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Tudo bem! – por Orlando Fonseca

Em razão de um problema no ombro, vejo-me na sala de espera de um laboratório, aguardando a minha vez de fazer o exame de ressonância magnética. É um sábado à tarde, dia tão atípico para estas coisas que, conversando com amigos, fui questionado a respeito. Com certeza, já por não estar arrolado entre os dias úteis, é um dia para o lazer; não dentre aqueles em que se dá duro para ganhar o pão de cada dia, cada vez mais caro com a alta da inflação. Acontece que a vida urbana está tão traumática que, cada vez mais, tem gente precisando fazer exames de imagem. Aliás, os traumas não são apenas físicos. Para perceber o quanto a população está adoecida, basta ver o número de farmácias espalhadas pela cidade. Estava lembrando disso, quando uma simpática assistente me chamou pelo nome. Era a minha vez.

– Tudo bem? – ela me pergunta, a iniciar a caminhada em direção à sala do aparelho. Eu esbocei um meio sorriso, e lhe retruquei no mesmo tom amistoso.

– Ora, se estivesse tudo mesmo, eu não estaria aqui, num sábado à tarde.

Ela, no entanto, e talvez já acostumada às respostas mais diversas de temperamentos vários, me olhou de alto a baixo, séria, e emendou.

– Olha, em comparação com outros que vêm aqui, o senhor está muito bem.

Eu agradeci e observei cordato.

– Bom, nessa perspectiva, então posso dizer que está tudo bem.

– Claro, o senhor chegou aqui sozinho, pelo que vejo, consciente, entrou caminhando; tem gente que vem de maca, e inconsciente.

Talvez seja um protocolo de acolhimento, mas foram palavras certeiras, que me deixaram à vontade. Nos dias anteriores, em conversas com conhecidos a respeito, encontrei pessoas que têm verdadeira aversão ao tal exame. Inclusive, no questionário prévio ao procedimento, as perguntas são tantas, incluindo claustrofobia, que dou razão aos que não gostam daquela experiência. Não é o meu caso, mas o técnico nos adverte, enquanto prepara o equipamento sobre situações em que devemos nos colocar, obedientes. E ainda colocam em nossa mão um dispositivo para ser acionado em caso de pânico. Não precisei, por razões óbvias, mas, por aí se vê que se trata de algo que impressiona, e mexe com quem tem suscetibilidades.

De olhos fechados, ouvindo todos aqueles sons típicos da máquina, fiquei imaginando que, muito pior, realmente, deve ser a vida da população na Ucrânia, ao ouvir, por dias e dias, o matraquear de metralhadoras russas. Que não apenas fazem barulho, mas podem ser letais. No meu caso, por 20 minutos, as ondas sonoras escaneiam meu corpo em busca de condições que provocam as dores que sinto, e o resultado será analisado por um médico que vai me indicar um tratamento adequado. Tem razão a assistente, comparado aos que frequentam a sala, comparado aos que buscam refúgio seguro em um campo de guerra, acontecendo neste mesmo momento que me encontro deitado no interior do aparelho, estou muito bem.

Há quem possa pensar que sou demasiado otimista, e facilmente influenciável. Talvez, é uma característica daqueles que praticam o otimismo fazerem-no contra a realidade. Mas não há contradição entre otimismo e realismo. Podemos, com facilidade, usar os mesmos argumentos de uma situação adversa, para alimentar uma condição de bem-estar. Trata-se de uma pequena mudança de perspectiva que a nossa dor, a depressão, ou mesmo, a má vontade, não deixam perceber, induzindo o pessimismo. Eu escolhi o otimismo, aquele cantado por Bob Marley, quando nos assevera “everything’s gonna be alright”. Assim como em meu idealismo pacifista, entendo a guerra como o suprassumo da estupidez humana, por isso, a diplomacia e o diálogo são as ferramentas melhores para fomentar a paz entre os povos. A palavra verdadeira, dita na hora certa, tem o poder de nos colocar em uma situação melhor. Tão certo quanto as que ouvi da assistente no laboratório de imagem, em um desses sábados à tarde.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

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5 Comentários

  1. Bob Marley morreu de um cancer numa unha do dedão do pé. Teria que amputar o dedo e recusou, dizem que por motivos religiosos, era Rastafari. Doença espalhou-se e foram tentados tratamentos alternativos. Deu no que deu. Otimismo ou pessimismo é de cada um, o universo não tem nada a ver com isto. Ou, como pensou uma abelha vendo um caminhão se aproximar a toda velocidade, ‘vou ferrar com este cara’.

  2. Problema da guerra na Ucrania é o local, Europa. Fosse na Africa, algum pais menor da Asia ou Oriente Medio cairia no esquecimento bem mais rapido. Alás, ideologias, alguns acreditam que a historia caminha linearmente da barbarie para a civilização. Confundem evolução tecnologica com melhoria na natureza humana. Outros acreditam que tudo se resolve com uma boa conversa. Terceiros acreditam que impor sua visão de mundo aos outros é ‘uma boa idéia’, mesmo resultando em conflitos desnecessarios. ‘Remédio é amargo, mas é para o bem’. ‘Somos moralmente superiores’. Resumo do topico é: mundo muda muito e cada vez mais rapido. Qualquer prognostico é, muito mais do que antes, chute.

  3. Ressonancia magnetica? Tecnologia tem uns 40 anos. Alguém já viu alguma IFES pesquisar o desenvolvimento de uma maquina de baixo custo para o pais não ter que importar? Ou melhor resolvendo a ‘morte da bezerra’, desenvolver aplicativos e marketar importancia depois? Alás, aqueles 5 bilhões de fundo eleitoral quebrava o galho de muitos problemas. Mas como dizem alguns com desvio de caráter por ai, ‘a democracia é cara!’.

  4. Inflação? Fato: estatal boliviana reduziu envio de gás natural à Petrobrás, 30%, o que não é pouco. Quebrou contrato. Para ‘ajudar a Argentina’. Obvio que haverá alguma repercussão na economia por aqui. Presidente boliviano é da turma do Evo Morales. ‘Socialistas’. Governo correntino é de ‘esquerda’. Elegem-se com base na ‘defesa dos pobres’, ‘seus problemas acabaram’ e o que se ve depois é um festival de incomPeTencia e corrupção.

    https://www.youtube.com/watch?v=0qKw6Tp6mhk

  5. População adoecida por conta do numero de farmácias. É mais uma, de uma grande serie, conclusão com base em muito pouca informação. Poderia ser dito que se trata de lavagem de dinheiro. Ou poderia se dizer que as farmacias não vendem somente medicamentos, vendem produtos de higiene e de beleza. Ou, como já acontece nos EUA, farmacias viraram lojas de conveniencia ou ate mercados. Vende-se até medicamentos. Sem falar em aparelhos de medir pressão, oximetros, nebulizadores, etc. Poderia ser dito que a população envelheceu e que existem novas drogas que são mais consumidos por este fato.

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