonaro e Lula estão pautando a imprensa. O presidente da República está usando o seu cargo para criar confusão e com isso desviar a atenção dos grandes problemas nacionais, que são imensos, vou citar só dois: o preço dos combustíveis (óleo diesel, gasolina e gás de cozinha) e a esculhambação da máquina administrativa federal, como o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que tem mais de 1 milhão de pessoas na fila de espera da perícia médica. É do jogo o presidente erguer uma cortina de fumaça para escapar de dar explicações constrangedoras.

Como dizem os meus colegas colunistas econômicos. A necessidade dos leitores por informações precisas para poderem sobreviver em meio às confusões do mundo atual cria uma oportunidade para as empresas de comunicação voltarem a investir em jornalismo. Como se diz aqui no Rio Grande do Sul: um cavalo encilhado está passando na porta.

Se a oportunidade não for aproveitada vão piorar os atuais problemas que os CEOs dessas empresas enfrentam para garimpar lucros para os sócios. Nos dias atuais, eles obtêm os lucros demitindo jornalistas e misturando entretenimento com jornalismo, uma mistura tóxica.

Tenho dito nas minhas palestras que as grandes empresas de comunicação sempre existirão porque estão aí desde o tempo dos dinossauros e são referência para os leitores. Uma coisa é um grande jornal dar uma manchete, outra é um blog, por mais respeitado e conhecido que seja.

Nós repórteres temos muito preconceito para tratarmos de assuntos referentes à sustentação econômica das empresas de comunicação. Por conta disso, a maioria dos CEOs que operam na área não é do ramo. É hora de falarmos sobre o assunto. Um jornal sem repórter na estrada é como uma padaria sem farinha para fazer o pão.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados,

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7 Comentários

  1. Resumo da ópera: o mundo jornalistico esta diferente, melhor ou pior depende do ‘fregues’. Não vai voltar a ser ‘o que era antes’ porque ‘naquele tempo era melhor’. Obvio. Também é obvio: quem toca empresa é executivo, não peão na ponta da linha. São funções diferentes que demandam atributos diferentes.

  2. Problema não é misturar entretenimento com jornalismo. É misturar informações com opiniões. Além dos ‘especialistas genericos’ escolhidos a dedo, jornalistas sem formação e/ou capacidade cognitiva opinam. Vide o furacao de outro dia. Jornalistas esportivos (que opinam sobre quase tudo e muito pouco sobre futebol) ficaram ladrando que o jogo do Internacional deveria ser adiado. Foram devidamente mandados às fezes pela Conmebol, o jogo saiu e o tempo não ficou tão feio quanto anunciava-se. Muita coisa foi cancelada devido ao alarmismo. Coisa basica, pelo menos é o que se espera do lado de ca do balcão, papel da imprensa é informar da melhor maneira possivel. Os valores e as decisões ficam do lado de cá. Não é tomar uma decisão e ficar pressionando o poder publico para intervir na sociedade (de novo, falta formação e/ou capacidade cognitiva). No final a ‘culpa’ foi para a conta do Instituto Nacional de Metereologia (que também é uma repartição publica). Alás, pessoal da metereologia da UFSM tinha planos de adquirir dois radares doppler anos atras, não sei o que deu, seria importante a aquisição de equipamentos.

  3. Preços dos combustiveis estão altos, conjuntura é mundial. Diminuição na oferta, mudança da matriz energetica. Mas o afegão médio não está nem ai para a explicação (ao menos a impressão é esta). Gaudencio Torquato, se lembro bem é ele, diz que o eleitor tem prioridades, bolso, barriga, coração e cabeça. De onde se concluir que o racional na escolha é o ultimo criterio.

  4. Fila da pericia medica do INSS sempre existiu. Piorou com a pandemia. Não era para ser assim e o goveno federal tem responsabilidade. Porém não dar a informação completa só pode ser incompentencia do jornalista ou má-fé. Pior, numeros soltos. Uma criatura tem um beneficio negado hoje e, digamos, problema é na coluna. Medico que fez a pericia não é ortopedista. Automaticamente o advogado entra com recurso, quase certamente ganha, o que gera nova pericia. Que vai depender de horario disponivel com especialista. Obviamente estamos em periodo eleitoral, as maquinas de mentiras, teorias de conspiração, etc. estão a todo vapor. ‘Na época do Molusco com L. não havia fila no INSS’, ‘Molusco com L. acabou com a fome no Brasil’, ‘Molusco com L. caminha sobre as aguas’. Não importa quem produziu os numeros e nem quem era presidente do IPEA (um ‘cumpanhero’, obvio), porque a maioria dos tupiniquins não verifica a informação, quem mentir mil vezes fala a ‘verdade’.

  5. Politicos pautam a imprensa e não é de hoje (talvez na decada de 70 do seculo passado fosse diferente). É mais facil (e mais barato) monitorar os politicos do que sair catando assuntos por aí. É mais uma simbiose deletéria. Ainda mais quando o objetivo é formatar opinião, divulgar o que a população ‘tem que pensar’. É o ‘progresso decidido em gabinete e empurrado de cima para baixo’. ‘Democraticamente’, obvio. Quem reclamar é anti-democratico (malucos à parte).

  6. Analisar o ‘contexto nacional’ seria ‘tirar uma media’, algo extremamente perigoso. Pessoal do Norte e Nordeste não necessariamente ‘interpreta as coisas de modo diferente’, os problemas são completamente diferentes. Até mesmo dentro das regiões. Noutro dia um destes picaretas que vive falando de ‘inovação’ (e start-ups e coisas do genero) afirmou que inovação é São Paulo, depois Floripa, depois POA e a aldeia poderia se candidatar ao quarto lugar. Rio de Janeiro, Recife, Santa Rita do Sapucai, BH, Campinas, São Jose dos Campos e muitas outras não existem! Para os tabacudos da aldeia, para quem é, está bom.

  7. Grandes noticiarios não tem mais a importancia de antanho. Perderam credbilidade. Guerra da Ucrania? Putin semana passada estava em coma por conta de um cancer terminal, esta semana esta dirigindo pessoalmente os coroneis (à la Hitler). Ou seja, criatura tem que ter muitos problemas cognitivos para ir atrás das ‘narrativas’.
    Redações funcionam na base do Whatsapp e do Telegram. Parte do grande publico faz o trabalho de rastrear as pautas, informam o que acontece e, se for o caso, as empresas deslocam uma equipe para verificar in loco. Corta custos, promove o ‘engajamento’, cria ‘fidelidade a marca’. Simples assim. Pior, o prazo de validade das noticias encolheu, assim como o intervalo de atenção do publico. Existem muitas fontes, a informação está fragmentada. Chavões, lugares comuns que, no entanto, são validos.

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