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BRASIL. Avanços tímidos e uma violência cada vez mais letal marcam a vida das mulheres no país

2026 iniciou com feminicídios, estupros coletivos e ainda discursos misóginos

 Entre 2021 e 2025, o Rio Grande do Sul foi o estado da região Sul que mais concentrou feminicídios

Por Bruna Homrich (Com arte de Italo de Paula) / Da Assessoria de Imprensa da Sedufsm

Segundo o estudo ‘Retrato dos feminicídios no Brasil’, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio no país em 2025, o que representou um crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior. A mesma pesquisa evidenciou que, desde 2015, quando a Lei do Feminicídio (nº 13.104) foi aprovada, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas por motivação de gênero. Entre 2021 e 2025, o Rio Grande do Sul foi o estado da região Sul que mais concentrou feminicídios. E 2026 parece seguir pelo mesmo caminho, já que, só nos dois primeiros meses do ano, foram registradas mais de 20 mortes.

Neila Baldi, diretora da Sedufsm, analisa por que a violência de gênero é a pilastra mais difícil de ser derrubada na luta por igualdade.

“De um lado, temos um movimento mundial de ascensão da extrema direita e, com isso, a defesa de uma chamada “família tradicional” e de que, nesta família, a mulher é submissa (recatada e do lar). Tanto que, no caso brasileiro, apesar de termos mudado o governo federal, não houve diminuição na violência. Também em nível mundial temos visto uma crise no capitalismo em que “o homem provedor” não é mais o provedor da casa, que sua realidade socioeconômica é diferente da de seu pai ou avó e, neste caso, vimos um fenômeno que tem se denominado de “ressentimento de gênero”. Estes movimentos, em um país que culturalmente já é machista, só potencializam o ódio às mulheres e o que temos chamado de redpill. E que, no caso da era das redes sociais, se alastra como pólvora”, analisa a dirigente.

Ainda tentando avaliar os motivos pelos quais a violência letal contra mulheres é tão grande no Brasil, Neila destaca que, desde o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, houve redução nos valores investidos em proteção às mulheres e combate à violência. “Aqui no estado isso foi gritante, inclusive com fechamento de delegacias especializadas. Ora, se eu não tenho um local em que posso confiar para fazer a denúncia, como vou fazê-la? E a confiança passa por uma pessoa treinada a ouvir e compreender a denúncia”, complementa.

Jurema Brites, professora do departamento de Ciências Sociais e coordenadora da Especialização em Estudos de Gênero da UFSM, resgata alguns momentos históricos fundamentais da luta por igualdade, a exemplo da organização de mulheres que, entre o final do século XIX e início do século XX, lutou pelo direito ao voto, no movimento conhecido como sufragista; e na ocupação do mercado de trabalho pelas mulheres, pós Segunda Guerra Mundial.

“O nazifascismo causou um impacto muito grande. Então as nações capitalistas começaram a pensar em um modelo mais aberto de participação política e de igualdade de direitos. Para te dar um exemplo fora do feminismo, temos, naquele momento, a organização dos homens que voltavam da guerra, com sequelas, e organizam o movimento social das pessoas com deficiência”, resgata Jurema.

Nesse ínterim, as mulheres foram ocupando os lugares na sociedade que antes eram apenas dos homens. E hoje no Brasil, destaca a docente, existem muitas profissões de prestígio onde as mulheres já são a maioria, como Medicina, Advocacia, Arquitetura, Jornalismo e Docência Universitária. A presença feminina na Magistratura também cresce significativamente.

“Há muitas profissões em que as mulheres já são a maioria. E elas nunca deixaram de ser as mães, as donas de casa. Essa dupla jornada também nos dá muita garra para ir adiante. E, se você olhar para os setores menos enriquecidos, aqueles homens que antes eram os provedores, estão deixando de ser. Há muito tempo que eles não dão conta desse modelo em que o homem ganha o pão e a mulher cuida dos filhos. Isso não está funcionando mais. Então temos a deterioração de uma organização que era secular”, analisa Jurema.

Na avaliação da docente, a escalada brutal nos índices de feminicídio se relaciona, também, com esse poder que está escorrendo das mãos dos homens. “A resposta é virulenta, forte, esmagadora. Em momentos de medo, o autoritarismo, a violência e o ódio crescem”, argumenta.

Para Jurema Brites, o momento atual, marcado pelo fenômeno comunicacional das redes sociais, que entrega uma quantidade enorme de informações sem qualquer tipo de controle, faz agudizar discursos de ódio, negacionistas e misóginos. Muitos desses discursos, alicerçados em argumentos pró família, propriedade e religião, habitavam, diz a docente, o subterrâneo social, sendo alçados à superfície após as últimas movimentações do cenário político brasileiro.

Ela cita a antropóloga Rita Laura Segato, que problematiza a ampla publicização, com detalhes, dos crimes de feminicídio, pois poderiam funcionar como incentivadores para homens que já estejam insuflados por egos deteriorados.

Misoginia nos espaços de saber

Se o machismo parece ter se desavergonhado por completo, adoecendo gerações inteiras, tomando conta dos espaços públicos e privados e norteando o discurso de aclamados influenciadores digitais, nos espaços de estudo e pesquisa não é muito diferente.

Recentemente, alunos do 9º ano foram suspensos do colégio particular São Domingos, em São Paulo, por enviarem mensagens misóginas em grupo de WhatsApp. O conteúdo enviado continha uma lista com nomes de meninas da turma elencadas como “mais e menos estupráveis”.

O mesmo caso ocorreu no Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), onde também circulou, em aplicativos de mensagens, uma lista contendo nomes e fotos de alunas, menores de idade, consideradas “estupráveis”.

Se a violência permanecesse na seara da difamação e da virtualidade já seria grave, mas ela vem extrapolando as telas e sendo efetivamente praticada. Em janeiro deste ano, uma menina de 17 anos foi vítima de estupro coletivo, praticado por quatro homens (de 18 e 19 anos) e um menor de idade. Dois dos agressores eram alunos do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Posteriormente, um dos réus compareceu à polícia usando uma camiseta com os dizeres “regret nothing”, que, em português, significa “não se arrependa de nada”. O problema é que essa expressão foi cunhada por grupos masculinos que pregam ódio às mulheres, a exemplo dos redpills e dos incels.

Na UFSM, desde 2021, vigora a Política de Igualdade de Gênero, que previu a criação do Espaço Multiprofissional Casa Verônica. Contudo, a asfixia orçamentária fez com que o local só fosse inaugurado em 2023, graças à emenda parlamentar da deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL), que permitiu a contratação de profissionais para darem assistência às vítimas de violência de gênero na instituição.

Hoje, a Casa Verônica atende estudantes, docentes, servidoras técnico-administrativas e trabalhadoras terceirizadas que estejam em situação de violência de gênero, entre elas a violência doméstica. “O atendimento ocorre por meio de acolhimento psicossocial e orientação jurídica, garantindo sigilo e escuta qualificada às mulheres que procuram o serviço. A Casa Verônica atua como um centro de referência institucional para acolhimento de pessoas em situação de violência de gênero e para a articulação com a rede de proteção existente na universidade e nos serviços públicos”, respondeu a equipe da Casa à Sedufsm.

Questionada sobre os principais desafios enfrentados no combate à violência de gênero dentro da UFSM, a equipe citou a complexidade das diferentes formas de violência de gênero que se manifestam no ambiente universitário, a exemplo de violência psicológica, física, sexual, assédio moral e assédio sexual em diferentes relações de poder e hierarquia dentro da instituição.

“Outro desafio importante é ampliar o conhecimento da comunidade acadêmica sobre os canais de acolhimento e denúncia, além de fortalecer políticas institucionais que promovam a prevenção e a responsabilização nos casos de violência. A Casa Verônica também aponta a necessidade de consolidar redes de apoio e ampliar ações educativas, uma vez que a transformação das desigualdades de gênero envolve mudanças culturais e institucionais mais amplas”, conclui a equipe.

Até então, a Casa Verônica recebeu, em 2022, R$ 400.000 (quatrocentos mil reais) em emendas da deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS) e, em 2024 e 2025, respectivamente, R$ 74.991 (setenta e quatro mil, novecentos e noventa e um reais) e R$ 200.000 (duzentos mil reais) em emendas da deputada Maria do Rosário (PT-RS).

Bruna Denkin, coordenadora da Casa, afirmou que “não teria sido possível oferecer os serviços e ações que a Casa Oferece, em especial no que diz respeito ao acolhimento psicológico e orientação jurídica”, sem o aporte das emendas parlamentares. Mas, uma vez que elas não têm caráter permanente, fica a dúvida: até quando os vazios orçamentários conseguirão ser preenchidos? E como fazer o enfrentamento à violência de gênero sem verba para campanhas de conscientização, debates ou apoio real às vítimas?

Neila Baldi, diretora da Sedufsm, considera que a Casa Verônica faz o que é possível, com os recursos que tem, mas que a UFSM, como instituição, pode mais. Ela lembra que, desde 2019, com a Resolução CNE/CP nº 2/2019, que definiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores para a Educação Básica e instituiu a Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (BNC-Formação), os cursos de licenciaturas deveriam incluir discussões sobre diversidade e gênero, seja de forma transversal, seja em disciplinas específicas.

“O que a UFSM fez? Uma disciplina transversal, sem que houvesse um concurso com profissional especializado/a. Deu um jeitinho e até hoje estamos assim. Se tivéssemos a disciplina específica, ofertada para todas as licenciaturas, poderíamos ampliar e oferecer também para os bacharelados/as. Uma médica ou um químico precisam tanto quanto uma professora se instrumentalizar sobre o tema. E estudantes letrados/as provocam discussões conosco, docentes, que precisamos repensar nossas práticas.  Isso é uma maneira indireta de também a gente aprender sobre. Outras, mais ousadas, é grupo reflexivo para todo docente acusado de assédio moral; e letramento de gênero para todos os e as docentes, que pode ocorrer em momentos de reuniões pedagógicas ou de departamento. Porque na prática, hoje, só busca se instrumentalizar quem já tem interesse no tema”, pondera a dirigente.

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