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Uma estúpida sardinha engolida por uma baleia branca – por Márcio Grings

Já havia passado muito tempo. Meses talvez. A noção e a perspectiva dos dias mudaram completamente no entendimento dele. Na verdade, talvez tudo tenha acontecido há poucos dias. Em primeiro lugar, não consegue mais abrir os olhos. Há uma espécie de imobilidade e total ingerência de movimentos. Fisicamente, nada pode ser acionado. Todos os dias alguém faz a sua higiene. Panos úmidos deslizam por todo o seu corpo e não sente absolutamente um único arrepio. Deve ser algo sofrível de se ver. Pelo menos não tem noção de como as coisas rolam nesse sentido. Enfim, como diria seu velho: “Fodido, fodido e meio”. Não há o que fazer. No entanto, seus ouvidos funcionam perfeitamente. A mente às vezes parece que sofre uns lapsos de memória, mas ‘tá tudo cem por cento dentro dele. “Será que alguém sabe disso”, reflete.

Pensa todos os dias naquilo que realizou, nas pessoas que amou, uma a uma. Sabe que foi um cara bacana, sim, ajudou e foi ajudado. Magoou muita gente boa também, normal, afinal, impossível passar incólume nessa vida por esse quesito.

Ao longo dos anos, ele conclui que na maior parte das vezes foi sincero com quem se relacionou. Em algumas situações, nem tanto. Tem certeza: enganou e trapaceou principalmente a si mesmo. Todos nós somos falíveis. A máquina humana está longe da perfeição.

Audição é a ferramenta que o mantém conectado com o planeta.

Pela manhã reconhece a voz da mãe. Ela conversa com ele por horas. Sempre muito carinhosa e afetiva. Ela liga alguma coisa que dispara música. Muitos dos sons que ele ouvia todo o dia antes do acontecido. Isso o deixa feliz. Quando toca “Anyone Who Had A Heart” na voz de Shelby Lynne, aquele pobre homem sorri em seu universo paralelo. Ninguém sabe disso, mas não importa. Sim, ele está sorrindo por dentro. Rememora o vídeo clipe. Shelby acordando, fazendo carinho no cachorro, passando café, escrevendo, tomando banho, telefonando… Coisas que qualquer pessoa pode fazer. Ele não mais.

Pela tarde reconhece a voz de um amigo. Esse sujeito conta ao acamado histórias em que partilham em comum. Fica irritado, será que esse filho-da-puta não sabe que sua cuca está completamente intacta. Claro que se lembra de tudo. Perfeitamente, inclusive. Fica irritado.

A noite reconhece a voz de uma ex-namorada. Ela praticamente não fala. Imagina que ela esteja segurando sua mão. Queria poder segurá-la com a mesma firmeza que a imaginação firma a cena (que provavelmente esteja acontecendo). Ele supõe que sim.

Não vai rolar sentir a mão dela.

Agora ele chora por dentro.  Derrama um rio de lágrimas em algum universo paralelo. Ninguém sabe disso, mas agora ele se importa. Sim, ele está chorando por dentro, e ninguém sabe disso.

Logo depois, novamente os panos úmidos trabalham no seu corpo. Uma enfermeira faz a sua barba. Em instantes, o mundo dos sonhos o acolhe. Lá vem aquele pesadelo de novo. Um caminhão cortando sua frente. Uma gigantesca baleia branca que engole seu automóvel como uma estúpida sardinha. O carro se esborracha todo. Preso nas ferragens por um tempo mais longo que qualquer ser humano suportaria. Ele aguenta o tranco. A cena do acidente enevoa e desaparece. Aos poucos uma luz muito forte toma conta de tudo. “Que droga é essa” pensa. Sente um arrepio estranho que cruza todo seu corpo. Consegue mexer os dedos dos pés. Acorda. Não há luz. Só o som de uma máquina que provavelmente deve estar ligada a seu corpo.

“Será que já amanheceu”, reflete na lentidão da sua imobilidade.

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