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Desumano e Ominoso Melão – por Pylla Kroth

Comecei tomar bebidas alcoólicas bem tarde, já era rapazote, lá pelos meus 18 anos, antes gostava mesmo era de uma gasosa do Kemps lá do interior e depois adorava uma Cyrillinha, elaborada a partir da casca da laranja, ou uma Grapette, que era de uva. Aliás até hoje adoro o sabor uva no refrigerante.

Mas foi em um copo de chope, depois em um “copão”, em um barril, uma cerveja, uma garrafa, um litro, um engradado, pois diziam os boêmios gaúchos que conheci “a cerveja é a maior invenção da humanidade, admitindo que a roda também é uma grande invenção, mas a roda não desce tão bem com um churrasco!”. Dizia outro boêmio brasileiro que uma dose, uma garrafa, um litro de uísque é o maior amigo do homem, é um cachorro engarrafado.

Assim sendo fui descobrindo a maravilha do “barato”. A última opção bebe-se para que algo aconteça. (risos) A felicidade de “bebemorar” os momentos de alegria e ou de tristeza. Para beber sempre existe um bom motivo, atire a primeira pedra quem não, né? Como cantor então, sempre me sobravam motivos: hora porque estava frio pra aquecer a garganta ou porque tinha que dar uma afinada no gogó.

A coisa foi se intensificando a ponto de, na virada do milênio, o doutor decretar o fim dessa angostura. Fazer o quê? Dizem que o homem passa metade da vida se destruindo, e a outra metade tentando se recompor. E eu já ando nessa segunda situação fazem 17 anos. Não me arrependo de nem um “golito” sequer. Guardo recordações de todos porres que vivi. E isso, sim, daria um livro com o titulo “Lembranças de um alterocopista”.

A bebida não me fazia mal, não tinha ressaca e quando essa aparecia, tratava rapidamente com o mesmo veneno, adicionado de ervas. Lembro-me de um desses remédios: Bitter, muito bom, chamado Bonecamp, fabricado pela Cyrilla. Curava todos porres. Mas lá pela tantas algo começou ficar complicado: dores de estômago, azia, má-digestão, vômitos, e não havia mais remédios para o mal estar.

Foi aí que, em um reclame a um amigo de copo, este me aconselhou procurar o médico Fulano de Tal, um entendedor do assunto. Marquei a consulta e chegando lá, vi se tratar de um senhor já de idade avançada com quem seguidamente trocávamos uma ideia em suas aparições nas igrejas ébrias de nossa cidade. Sim, falei “igreja”, pois todo borracho de fé tem seu bar preferido e seu padre predileto o servindo e dando-lhe “conselhos”.

Chega minha vez de ser atendido e foi aquele sorriso do Dr. Comparsa. “Ora, vejam só quem tenho a honra de receber em meu consultório! Mas o que houve contigo, amigo?” Então comecei meu relato: “Pois é, doutor, não sei o que está acontecendo comigo. Há dois dias fui a uma janta na casa de um músico de minha banda de rock e por lá comi feito um porco. Aliás, comi literalmente um pernil do dito, mais farofa, peru, bovino, lentilha, estrogonofe e tudo o que tinha na mesa! Depois fui cantar em um show programado e comecei a vomitar, quase não consegui cantar, ando ruim e sem previsão de melhoras. Já tomei até um Biterzinho, mas desta vez não teve jeito de melhorar, por isso resolvi lhe procurar.

Ele ouviu atentamente meu relato. “Engraçado, menino, mas me diga uma coisa: Que bebida ingeriu?”.

“Bah, doutor, tomei champanhe na janta, depois uísque na hora do show e no final já fraco tomei algumas cervejinhas pra hidratar, mas não resolveu nada, acho que continuo desidratado!”. Deitei na cama e ele veio com aquela lanterninha, mandou abrir a boca, mostrar a língua, puxou meus olhos, focou as pupilas, e começou apalpar minha barriga “dói aqui?”. Digo que não, ele manda respirar fundo, inspirar e continua apertando “e aqui? E agora?”, “Nada doutor não dói nada, a não ser na boca do estomago!”. Ele me olha com olhos de Sherlock Holmes, com uma lupa na mão, pensativo, e afinal me faz mais uma perguntinha: “Por acaso comeste frutas no jantar acompanhando a ceia?”, “Sim doutor comi!”. “Que frutas?”. E lhe respondo laranja, maça, banana e melão”.

Nisso ele exclama: “Melão gaúcho ou neve?”. Já atônito, respondo: “Melão neve, doutor!”. Então ele grita: “Barbaridade, tchê! Não me diga que fizeste essa bobagem?! Esse melão neve é um veneno, rapaz! Tá explicado!” diz ele, tirando a água da testa que já estava eriçada a essa altura dos fatos, tamanho era sua preocupação em achar o diagnóstico, até agora não encontrado. “FOI O MELÃO!”.

Vejam bem! Vejam bem! O melão! Esse maldito melão. Jurei nunca mais comer essa fruta danada que tanto mal me fez. Saí dali e fui direto para o bar e depois de alguns “cópitos” de chopp, com umas doses de bitter, nunca mais tive problemas. Seguindo a dica de meu médico e amigo de copo e de fé: nunca mais comi melão. E toda vez que passava mal o jeito era tomar o antídoto. Pena que isso teve um fim. Mas que foi um tempo bom, há isso foi. Sempre digo aos meus amigos que bebem: “Cuidado com o melão nas festas!”. Maldito melão!

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