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Rescaldo – por Orlando Fonseca

Democracia forte é a que se dá pela escolha “do melhor e não do menos pior”

O que sobra dos dados eleitorais da conjuntura política brasileira atual – independente de primeiro ou segundo turno – é a negação. Não o negacionismo, que prescinde de ideologia (ou de inteligência), que persiste nos debates, e que tem feito um estrago enorme na vida cultural de nosso país (não é exclusividade nossa, por suposto, mas por aqui os efeitos são agudos).

A negação de que falo é a marca de ser “contra”, ter antipatia. Explico: as noções de esquerda e direita, como indicação de posicionamento político, no Brasil, estão travestidas nos apelidos antipetismo x antibolsonarismo.

É a situação do momento, e que tem marcado a vivência democrática nacional no último período. O quanto isso será fundamental para o futuro da nossa República é uma questão a ser pensada e discutida nos próximos anos.

Não resta dúvida de que o jogo político, aqui e em todos os regimes democráticos, tem como base a constituição de maioria. Uma força política se apresenta, se sustenta e persiste, na tendência de se fazer hegemônica. Desse modo, levanta-se uma força contrária que tenta se afirmar através de sua verdade (resumindo programa e quadros partidários), ou através de um discurso capaz de desqualificar a virtude do outro lado.

É assim que se ganha eleições, é assim que se ganha votações nos parlamentos, é assim que se assume o poder e se o exerce, enquanto o interesse popular tende para um ou outro lado do espectro, através do voto. Até aí, nada de mais, pois é melhor para uma república democrática (no meu entender) que exista a força opositiva de grupos, do que a coerção de um ditador, de um poder totalitário.

No entanto, e aí é que entra esta minha consideração: quando a afirmação de forças políticas se dá apenas pela apresentação de um discurso de negação do outro (e expedientes de toda ordem, legítimos ou nem tanto, incluindo as vias de fato, a baixaria e a violência), a democracia está doente. Avilta-se o valor humano da promoção do bem comum pelo uso do senso comum, a fim de enganar os menos esclarecidos, manipulando fatos e conceitos.

Em razão dos efeitos deletérios da corrupção no período anterior, foram jogadas fora – sem critério judicioso – lideranças e propostas políticas, com a afirmação de um discurso que emula uma contrariedade com aquela situação, potencializando o que se consagrou ao longo do tempo como “antipetismo”.

Nesse processo pendular de entronizar forças contrárias, ergueram-se bandeiras de um líder, o qual, com seu programa, ao longo dos últimos quatro anos não conseguiu se afirmar como solução aos problemas nacionais, agravados por uma pandemia e uma guerra no Leste Europeu.

Em pouco tempo se consolidou o epíteto, pelas redes sociais, debates públicos e comentários especializados da mídia, do “antibolsonarismo”, como a síntese do desgosto geral com a crise econômica e o caos social no Brasil.

Um dos sintomas de que esta falsa dicotomia entre os dois grupos “anti” que se colocaram na disputa eleitoral não representam a clássica oposição “direita-esquerda” é o fato de que a chamada “terceira via” não vingou. Ou seja, a polaridade eleitoral no quadro atual não é, necessariamente, ideológica. Sequer se trata, no mínimo, de uma contraposição de propostas políticas distanciadas pela posição no espectro político.

O Partido dos Trabalhadores vem se transformando na social-democracia, que o PSDB deixou de ser (considerando que traz no nome essa identidade). Acusar o PT de “esquerda” é desconsiderar a trajetória histórica de implantação de um programa que mantém a liberdade econômica, respeita a legislação patrimonial e a iniciativa privada.

Tem avanços no que diz respeito aos costumes, mas é conservador em muitos aspectos, no máximo uma “centro-esquerda”. Ou seja, o outro lado insiste em impingir uma falsa identidade para se afirmar como oposição.  

Embora se fale em reforma política (que não desconsidero), a principal mudança política que precisa ser feita é cultural, pois é preciso abandonar esse método, ou hábito. Uma democracia forte é aquela que se exerce através da escolha do melhor e não do menos pior.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

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7 Comentários

  1. Governo Dilma, a humilde e capaz. Forte intervenção estatal desastrada e incompetente. Deu no que deu. Simples assim. No mais é o lobo querendo se vestir de cordeiro. A raposa querendo cuidar do galinheiro. Mudanças culturais demoram gerações. Não é ato de vontade ou falta de ‘politica publica’. Ou doutrinação.

  2. Mantem a liberdade economica, legislação patrimonial e a iniciativa privada não como uma ‘dadiva’, são previstos no artigo primeiro e incisos do artigo V, clausula petrea. Mudar isto só com outra constituição. Não está disponivel para a esquerda.

  3. Partido dos Trabalhdores não é coisa unica, tem suas ‘correntes’. Mais, não existe ‘petismo’, existe o Lulopetismo. Sem Molusco com L., o honesto, que não é pá, enxada e tampouco picão, a conversa é diferente. É esquerda, basta ver os documentos e analises que são tornados publicos pelo proprio partido. Promoção de oficiais alinhados, mudança de curriculo no sistema de ensino militar, etc. O papo é ‘aquilo lá nao vale, seremos tudo o que os outros querem ouvir que nos dará mais votos para construção de hegemonia’. Depois da eleição viram os arreios. Se não der compram democraticamente apoio parlamentar (mensalão, petrolão). Só enganam os doentes da cabeça. Simples assim.

  4. Vias de fato, baixaria e violencia não são novidade no Brasil, falta é retrospectiva historica. Tem mais visibilidade, só isto. A la carte, toda eleição municipal matam um ou dois candidatos a vereador no RJ, mas isto não vende jornal e nem atende a interesses. Terceira via não vingou mas muita gente trabalhou para isto e os candidatos não tiveram capacidade e forçaram situações. Crise economica e ‘caos social’, muita ‘narrativa’. Pandemia e guerra geralmente não entram na conta. Querem negar o que todos estão vendo. Gaslighting. Os ‘menos esclarecidos’ são muito menos desafiados cognitivamente que alguns super-diplomados acreditam ser.

  5. ‘Republica democratica’ é um conceito abstrato. O melhor para a população é o que conta. Ditador na Roma Antiga era um dirigente com poderes supremos com mandato de um ano (se lembro bem). Era escolhido em epocas de crise. Vide Lucio Quincio Cincinato. Mas dai veio o tal Lucio Cornelio Sula. Figuras fortes surgem em tempos dificeis. Margareth Thatcher não saiu do nada, trabalhistas esculhambaram o pais e deu no que deu. Fim da Quarta Republica Francesa, chamaram De Gaulle. Queda do Imperio Sovietico, caos na Russia, resultado Putin. É o que se ve no Brasil hoje? Obvio que não. Tentam fazer colar narrativa com objetivos eleitorais. Tosco.

  6. Na matematica (e na ciencia) quando um modelo não corresponde ao que se observa na realidade, no mundo fático, está errado. Não são os fatos que estão equivocados. Obvio. Republica é um conceito abstrato não interiorizado pela maioria. Hegemonia tem a ver com sumpremacia. Termo agrada marxista, leninistas e gramscianos. Democracia tem a com composição, negociação, não com dominação. Esquerda e direita são campos, espectros, não blocos unitarios. Sempre foi assim. Guerra Civil espanhola, divisor de aguas. Num lado conservadores catolicos, monarquistas, monarquistas carlistas (se lembro bem) e fascistas. Do outro liberais, comunistas, socialistas e anarquistas (até Stalin mandar passar o rodo neles). Bascos, conservadores catolicos, aderiram a esquerda com a promessa de independencia. Dai Guernica, bombardeio por conta de uma arvore ‘simbolica’. Coisa do tipo. No Brasil há os que defendem a revolução violenta do proletariado, os tucanos e até os verdes. Na direita os conservadores crentes e os liberais (que tem opinião a respeito do aborto por exemplo). Basico.

  7. Para começo de conversa, ideologia emburrece (não faltam exemplos, kuakuakuakua!). É crer que um conjunto fechado de ideias serve como guia para resolver todos os problemas do mundo. Uma receita de bolo genérica. As que ainda sobrevivem do seculo passado já não comportam a complexidade do mundo atual. Simples assim. Dizem alguns que é o tal posmodernismo.

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