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SANTA MARIA. As marcas dos maus-tratos em pets

Uma cuidadora relata os efeitos duradouros da violência na vida dos animais

A gata Maria foi resgatada após ter sofrido maus-tratos em Uruguaiana (Foto Arquivo pessoal)

Por Pedro Moro / Da Agência de Notícias da UFSM

Como de costume, a gata de rua Maria buscava comida no bairro onde vivia, em Uruguaiana, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. Em uma dessas incursões, encontrou um prato de frango sobre a pia de uma cozinha. Pulou a janela e foi direto ao alimento. O susto veio logo depois. A moradora percebeu a invasão do animal e, sem hesitar, pegou um pedaço de madeira e passou a golpeá-lo. Maria teve múltiplas fraturas e saiu desorientada.

Pouco tempo depois, a gatinha foi encontrada por uma vizinha, que a levou a uma clínica veterinária da cidade. Lá, os especialistas identificaram as lesões no corpo de Maria e, quase que de prontidão, fizeram um boletim de ocorrência contra a agressora. O processo tardou e não teve desfecho. Assim como em muitos casos, a vizinha que salvou a felina não tinha condições de adotá-la. Por isso, decidiu deixar a gata na clínica.

Os veterinários avaliaram que seria necessário amputar uma das patas. “Foi o membro direito, o bracinho direito”, lembra Alice de Figueiredo Rocha, auxiliar veterinária da clínica e estudante de Medicina Veterinária na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), que socorreu a felina em 2024. Havia a possibilidade de reconstrução por cirurgia ortopédica, mas o custo inviabilizou o procedimento. “Naquela época, custaria quase R$ 5 mil, e a pessoa não tinha condições de arcar”, explica. A decisão também levou em conta o sofrimento do animal. “Para não deixá-la com dor, porque as fraturas já estavam expostas, a equipe decidiu pela amputação”, conta.

Sem tutor ou respaldo, Maria estava mais uma vez sozinha. Mas não por muito tempo. Alice, que acompanhou a recuperação da gata, resolveu adotá-la. “Levei ela para minha casa e fiquei com ela”, lembra. Apesar de ter sido acolhida, a recuperação e a adaptação da felina foram difíceis. “Quando ela chegou lá em casa, ela não tinha aquele bracinho. Mesmo assim, tentava fugir”, comenta. 

Segundo Alice, Maria levou cerca de três meses para se sentir em casa. “Foi uma coisa bem delicada, porque ela ficou muito traumatizada, então ela se escondia dependendo de quem chegava”, recorda. “Ela ficou muito arisca naquele tempo”. Hoje, tutora e pet não estão mais juntas. Em 2025, quando já morava em Santa Maria, a gata morreu. “Ela teve um outro trauma, mas foi um acidente doméstico e aí eu perdi ela no ano passado”, conta.

A outra Maria de Alice

Em 2018, antes de se mudar para a Uruguaiana na intenção de cursar Medicina Veterinária, Alice de Figueiredo Rocha se matriculou em Zootecnia na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Na metade de 2018, ingressou na Casa do Estudante, onde, pouco tempo depois, teve que aprender a conviver com a chegada da maior crise sanitária do século. “Eu cursei por sete semestres e fiquei na pandemia”, conta. Apesar de não ter finalizado a graduação na época, a aptidão no contato com animais fez com que a estudante se unisse ao projeto Zelo, iniciativa extensionista da UFSM que busca atender aos animais presentes no campus sede, em Santa Maria. “Eu entrei no Zelo como voluntária já em 2018, tudo por causa da [Maria] Sol”, afirma. 

Era madrugada de agosto de 2018, época de frio intenso no Rio Grande do Sul, quando um carro não identificado transitava pelo campus sede da UFSM. O veículo parou nos fundos do Restaurante Universitário I e abandonou Maria Sol, uma vira-lata caramelo de porte médio para grande. “Ela foi jogada de dentro de um carro”, recorda Alice.

Depois de um tempo, quando tomou conhecimento sobre o caso, Alice se aproximou da história de Sol, e do projeto Zelo, que havia resgatado a vira-lata. Foi então que a estudante descobriu que a caramelo havia sido abandonada com sinais de abuso sexual, em função dos “sinais que ela apresentava”. Depois de uma cirurgia de emergência, Sol passou a viver livre no campus. “Só que dessa situação, ela passou a ter transtorno obsessivo compulsivo”, afirma Alice sobre o estado de saúde da vira-lata. “Ela atacava a si mesma e atacava, especialmente, homens na universidade”, rememora.

Alice, ao lado de voluntários e bolsistas do Zelo na época, montaram um pequeno lar para a cachorrinha atrás da Casa do Estudante. “A gente construiu um cercado, colocamos casinha, e a Sol ficava presa naquele cercado”, relembra. Com o lar provisório, os cuidados com a vira-lata viraram rotina. “Tirávamos ela para passear duas vezes por dia”, conta. 

Depois de um tempo, o cercado foi desmanchado para dar lugar a uma nova obra da Universidade. Com isso, Sol voltou a ficar solta pela UFSM. Isso, segundo Alice, gerou uma nova confusão. “Por causa dos ataques, no caso”. O grupo, então, conseguiu abrigar Sol em uma pequena ala no antigo Centro de Eventos da UFSM, mas por pouco tempo. 

Nessa mesma época, o transtorno decorrente do trauma se agravou. “Tinha piorado muito porque não conseguimos tratar ela com medicamentos que não fossem homeopáticos”, pondera. Conforme Alice, para seguir com um tratamento adequado, seria necessário que a vira-lata tivesse acompanhamento integral e, como ela era estudante na época, não pode assumir essa responsabilidade, nem os outros voluntários que acompanhavam o caso. “A condição era que ela fosse adotada e a gente nunca conseguiu adoção”,lamenta.

Certa vez, Sol entrou em uma grave crise devido ao transtorno. “Ela rodopiava e se atacava”. Foi levada ao Hospital Veterinário Universitário (HVU), onde ficou sedada por três dias. Naquele momento, os veterinários da instituição entenderam que Sol não poderia voltar a circular pela Universidade, tanto pela sua segurança, quanto pela de quem passa pelo campus. Em fevereiro de 2020, Maria Sol foi submetida à eutanásia.

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