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ANÁLISE. A prisão de Maduro, após ataque dos EUA à Venezuela – por José Renato Ferraz da Silveira

Norte-americanos teriam bombardeado a capital e três estados venezuelanos

As Relações Internacionais são atravessadas por uma permanente disputa de narrativas entre o discurso oficial – formulado por Estados, organismos internacionais e elites diplomáticas – e o oficioso, que emerge das práticas informais, dos bastidores do poder, da mídia, dos movimentos sociais e das vozes marginalizadas.

Essa tensão revela que a política internacional não se constrói apenas por tratados, discursos solenes e documentos institucionais, mas também por interpretações concorrentes que disputam sentidos, legitimidade e memória. Compreender essa dualidade é essencial para desnudar os interesses, silêncios e estratégias que moldam a ordem internacional para além de sua face formal.

Guerra do Iraque: o principal motivo da guerra não existia

Em março de 2003, forças dos Estados Unidos e do Reino Unido iniciaram a Guerra do Iraque com um principal objetivo declarado: tomar e destruir as armas de destruição em massa do regime de Saddam Hussein. Após bombardear o Iraque, iniciando o que o governo americano batizou de Operação Liberdade Iraquiana, os dois países ocuparam o território iraquiano. Não encontraram, entretanto, as tais armas de destruição em massa. Os governos americano e britânico tiveram de aceitar que Saddam Hussein dissera a verdade quando alegou não possuir os armamentos. O principal motivo da guerra não existia. Outras grandes potências e manifestantes no mundo todo tentaram impedi-la, sem sucesso. O conflito durou oito anos, entre a invasão em 2003 e a saída das últimas tropas de combate dos Estados Unidos, em 2011. A guerra facilitou o fortalecimento ou surgimento de grupos armados, considerados como terroristas por países ocidentais, e gerou grande ressentimento contra o Ocidente em boa parte das populações árabe e muçulmana.

Venezuela

Donald Trump afirmou neste sábado (3) que Nicolas Maduro e sua esposa foram capturados após ataque à Venezuela. Trump elogia “operação brilhante” na Venezuela que capturou Maduro.

O país sul-americano havia afirmado mais cedo que sofrera uma “agressão militar” dos Estados Unidos após múltiplas explosões atingirem a capital, Caracas, e outras regiões do país durante a madrugada. A primeira explosão foi registrada por volta de 1h50 da manhã, horário local (2h50, em Brasília). Em comunicado, o governo venezuelano acusou os EUA de realizar um ataque contra Caracas e os estados de Miranda, Aragua e La Guaira. O presidente Nicolás Maduro decretou estado de emergência e ordenou a implementação de todos os planos de defesa nacional “no momento e nas circunstâncias apropriadas”, segundo o comunicado do governo.

Trump confirmou o ataque militar dos EUA à Venezuela e disse que o ditador Nicolás Maduro foi capturado e levado para fora do país.

Uma ação deliberada dos Estados Unidos?

O presidente dos EUA, Donald Trump, alertou repetidamente que os EUA estavam se preparando para tomar novas medidas contra supostas redes de narcotráfico na Venezuela e que ataques terrestres começarão “em breve”. Em outubro, Trump afirmou ter autorizado a CIA a operar dentro da Venezuela para reprimir o fluxo ilegal de migrantes e drogas provenientes do país sul-americano. Os EUA realizaram um grande reforço militar na região, incluindo um porta-aviões, navios de guerra e caças avançados estacionados no Caribe. Trump anunciou um “bloqueio” ao petróleo venezuelano, ampliou as sanções e realizou mais de duas dezenas de ataques a embarcações que os EUA alegam estarem envolvidas no tráfico de drogas no Oceano Pacífico e no Mar do Caribe. Trump acusou o país sul-americano de inundar os EUA com drogas, e seu governo vem bombardeando há meses barcos originários da América do Sul que, segundo ele, transportam drogas. Muitas nações condenaram os ataques como execuções extrajudiciais, e o governo Maduro sempre negou qualquer envolvimento com o narcotráfico.

Iraque e Venezuela: continuidades e diferenças 

Os ataques dos Estados Unidos ao Iraque de Saddam Hussein e à Venezuela de Nicolás Maduro revelam continuidades e diferenças na forma como Washington constrói ameaças e legitima intervenções no sistema internacional. Em ambos os casos, observa-se a mobilização de uma narrativa moralizante, que associa os governos-alvo à ideia de perigo global — seja pela suposta posse de armas de destruição em massa, no caso iraquiano, seja pela caracterização do regime venezuelano como ditadura criminosa e desestabilizadora da ordem regional.

No Iraque, essa narrativa culminou numa intervenção militar direta, sustentada por informações posteriormente desacreditadas e por uma lógica de segurança preventiva. A guerra foi apresentada como inevitável e necessária, apesar das fragilidades jurídicas e da oposição internacional significativa.

Já no caso venezuelano, a estratégia tem sido distinta: sanções econômicas severas, isolamento diplomático, reconhecimento de lideranças paralelas e ameaças recorrentes de uso da força. O que ocorreu neste sábado.

A comparação evidencia que, embora os instrumentos variem conforme o contexto histórico e regional, persiste uma mesma racionalidade de poder: a tentativa de moldar regimes políticos considerados inconvenientes aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Em ambos os casos, o discurso da democracia e dos direitos humanos convive com práticas que aprofundam crises humanitárias e corroem o direito internacional, expondo a distância entre a retórica oficial e os efeitos concretos da ação hegemônica.

(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve habitualmente às terças-feiras no site, é professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

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Um Comentário

  1. um ditador sendo deposto por um ditador.

    maduro tem que ser julgado por um órgão internacional e independente, não por vontade dos EUA.

    O interesse dos EUA não é a ditadura, nem o povo, e sim o petróleo

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