Mulheres não têm um dia de descanso – por Elen Biguelini

Estamos nós mulheres tranquilas, cuidando dos filhos, trabalhando, ganhando nosso próprio dinheiro, assistindo a Copa, comendo fora, cozinhando em casa, vivendo normalmente… e acordamos com notícias que poderiam ser retiradas de um jornal francês pré-revolução francesa. Um homem conservador (é claro) quer debater o voto feminino.
Não é suficiente que mulheres morram por ser mulheres todo dia, não é suficiente a violência diária, os salários menores, o teto de vidro, as falas machistas e a objetificação. Temos agora que batalhar pelo sufrágio. Este, que temos no Brasil há quase 100 anos. Pouco mais de cinco anos e estaríamos celebrando esta data, mas não, não podemos ter dias tranquilos. Alguém que não tem votos acha de bom tom dizer que mulheres não deveriam votar. Sim, pois apenas assim essa pessoa arrecadaria votos.
A discussão é de tal nível de ridicularidade, que quando comentamos com amigas e conhecidas elas ficam incrédulas.
Bertha Lutz se mexe em seu túmulo.
Chega a ser uma vergonha alheia, que um pais civilizado esteja discutindo isto.
Claramente, não é uma discussão em si, pois o direito de voto já foi adquirido e não será retirado. A maioria esmagadora olha estas falas como absurdas. Mas ainda assim, o fato de que alguém ousou falar isto em voz alta para todo o mundo ouvir já demonstra o quanto regredimos como sociedade.
Não, mulheres não votam mal. Elas votam em quem elas querem. Se não votam em seu candidato, talvez seja a hora de este candidato pensar por que não tem o voto feminino. Será que são os comentários machistas? Será que são as falas defendendo estupradores? Será que é a forma como tratam suas esposas, filhas e mães?
Não perderemos o voto, mas aqueles que apoiam estas falas absurdas perdem o respeito, além da vergonha na cara.
Viva o sufrágio universal! Viva a democracia!
(*) Elen Biguelini é doutora em História (Universidade de Coimbra, 2017) e Mestre em Estudos Feministas (Universidade de Coimbra, 2012), tendo como foco a pesquisa na história das mulheres e da autoria feminina durante o século XIX. Ela escreve semanalmente aos domingos no Site.




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