A Odisseia da racionalidade – por Amarildo Luiz Trevisan
‘Para dominar a natureza externa, herói precisa aniquilar sua natureza interna’

“De todas as criaturas que respiram e se movem sobre a terra, nada é criado mais fraco que o homem” (Homero)
A escuridão do cinema se desfaz, mas o peso do que vimos na tela permanece flutuando no ar. Em sua mais nova obra-prima, A Odisseia, que acaba de chegar aos cinemas brasileiros, o diretor britânico Christopher Nolan, responsável por obras como Interestelar e Oppenheimer, fez mais do que transpor o poema épico de Homero para as telas; ele filmou o nascimento trágico do homem moderno. Ao colocar Matt Damon na pele de um Odisseu frágil, dilacerado pelo arrependimento e pela culpa, o diretor britânico desconstrói o herói clássico para expor a anatomia de uma das maiores transições da humanidade: a passagem violenta do mito para a razão.
Inspirado no poema épico atribuído a Homero, o filme acompanha o difícil retorno de Odisseu, ou Ulisses, à sua terra natal depois da Guerra de Troia. Durante a viagem, o herói enfrenta tempestades, monstros, sereias, feiticeiras e, sobretudo, as consequências de suas próprias escolhas.
Homero tornou-se uma das bases fundamentais da cultura grega. Seus poemas não eram apenas obras literárias. Constituíam pilares da educação, da religião e da identidade coletiva. Durante séculos, crianças e jovens aprenderam a ler, escrever e recitar por meio de passagens da Ilíada e da Odisseia. Antes de ser personagem do cinema, Odisseu foi, portanto, uma figura formadora do imaginário ocidental.
O ponto de virada na direção de Nolan não está na força das espadas, mas no gênio sombrio do Cavalo de Troia. O cavalo foi apresentado aos troianos como uma oferta. Em seu interior, porém, estavam escondidos soldados gregos, entre eles Odisseu. Depois que o objeto foi levado para dentro das muralhas, os guerreiros saíram de seu esconderijo, abriram os portões e permitiram a entrada do restante do exército.
A vitória nasceu, assim, de um presente envenenado. O gesto de hospitalidade foi transformado em armadilha. A confiança tornou-se instrumento de conquista. Esse parece ser um dos principais dilemas propostos por Nolan: ao romper os vínculos de acolhimento, solidariedade e reciprocidade, Odisseu não destrói apenas Troia. Ele atinge o próprio fundamento moral do mundo ao qual deseja retornar.
Ele simula amizade para entregar a barbárie. Ao incendiar Troia de dentro para fora, o herói descobre que quebrou um pacto com o cosmos. A longa jornada de dez anos de volta para casa não é um castigo divino arbitrário; é a cobrança inexorável de uma dívida existencial.
É nesse ponto que a lente cinematográfica de Nolan encontra o pensamento cirúrgico de Theodor Adorno e Max Horkheimer. No clássico Dialética do Esclarecimento, os filósofos de Frankfurt apontam Odisseu como o primeiríssimo modelo da racionalidade instrumental. A sua mente funciona como uma máquina de custo-benefício. Para sobreviver às forças ancestrais, ele desmistifica o mundo através do cálculo: engana os deuses cumprindo o ritual do sacrifício apenas para burlá-lo, mede os danos e decide o que precisa perder para garantir o ganho maior – a própria sobrevivência.
Assim, sua jornada não seria apenas uma sucessão de aventuras. Ela representaria a passagem do mito para a razão e o nascimento de um sujeito que procura sobreviver por meio do cálculo, da astúcia e do domínio. Odisseu aprende a transformar a inteligência em ferramenta. Diante de forças muito superiores às suas, ele calcula riscos, antecipa movimentos e aceita perdas para preservar a própria vida. Sua racionalidade funciona segundo a lógica dos meios e dos fins: o que deve ser sacrificado agora para que o objetivo maior seja alcançado?
No entanto, a racionalidade instrumental cobra um imposto devastador sobre a alma. Para dominar a natureza externa, o herói precisa aniquilar sua própria natureza interna. Ele reprime seus desejos, silencia seus afetos e abre mão de quem é. Na antológica cena da caverna do Ciclope Polifemo, a astúcia de Odisseu atinge o ápice da humilhação racional. Nesse sentido, o encontro com o Ciclope Polifemo é exemplar. Para cegar o gigante de um olho só e escapar, ele aceita a invisibilidade absoluta: mistura-se ao rebanho, esconde-se sob a lã das ovelhas e abdica temporariamente do próprio nome. Para vencer o monstro, ele se anula.
O gigante de um olho só pode ser visto como uma metáfora dos extremismos atuais, incapazes de enxergar a realidade para além de uma única perspectiva. Contra essa visão estreita e absoluta, Odisseu oferece uma estratégia ainda válida: recua, mistura-se ao coletivo e suspende momentaneamente a afirmação do próprio nome. Não enfrenta a intolerância reproduzindo sua força cega, mas recorrendo à inteligência, à prudência e à capacidade de mudar de perspectiva. Sua aparente anulação não é submissão, mas resistência: ele se torna invisível por um instante para preservar a liberdade e voltar a existir fora do olhar único do monstro.
A genialidade de Nolan reside em filmar essa vitória não como um triunfo heroico, mas como uma perda irreparável. A conquista da razão que destrói o mito drena o próprio sentido da vida. O herói retorna vitorioso, mas sua vitória destruiu o mundo ao qual ele esperava regressar. Depois de tantos anos, Ítaca já não é a mesma. Penélope vive cercada por pretendentes que desejam ocupar o trono. Telêmaco, seu filho, encontra-se ameaçado.
Há nisso uma ironia profunda. O homem que venceu as forças míticas, enganou adversários e atravessou mares não pode entrar em sua própria casa com o rosto descoberto. Para recuperar seu nome, precisa escondê-lo outra vez. Para reassumir seu lugar, precisa apresentar-se como alguém sem lugar.
A racionalidade permitiu que Odisseu se emancipasse das forças míticas, do medo e da submissão ao destino. Entretanto, nessa luta, ele também se afastou de dimensões essenciais da vida: a emancipação humana custou a amizade, a confiança, a família, a fidelidade e o sentimento de pertencimento. Vencer o mito não significou alcançar imediatamente a liberdade. Significou inaugurar outra forma de aprisionamento, construída pelo cálculo, pelo domínio e pela renúncia.
Essa é a contradição do esclarecimento apontada por Adorno e Horkheimer. A razão nasceu para libertar os seres humanos do medo, mas pode converter-se em nova fonte de dominação quando reduz tudo a instrumento. Quando pessoas, relações, saberes e até a natureza passam a valer apenas por sua utilidade, o cavalo de Troia deixa de pertencer ao passado. Ele reaparece em nossas tecnologias, guerras, instituições e formas cotidianas de convivência.
Talvez a verdadeira odisseia não seja, portanto, a viagem de Troia a Ítaca. É a longa e ainda inacabada travessia da humanidade em busca de uma razão que não precise destruir para vencer.
Depois de atravessar mares, vencer monstros e desafiar os deuses, resta-lhe a tarefa mais difícil: reaprender a habitar o mundo sem transformá-lo em inimigo. Talvez seja também essa a nossa tarefa. Fazer com que a razão encontre o caminho de casa. E, quando enfim chegar, que ainda exista uma casa, alguém à espera e um mundo onde seja possível permanecer.
O destino de Ítaca torna-se o destino do Ocidente. A filosofia e as ciências herdaram aquela mesma mente calculista, aquela mesma busca obstinada pelo progresso que nos trouxe até aqui, navegando em mares tecnológicos, mas profundamente órfãos de sentido. Na última cena, o olhar desolado de Matt Damon cruza a lente e encontra o espectador na penumbra do cinema. É o fechar de cortinas de uma odisseia que ainda não terminou, deixando-nos com a incômoda certeza de que a razão nos deu o controle do mundo, mas nos condenou a habitá-lo como eternos estrangeiros. Certamente foi por se reconhecer nessa odisseia tão humana que, ao final do filme, a plateia reagiu com aplausos.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Estou lendo e relendo o escrito, buscando contatar o passado com o presente, numa sociedade que permanece estagnada, na sua ignorância, repetindo erros que derrubam à todos. É como se a humanidade luta incessantemente para sair de um buraco criado por ela mesma. A leitura do texto do Amarildo, impacta e sucinta reflexões que nos alimentam o espírito. Para mim, é um privilégio ter a oportunidade de ler um texto como este em plena madrugada, quando o silêncio impera e a criatividade prospera, para elaborarmos textos como este. Muito obrigado, meu amigo…
Resumo da opera. Vermelhos não tem criatividade, precisam parasitar o que os outros fazem, inclusive culturalmente. São bitolados, só leem o que reafirma a religião na qual acreditam. Todo o resto não interessa. Querem parecer cultos, mas são de uma ignorancia astronomica.
‘Certamente foi por se reconhecer nessa odisseia tão humana que, ao final do filme, a plateia reagiu com aplausos.’ Sim, os Vermelhos salivaram porque viram mais uma ferramenta para a mesma coisa de sempre. Nolan gravou a Odisseia em IMAX 70 mm. Só existem 40 a 45 salas no planeta para projetar o filme neste formato. Meia duzia na Europa inteira. Tres no Reino Unido e uma na Australia. Todo o resto tem experiencia de segunda ou terceira mão. Podem bater palmas.
‘ A filosofia e as ciências herdaram aquela mesma mente calculista, aquela mesma busca obstinada pelo progresso que nos trouxe até aqui, navegando em mares tecnológicos, mas profundamente órfãos de sentido.’ Quem disse que tem que existir um ‘sentido’? Alas, uma concepção ocidental.
‘É a longa e ainda inacabada travessia da humanidade em busca de uma razão que não precise destruir para vencer.’ Tipico, utilizando mitologia grega para reafirmar Hegel.
‘A conquista da razão que destrói o mito drena o próprio sentido da vida.’ Odisseu representa a razão (e a inteligencia pratica, metis) enfrentando a natureza (representada por ela mesma, pelos deuses e monstros). Fo escrita numa epoca que os gregos estavam colonizando o Mediterraneo.
‘O gigante de um olho só pode ser visto como uma metáfora dos extremismos atuais, incapazes de enxergar a realidade para além de uma única perspectiva.’ Um olho só não tira a perspectiva, tira a noção de profundidade. Fisiologia.
‘[…] a anatomia de uma das maiores transições da humanidade: a passagem violenta do mito para a razão.’ Que na realidade aconteceu na epoca da ‘Politeia’ de Platão, traduzido como ‘A Republica’. Livro onde critica a poesia que apela as emoções. O governo deve ser da lei e da razão. Critica também a ‘humanização’ dos deuses. A ‘copia da copia’. Existe uma tangente na acusação feita a Socrates, ‘corromper a juventude’, onde se inclui a tradição de ensinar a Iliada e a Odisseia.
‘[…] o pensamento cirúrgico de Theodor Adorno e Max Horkheimer.’ ‘[…] engana os deuses cumprindo o ritual do sacrifício apenas para burlá-lo, mede os danos e decide o que precisa perder para garantir o ganho maior – a própria sobrevivência.’ Cirurgicamente errado. No poema original os deuses estão presentes, ao contrario do filme, e Odisseu é protegido e muito ajudado pela deusa Atena.
‘A longa jornada de dez anos de volta para casa não é um castigo divino arbitrário; é a cobrança inexorável de uma dívida existencial.’ No poema original ele é punido porque cegou o ciclope filho de Posseidon, deus dos mares.
‘Ele atinge o próprio fundamento moral do mundo ao qual deseja retornar.’ Não existia moral judaico-cristã na epoca. Mas o conceito de ‘xenia, lei sagrada de como tratar estrangeiros, aparece no poema. Ciclope não a respeita. Os pretendentes de Penelope idem. Noutra parte do poema, não aparece no filme, ela é respeitada. No que liga com os problemas ianques junto com o problema dos veteranos de guerra.
‘ O cavalo foi apresentado aos troianos como uma oferta.’ ‘A vitória nasceu, assim, de um presente envenenado. O gesto de hospitalidade foi transformado em armadilha.’ Texto original da Iliada termina no funeral de Heitor. Não menciona o Cavalo. Na Odisseia é mencionado de passagem. Aparece de verdade na Eneida seculos depois. Também não seria um ‘presente’, seria uma oferenda a deusa Atena para assegurar um retorno seguro para casa. Hospitalidade numa guerra?
Resumo parcial. Apesar de tudo aparentemente o filme funciona. Pessoal classicista se ilude achando que irão ler mais o livro.
Obvio que os Vermelhos de plantão gritaram ‘racismo’. Apesar da discrepancia. Helen e Clitemnestra são irmãs somente por parte de mãe, não são gemeas; Além disto Clitemnestra é prima de Penelope por parte de pai. Somando a tudo isto o ingles utilizado é o ianque e o personagem principal não tem a inteligencia e o humor do poema. Os temas adaptados são problemas da sociedade ianque. Existem personagens e passagens que não são da Odisseia.
‘[…] o diretor britânico desconstrói o herói clássico […]’. Ianquelandia é o lugar onde a cultura vai para se prostituir. E uma obra ‘woke’, o elenco é a patotinha que trabalha sempre com o diretor. Elenco inclusive foi alvo de criticas. Um dos marinhos de Odisseu é coreano, outro indiano. Helena e Clitemnestra são interpretadas por Lupita Nyong’o. Apesar do poema descreve-la como ‘Leukōlenos’, braços brancos, indicador da classe social (não precisava trabalhar, tomar sol).
“O Brando”, trata-se de uma “adaptação” de Odisseia (embora tenha se aproveitado de Ilíada também), portanto, não é uma copia fiel do poema cantado de Homero. Que, aliás, por ter sido transmitido durante muito tempo pela tradição oral, pode ter chegado aos nossos dias com alterações. E a diversidade do elenco demonstra a necessidade de vermos o mundo sob uma perspectiva decolonial. Já era tempo, pois não??