Artigos

Golpe e memória – por Orlando Fonseca

Semana passada, o Brasil deu início a um processo que pode significar uma correção de rumo em sua história. A propósito, os fatos levantados no julgamento iniciado no STF, estão conectados, ao menos conceitualmente, com a memória coletiva do que ocorreu em 1964, justamente em um 1º de abril. Nas décadas que decorreram do golpe civil-militar havido naquele ano, o país atravessou um tenebroso período de exceção, com perseguições políticas, censura às artes e à imprensa, tortura e morte. Sendo que os responsáveis, tanto na parte oficial (estatal) quanto clandestina, foram anistiados, de modo amplo, geral e irrestrito. E das sequelas de tal medida estamos em tratamento até hoje. De modo que, a oportunidade criada com o início do julgamento dos atos e agentes da tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, pode significar uma forma de depurar a vida política, e em último caso, a própria democracia brasileira.

Por coincidência, o dia 25 de março, quando se iniciou o julgamento no STF, é dedicado à celebração da Constituição Brasileira. Foi a ocasião, em 1824, em que, o imperador D. Pedro I promulgou a primeira Carta Magna do país, ainda em seu regime imperial. Eis um parâmetro legítimo e inarredável: para a segurança e a fortaleza da Nação o arcabouço legal e o respeito às leis são fundamentais. Quando a democracia está em risco, deve-se recorrer à ordem, não da força, mas das leis. Em vista de haver um atentado contra o estado de direito e à democracia, o julgamento deve ser na Suprema Corte, não estamos falando do atentado a uma personagem política, ou a um grupo de pessoas; também não se está julgando uma ação violenta contra uma instituição qualquer, mas contra os pilares que sustentam a vida republicana. E não falo apenas na depredação dos prédios na Praça dos Três Poderes, em Brasília, senão de toda uma cadeia de eventos, fabulações, planejamentos, os quais buscavam manter no poder um presidente (e um projeto político) derrotado nas eleições. Esta dimensão não se pode perder de vista, sob pena de aviltar o processo ora em curso.

O processo iniciado no STF não tem precedentes na história do país, marcado por inúmeros golpes, desde a Proclamação da República, em 1889, que não passou de uma quartelada. Depois deste, tivemos a assunção de Getúlio Vargas ao poder, através de um movimento revolucionário; em 64, um presidente eleito foi deposto por uma junta militar, e as consequências (conhecidas dos mais atentos) não passaram pelo devido julgamento. Como não houve processos, como a legislação sobre “tentativa de golpe” é relativamente nova (é de 2023 a mudança no código penal), hoje se tem até mesmo dificuldade de dosimetria de penas – o que tem causado estranhamentos de modo geral – e a necessidade de se criarem teses que deem conta do tamanho do ataque, desde os movimentos ao longo do mandato do presidente, posteriormente derrotado nas eleições de 2022.

Do mesmo modo, causa estranheza o mobilização dos correligionários do derrotado pleiteando por anistia (antes mesmo de haver condenação). A desculpa vem travestida no perdão aos baderneiros de 8 de janeiro, mas a gravidade daquela intentona não se restringe àquele fatídico dia. No Brasil, diferente do que aconteceu em outros países latino-americanos, a ditadura não foi passada a limpo, no devido processo legal. O ministro do STF, Luís Roberto Barroso, lembrou como a gente vai da indignação à pena com o tempo, porém, reitera que os fatos do 8 de janeiro não podem ficar impunes, do contrário “pode fazer parecer que, na próxima eleição, quem não estiver satisfeito pode pregar a derrubada do governo eleito e pode invadir prédios públicos. E não é bom para democracia e nem para o futuro do país que prevaleça esse tipo de visão”. Na Argentina, por exemplo, agentes públicos foram julgados e condenados, na medida da responsabilidade daqueles que deveriam proteger, não apenas a Constituição e o estado de direito, mas o cidadão, seja ele a favor ou contra. Assim, anistia agora é um golpe na memória, e uma brecha para aventuras futuras. Que o processo garanta a ampla defesa, que os julgadores sejam humanos na sentença e os condenados cumpram as penas devidas, só assim o país vai recuperar a memória de sua grandeza.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.

Artigos relacionados

ATENÇÃO


1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.

2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.

3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.

4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.

5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.


OBSERVAÇÃO FINAL:


A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.

12 Comentários

  1. Resumo da opera III. Historia colhida na rua. População brasileira não tem noção de ‘nação’. Grandes desastres nacionais até despertam solidariedade, mas é só. Não existe um rumo comum ou coordenação. Falar de ‘republica’ ou ‘democracia’ é o mesmo que falar em ‘disco voador’, chupacabra ou lobisomem. A frase que melhor descreve a situação é ‘vida que segue’, fazer o mesmo para ver no que é que dá.

  2. Resumo da ópera II. História não tem catraca. Lição que fica é a frase do Mestre Yoda: ‘Não. Não tente. Faça ou não faça, mas não tente.’ Ou como dizem em guerras: ‘Cumpra a missão ou morra tentando’.

  3. Resumo da opera. Comunas azedos à parte. Maior parte da população é bombardeada na midia legada com noticias sobre o caso. Porém não interessa muito. Famigeradas ‘campanhas de conscientização’ que ninguém da bola.

  4. ‘Que o processo garanta a ampla defesa, que os julgadores sejam humanos na sentença e os condenados cumpram as penas devidas, só assim o país vai recuperar a memória de sua grandeza.’ Processo, quem tem meio neuronio sabe, é um circo. Talvez absolvam alguém ou a pena sera pequena para servir de desculpa. Os demais serão condenados e a pena será alta. Simples assim. ‘Memoria da sua grandeza’, que mané grandeza? Pais é subdesenvolvido, tem uma classe politica que quando não é corrupta é incompentente e a esculhambação é a norma. O maior problema do pais é a proxima eleição!

  5. ‘O ministro do STF, Luís Roberto Barroso, […]’. Aquele do ‘perdeu mané!’ e do ‘Nós derrotamos o bolsonarismo!”. Esta gravado em video.

  6. ‘[…] causa estranheza o mobilização dos correligionários do derrotado pleiteando por anistia […]’. Seria estranho não haver mobilização ou pleito de anistia. Basta ver o que aconteceu quando Rato Rouco foi preso.

  7. ‘[…] e a necessidade de se criarem teses que deem conta do tamanho do ataque, desde os movimentos ao longo do mandato do presidente, […]’. Principio, ‘pune-se os fatos’, a conduta criminosa. Atos. Não a personalidade do agente. Não ‘teses’.

  8. ‘[…] se tem até mesmo dificuldade de dosimetria de penas – o que tem causado estranhamentos de modo geral […]’. Não existe dificuldade nenhuma. Dosimetrias são feitas todos os dias nos tribunais do pais. Os parametros são bem claros. É isto que causa estranhamento. Juntando com a sensação de impunidade, o coitadismo penal, onde bandidões são soltos facilmente, o ‘estranhamento’ aumenta.

  9. Planos mirabolantes, bravatas, falta de noção são inegaveis. Tudo, entretanto, foi juntado numa ‘narrativa’. E o preceito legal do ‘Tentar através de violencia ou grave ameaça’ foi para o ralo.

  10. ‘[…] mas contra os pilares que sustentam a vida republicana.’ Quem lê até acha que vivemos na Suiça! Bota ‘vida republicana’ nisto! Kuakuakuakuakuakua!

  11. ‘Quando a democracia está em risco, deve-se recorrer à ordem, não da força, mas das leis.’ Um dos problemas. Leis foram desrespeitadas. Por conta de ‘tempos excepcionais’ foram tomadas ‘medidas excepcionais’. ‘Vamos usar o autoritarismo em doses homeopaticas!’.

  12. ‘[…] pode significar uma forma de depurar a vida política, e em último caso, a própria democracia brasileira.’ Afirmação é um rematada bobagem.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo