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Sofrência geral – por Orlando Fonseca

Cena típica de barbearia: sento na cadeira para os procedimentos, e o barbeiro, um rapaz de 22 anos, como ele mesmo declarou, daqueles que gostam de falar, começa a puxar assunto. E uma das coisas que me pareceu interessante: ele destaca que aprecia a música dos anos 80, porque as letras atuais são machistas e não tratam a mulher com o devido respeito. Citou Barão Vermelho e Legião Urbana como exemplos.

Vamos mudar agora para outro quadro, o da conjuntura política, representada por uma notícia pela qual passei os olhos ainda há pouco em meu celular: o Ministro Dias Toffolli, que tomou posse na presidência do STF, usou letras de Cazuza e Renato Russo em seu discurso.

Juntando os dois momentos, fiquei pesando sobre a conjuntura sob um aspecto, digamos, musical. Por que pessoas que, aparentemente, refletem sobre a realidade, portanto que pensam, buscam no passado uma referência melhor? Com isso em mente, fui conferir na internet para ver se o Toffolli, caso assim decidisse, poderia encontrar contribuições na música brasileira de sucesso hoje. Encontrei algumas listas do tipo Top 10, dos vários gêneros, com as músicas mais tocadas nos rádios do Brasil, neste mês de setembro. Com algumas variações, entre os primeiros lugares, garimpei as seguintes pérolas:

“Não fala não pra mim, bebê/ Senão eu morro de beber/ Nessa fossa que eu tô, não dá/ E é só você pra me salvar” (Humberto e Ronaldo). “Olha ela aí/ Me olhando, perguntou se ainda gosto/ Querendo rasgar o papel do divórcio/ Chorando, implorando o meu amor de volta” (Eduardo Costa).

“Sei que o pra sempre virou pó/ E na cabeça deu um nó mas eu tô bem consciente” (Marília Mendonça). “Vou beijando esse copo, abraçando as garrafas/ Solidão é companheira nesse risca faca/ Enquanto cê não volta, eu tô largado às traças” (Zé Neto e Cristiano).

“Quero aquele beijo de varanda e a lua de testemunha/ Eu tô até com ciúme/ O vento deve estar usando o seu perfume” (Bruno e Marrone), esta última com uma construção poética engraçadinha, mas que ao Ministro, em seu discurso, serviria apenas para torná-lo um tanto hilário ou ridículo.

Encontrei um sucesso nacional da Anitta, a música é em espanhol, e o nome Medicina engana, pois a tradução é apenas Remédio. E o refrão diz isso aí, que parece ter algo a ver com a conjuntura, mas é melhor deixar pra lá. Tire as suas conclusões: “Se vier por trás/ Não vou dizer nada/ Todo mundo é igual/ traca traca tra tra tra”.

Sofrência ou safadeza, entre o sertanejo e o funk: bar, bebedeira, balada. Um reality show dos horrores nacionais. Com isso entendi que a arte imita a vida, a realidade nacional está do jeito que está porque falta-nos algo, e o que se vê, no plano político é, justamente, safadeza dos agentes políticos em conluio com o poder econômico, nos inúmeros rumorosos casos de corrupção – ativa e passiva; e sofrência de uma grande parcela da população, com o desemprego cada vez maior, com um custo de vida alto e salários achatados – inadimplência que já atinge 63 milhões de brasileiros – e uma falta de perspectiva para a população recém ingressante no mundo do trabalho.

O jovem barbeiro, nascido depois do sucesso de seus ídolos musicais, certamente reconhece uma permanência na proposição de versos bem elaborados e avaliações consistentes sobre a realidade brasileira.

Já o Ministro, com os seus 50 anos, teve a sua juventude marcada pela redemocratização e pelo surgimento de um movimento musical, roqueiro, com poetas de qualidade. Cantores e artistas que estiveram no topo das paradas por muitos anos.

Mas o que estamos reservando para as mentes e corações dos brasileiros atuais, dentre o conteúdo musical de sucesso? É certo que há compositores com obras realmente significativas, mas que estão à margem, não aparecem nas listas dos hits semanais ou mensais. O Brasil tá precisando de uma virada musical.

OBSERVAÇÃO DO EDITOR: a foto que ilustra esta crônica é uma reprodução da internet.

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