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Pós-eleição. Os bastidores da campanha de Lula, nas palavras do seu próprio marqueteiro

A entrevista que ninguém ainda havia feito. É a que concedeu o marqueteiro de Lula na última eleição, o baiano João Santana. Que, aliás, já havia trabalhado com o antecessor, Duda Mendonça, com quem rompeu há cinco anos.

Nas quase seis horas de conversa com o repórter especial da Folha e São Paulo, Fernando Rodrigues, e que o jornal publicou neste domingo e tornou disponível no seu braço de internet, a Folha Online, Santana deu detalhes inéditos da campanha – e até disse quanto recebeu para fazer o trabalho que, afinal, se tornou vitorioso.

Passeiam pelo texto informações importantes. Entre elas o tratamento dado à questão da corrupção e, inclusive, a exposição da estratégia que levou à acusação de que Geraldo Alckmin, se eleito, privatizaria, por exemplo, a Petrobrás, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. E ainda a decisão de vitimizar Lula, o que lhe traria apoio excepcional. E que funcionou perfeitamente, aliás.

Santana também revelou o que considera terem sido os principais erros cometidos durante a campanha, e falou de momentos particularmente tensos, como a divulgação do episódio do “dossiê”. Um trabalho jornalístico admirável, reconheço e aplaudo. E reproduzo, a seguir:

”Lula se beneficia na situação de vítima, diz publicitário João Santana

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve sua reeleição ao fato de ter virado, no imaginário do eleitorado mais pobre, uma figura dupla: um “fortão” igualmente humilde que virou poderoso e ao mesmo tempo uma vítima, um “fraquinho” sob ataque das elites.

Essa é uma das explicações usadas pelo publicitário João Cerqueira de Santana Filho para o sucesso da empreitada que acompanhou de perto nos últimos meses.

Mais cerebral e dado a reflexões quase acadêmicas (cultiva uma biblioteca com mais de 3.000 livros) e muito menos mercurial que seu antecessor, Duda Mendonça, o marqueteiro atual de Lula desenvolveu uma análise própria sobre o caso de amor do eleitorado com o presidente: a teoria do “fortão” e do “fraquinho” ele usa termos mais eloqüentes, mas criou esses enquanto falava à Folha “para ficar mais publicável”.

Lula alternaria esses dois papéis no imaginário do brasileiro das classes mais pobres. Depois que se elegeu presidente em 2002, o petista passou a ser uma projeção de sucesso para as camadas C e D da população. “É um deles. Chegou lá”, diz Santana. Nesse momento, a personagem é o “fortão”, que ‘rompeu todas as barreiras sociais e conseguiu o impossível, tornando-se um poderoso”.

Já quando “Lula é atacado, o povão pensa que é um ato das elites para derrubar o homem do povo que está lá. ‘Só porque ele é pobre’, pensam. Nesse caso, vira o bom e frágil ‘fraquinho’ que precisa ser amparado e protegido”, elabora Santana.

O marqueteiro não criou essa teoria do nada. Durante 77 dias sucessivos foi alimentado por pesquisas. A cada 24 horas, o instituto Vox Populi entrevistava 700 eleitores para a campanha do PT em todo o país. Ao mesmo tempo, também diariamente, oito grupos de 12 pessoas eram entrevistados por cerca de uma hora e meia por especialistas as chamadas pesquisas qualitativas. As ‘qualis’ eram transmitidas em vídeo, ao vivo, pela internet por meio de uma conexão segura para o microcomputador de Santana.

Em 77 dias, o publicitário de Lula teve a opinião, portanto, de 53,9 mil entrevistas quantitativas e de 7.392 qualitativas mais do que a maioria das teses universitárias que tentam entender o que pesam os eleitores brasileiros.

Baiano de Tucano (a 250 km de Salvador, no meio do sertão), aos 53 anos, Santana assessora Lula desde 24 de agosto de 2005. Foi essa a data da reunião no Palácio do Planalto na qual ouviu a seguinte frase de Lula: “A situação é incerta. Se eu for o candidato, você vai fazer a minha campanha”. Naquele momento, no auge do escândalo do mensalão, a imagem da administração petista estava no chão: só 28% de aprovação, segundo o Datafolha.

Antes de se tornar publicitário, Santana foi jornalista. Estudou na Universidade Federal da Bahia. Foi ligadíssimo ao suíço Walter Smetak (1913-1984), um dos papas da música experimental dos anos 60 e que adotou a Bahia como sua terra. Smetak é até hoje para ele uma das maiores referências.

No seu Estado, trabalhou no “Jornal da Bahia” e foi chefe do escritório local do jornal “O Globo”, tendo também trabalhado para “Veja”. Em Brasília, foi do ‘Jornal do Brasil’ e diretor da revista “Isto É” – nessa última publicação, foi um dos autores da reportagem com o motorista Eriberto França, que provocou a queda de Fernando Collor de Mello em 1992. Por esse trabalho, o baiano ganhou o Prêmio Esso daquele ano.

Em 1990/91, Santana teve uma experiência no exterior. Estudou na universidade de Georgetown, em Washington, nos Estados Unidos. “Foi um ano sabático, pago pela Fundação Loyola. Freqüentei sobretudo cursos de ciência política e relações internacionais”, relata. Nos anos 70 até o início dos 80, teve uma fase de “desbunde”. Fez uma incursão pelo mundo musical e artístico. Ajudou a fundar o grupo Bendegó, uma banda que misturava ritmos regionais e rock progressivo. Com o codinome “Patinhas”, redigiu várias letras de músicas com o parceiro Kapenga. Algumas fizeram sucesso, como “Sinal de Amor e de Perigo”, cantada pela hoje sumida Diana Pequeno. No meio da letra está um de seus melhores aforismos: “O desejo é forte, mas não salva”.

A tarefa de Santana agora foi substituir outro marqueteiro da Bahia, Duda Mendonça, afastado da posição no ano passado depois de revelar em público ter recebido cerca de R$ 10 milhões do valerioduto. No passado, Santana e Mendonça foram sócios, mas se desentenderam em 2001. A associação foi desfeita e…”


SE DESEJAR ler a íntegra da entrevista, pode fazê-lo acessando a página de “Brasil” do portal da Folha Online, no endereço http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u86328.shtml

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