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AUTONOMIA. Economia solidária fortalece a renda e a autodeterminação de mulheres negras no Estado

Ações ampliam chances para enfrentar desigualdades em territórios periféricos

Fórum Estadual das Mulheres Negras da Economia Popular Solidária conta com loja em Porto Alegre (Foto Rafa Dotti/Divulgação)

Reproduzido do jornal eletrônico Brasil de Fato-RS / Texto de Fabiana Reinholz e Marcelo Ferreira

Inspiradas na filosofia africana Ubuntu, “eu sou porque nós somos”, mulheres negras do Rio Grande do Sul constroem, há anos, alternativas coletivas de geração de renda, autonomia econômica e enfrentamento às desigualdades estruturais. A atuação da Rede Ubuntu, do Fórum Estadual das Mulheres Negras da Economia Popular Solidária (Fespope) e de iniciativas como o projeto Economia Popular Solidária com Mulheres Negras: Empoderamento e Bem Comum revela como a economia solidária tem sido instrumento de sobrevivência, resistência e emancipação.

Integrante da coordenação do Fespope, Gilciane Neves, a Gil, explica que a Rede Ubuntu surgiu da necessidade de impulsionar empreendimentos da economia popular solidária, especialmente de mulheres negras, povos tradicionais e comunidades periféricas. “A Rede foi construída coletivamente como um espaço de cooperação, troca de saberes e fortalecimento econômico”, afirma.

Segundo Gil, essa construção coletiva possibilitou acesso a mercados, visibilidade para produtos e serviços e a venda direta, sem atravessadores. “A economia pode ser um instrumento de emancipação, não apenas de sobrevivência. Muitas mulheres passaram a complementar ou garantir a renda familiar por meio de feiras e ações coletivas e da divulgação em rede”, destaca.

Menores salários e alta informalidade

Dados do boletim especial “Mulheres negras acumulam funções e discriminações no trabalho”, elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e divulgado em 2025, revelam a dimensão das desigualdades enfrentadas por mulheres negras no Brasil.

Atualmente, 24 milhões de lares são chefiados por mulheres negras, que recebem, em média, 53% menos que os homens brancos. Essa diferença representa R$ 30,8 mil a menos por ano no rendimento dessas trabalhadoras. Entre pessoas ocupadas com ensino superior, a desigualdade é ainda maior, com uma diferença média anual de R$ 58 mil. Além disso, 39% das trabalhadoras negras estão na informalidade, sem acesso a direitos trabalhistas.

Estratégia de sobrevivência

Diante desse cenário, a economia solidária tem papel central na geração de renda e na sustentação das famílias. O Dia Nacional da Economia Solidária, celebrado em 15 de dezembro, foi instituído pela Lei nº 13.928/2019. Já a Lei nº 15.068/2024 criou a Política Nacional de Economia Solidária, estabelecendo um marco regulatório voltado à ampliação do acesso a crédito e ao fomento de cooperativas e associações.

O Relatório Sem Parar 2025, elaborado pela Sempreviva Organização Feminista (SOF), em parceria com a Gênero e Número e com apoio do Ministério das Mulheres, aponta que 80% das mulheres que vivem da economia solidária são as principais responsáveis pela renda familiar. A pesquisa também retoma dados de 2020, quando 61% das mulheres participantes da economia solidária eram negras. Segundo o Sebrae, mulheres negras representam 24% dos empreendedores no Brasil.

As reivindicações do Manifesto Econômico da Marcha das Mulheres Negras 2025 reforçam esse diagnóstico ao defender o fortalecimento do empreendedorismo negro e a expansão da economia solidária. O documento destaca que mulheres negras constroem estratégias próprias de sobrevivência e sustentação comunitária por meio da formalização de pequenos empreendimentos e da organização de redes solidárias, e afirma que cabe ao Estado reconhecer e apoiar essas iniciativas com financiamento, formação, tecnologia e canais de comercialização, valorizando cooperativas, associações e experiências comunitárias.

Rede de apoio em tempos de crise

Durante a pandemia da covid-19, a Rede Ubuntu teve papel central na manutenção da renda de inúmeras famílias. Com a suspensão das feiras presenciais, as mulheres organizaram feiras virtuais, vendas pelas redes sociais e estratégias coletivas de entrega. “Esse apoio foi essencial para mulheres que perderam empregos formais ou ficaram sem renda”, relembra Gil.

Ela ressalta que a rede segue sendo estratégica no cenário atual. “Não é apenas um grupo de WhatsApp ou um espaço de venda. É um espaço de apoio emocional, formação e resistência coletiva diante das desigualdades estruturais”, afirma.

Autonomia econômica como ferramenta de libertação

Para a militante, a economia solidária contribui diretamente para a autonomia econômica das mulheres negras. “Ter uma fonte própria de renda significa independência, poder de decisão e dignidade. A autonomia econômica nos protege de relações abusivas, fortalece nossa autoestima e amplia nosso poder de escolha”, diz. Para ela, não há empoderamento possível sem independência financeira. “Não existe empoderamento das mulheres sem empoderamento econômico.”

No Rio Grande do Sul, estado marcado por profundas desigualdades raciais, o empreendedorismo negro e a economia popular solidária cumprem papel central no enfrentamento dessas assimetrias. “Esse modelo valoriza saberes ancestrais, a cultura negra, o trabalho coletivo e a justiça social. Diferente do empreendedorismo tradicional, que prioriza o lucro individual, a economia solidária trabalha com cooperação, autogestão, comércio justo e divisão de saberes. Aqui ninguém cresce sozinho. Crescemos juntas”, afirma.

Uma trajetória construída na organização popular

A caminhada de Gil na economia solidária começou em 2002, na vila Cruzeiro, em Porto Alegre, a partir da Organização de Mulheres Negras Maria Mulher. Desempregada à época e cansada das violências vividas como trabalhadora doméstica, ela encontrou na organização coletiva uma alternativa concreta de vida. “As mulheres precisavam trabalhar de dia para comer de noite. Não conseguiam ficar só estudando. Foi aí que conheci a economia solidária como alternativa de geração de renda”, relata.

Em 2003, participou da criação da primeira feira de economia popular solidária da Grande Vila Cruzeiro, periferia de Porto Alegre, reunindo artesanato, bijuterias, brechó e atrações culturais. Desde então, segue atuando na construção dessa economia. “Criei meus três filhos a partir do trabalho autogestionado, cooperado e organizado. Acredito que é possível uma outra economia, com menos exploração e mais respeito às pessoas.”

Fespope: coletividade, formação e visibilidade

Fespope surge da organização coletiva de mulheres negras de diferentes territórios do estado. O espaço atua na articulação política, formação, defesa de direitos e ampliação do acesso às políticas públicas. “É um espaço de resistência, empoderamento, construção de futuro e valorização financeira do nosso trabalho”, define Gil.

Atualmente, o fórum reúne cerca de 60 mulheres. Parte delas integra a Loja Fespope, espaço colaborativo no centro da capital gaúcha coordenado por artesãs como Lisbete do Santos Pinheiro, também integrante da coordenação.

Economia solidária como aprendizado coletivo

Artesã há mais de 35 anos, Pinheiro afirma que a economia solidária transformou profundamente sua forma de compreender o trabalho e o empreendedorismo. Embora conheça esse modelo há mais de 20 anos, ela destaca que o aprendizado acontece de forma gradual, a partir da vivência coletiva. “É tudo um processo. Aos poucos, a gente vai entendendo o quanto a coletividade te fortalece, o quanto cria novas oportunidades e o quanto a troca de saberes, e até de problemas e dificuldades, facilita tudo”, relata.

Foi esse entendimento que levou a artesã a deixar o trabalho individual no Brique da Redenção para se dedicar integralmente à economia solidária. Para ela, a força da coletividade amplia possibilidades que dificilmente seriam alcançadas de forma isolada. “Tudo fica mais fácil quando estamos em coletividade”, defende.

Pinheiro também aponta que a economia solidária se coloca como um contraponto direto ao sistema econômico tradicional. “É um sistema que não valoriza o trabalhador, não valoriza o meio ambiente e não entende que somos um ciclo que precisa ser trabalhado em conjunto para que todo mundo cresça.”

Ela relembra ainda a construção do Fespope, idealizado por ela, Gilciane e outras mulheres negras, e destaca um dos momentos mais simbólicos do fortalecimento coletivo: o primeiro Novembro Negro organizado pelo Fórum. “Conseguimos cerca de 100 espaços de exposição para as mulheres. Sozinhas, isso não seria possível. A gente se dividiu, botou mesa aqui, botou produto ali, e assim fomos criando novas possibilidades”, conta.

Para Pinheiro, o principal ensinamento da economia solidária é crescer de forma coletiva, compartilhando saberes, fortalecendo redes e valorizando o trabalho. “A economia solidária te agrega, te dá novas possibilidades de crescer e te fortalece enquanto grupo”, conclui.

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