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Moisés Velasquez. Dos tempos do MDB. Da gasolina azul. E, é claro, do combate à ditadura

A agência de notícias da Assembléia Legislativa tem feito um excelente trabalho de resgate das coisas do parlamento gaúcho. E, especialmente, das pessoas que fizeram a história do Palácio Farroupilha. Uma delas, a mais recente, me tocou pessoalmente. Lembrei da minha infância.

 

Trata-se da entrevista feita com o ex-deputado Moisés Velasques, hoje com 81 anos. E que desempenhou papel muito importante nos anos 60 e 70. Aqueles aos quais muitos que hoje posam de democrata aderiram alegremente. E que Velasques combatia. Recebeu voto de meu pai, ferroviário hoje aposentado. E de muitos ferroviários, que viam nele um representante fiel.

 

Em homenagem a todos quantos ainda lembram (sim, há os que esqueceram) daqueles tempos de luta, reproduzo a seguir a entrevista de Moisés Velasques. Que, por sinal, e só para constar, é o autor do projeto de resolução que deu o nome ao Palácio que, de 20 de setembro, virou Farroupilha. O trabalho é assinado pela jornalista Vanessa Cancian. Leia, porque vale a pena. A seguir:

“Moisés Velasques: gasolina azul contra a ditadura

Moisés Velasques exerceu três mandatos consecutivos como deputado estadual eleito pelo MDB, entre os anos de 1967 a 1979, e um mandato como suplente pelo PDT, de 1979 a 1983. Na Assembléia Legislativa (AL) foi 4º secretário, 2º vice-presidente e presidente da Comissão de Serviços Públicos. Como parlamentar, participou de inúmeras situações polêmicas na época do regime militar. Trabalhista “desde guri”, Velasques continua filiado ao PDT, sem participar mais da política. “Eu tenho muito orgulho daquele período. E fico triste e envergonhado com o que vejo hoje.” Gaúcho de Caçapava do Sul, aos 81 anos, mora em Porto Alegre. Tem 5 filhos e dez netos. É cidadão santa-mariense, honraria da qual tem especial orgulho, e comendador do Ministério Público Estadual.

Como o senhor iniciou a vida política?
Quando eu completei 18 anos, saiu a primeira eleição e o meu coração estava balançando entre o Getúlio Vargas e o Alberto Pasqualini. Mas, logo em seguida, o Pasqualini se acertou com o Getúlio e eu fiquei onde queria. Meus dois líderes juntos. Daí eu fiquei PTB. Quando veio o golpe eu era vereador do PTB. Antes eu era funcionário do Banco do Brasil, estava numa carreira bonita. Eu não queria ser candidato. Na Ala Moça do PTB eu preparava o Homero Braga para ser candidato a deputado.

E como o senhor veio a ser o candidato a deputado nas eleições de 1966?
Eles, na surdina, me traíram. Quando chegou na hora da convenção eu vi que era eu o candidato e não mais o Homero Braga. Como cassaram vários mandatos, o partido não tinha nem quadros para concorrer. Essa foi uma das razões que me levou a ser deputado. Foram criadas lideranças novas, em razão dos principais líderes terem sido cassados. Fui obrigado a vir lutar contra a ditadura.

Ao ser eleito deputado, o senhor começou a exercer o mandato ainda no Casarão da Rua Duque de Caxias. Como era o local?
Na casa antiga, em primeiro lugar, nós não tínhamos nada. O deputado não tinha gabinete. Só havia duas salas grandes: uma para a Arena e outra para o MDB, com um secretário para nos atender. Nós não tínhamos nem onde receber um eleitor. Quando era um assunto de certo sigilo, eu cheguei a atender o eleitor na garagem, dentro do meu carro. Nós não tínhamos assessor, tudo nós tínhamos que fazer. O que, aliás, eu sempre gostei. Mesmo depois, quando nós passamos a ter um assessor cada um, eu continuei fazendo os meus pareceres, sempre fiz todo o meu trabalho. Deixava o meu assessor só para receber as pessoas.

E o prédio novo era muito diferente do antigo?
A AL foi construída por um grupo de funcionários. Aconteceu uma coisa muito interessante. Esse grupo esqueceu que a Assembléia era dos deputados. Quando nós nos mudamos para lá no dia 20 de setembro de 1967, não tínhamos gabinete, não tinham nada. Nem o presidente tinha gabinete. O presidente da época, que era o deputado Carlos Santos, passou a atender na Sala Nobre. Mas em compensação, o diretor-geral tinha meio andar para si. E os diretores todos tinham gabinete. Na gestão do presidente Valdir Lopes nós conseguimos o sexto andar para o MDB e o nono andar para a Arena. Fizeram um gabinetezinho, uns dois metros por três, que o ex-deputado Solano Borges apelidou de baias. Quando chegava uma pessoa para ser atendida, tinha que sair o secretário porque não tinha lugar para todo mundo ali dentro.

No dia 20 de setembro de 1967, data da mudança, houve festa? A população era favorável a construção do prédio novo?
Sim, houve uma festa grande e bonita, porque todo mundo sabia que a AL, onde funcionava, não tinha as mínimas condições.

A mudança de prédio ocorreu na presidência do deputado Carlos Santos, um negro. Como se deu a eleição dele para o ser o chefe do legislativo gaúcho?
Nós resolvemos homenagear o primeiro negro eleito deputado. Houve até uma divergência de um dos nossos companheiros, que não aceitava. Antes da eleição, esse companheiro fez campanha para votarmos contra o negro. E daí parece que reforçou: votamos no Carlos Santos. Uma figura excepcional. Um homem honesto, digno, inteligente e capaz.

Como foi trocar a vida de funcionário do Banco do Brasil para a de deputado da oposição, no regime militar?
Para ter uma idéia, eu vim ganhando como deputado a metade do que eu ganhava no Banco do Brasil. Naquela época, nós passávamos necessidade até. A primeira coisa que os militares fizeram foi cortar tudo o que podiam dos deputados. Tu imaginas: uma pessoa que vem do interior para a capital, com despesas diversas, ganhando menos da metade que ganhava? Mas vim porque a gente tinha o ideal de derrubar a ditadura. Como aliás, conseguimos. O povo confiou em nós, nós tínhamos tanta credibilidade que fomos aos milhões de pessoas para as ruas pedir as Diretas-Já. Derrubamos a ditadura sem dar um tiro, porque o povo foi conosco na rua por acreditar nos seus representantes. Lamentavelmente não o que se vê hoje.

Como era o trabalho parlamentar neste período?
Nós, como deputados, ficamos muito esvaziados no trabalho. Já que nós não podíamos legislar, a Assembléia do Rio Grande do Sul criou um sistema de atuação que até hoje é copiado no Brasil inteiro. Passamos a fazer estudos dos problemas do Estado. Fazíamos comissões, estudávamos os problemas e apresentávamos soluções. Assim nasceu a Aços Finos Piratini, o Pólo Petroquímico e muitas outras coisas que se criaram naquela época foi resultado disso.

O senhor se recorda de um projeto que o marcou?
Quem deu o nome de Palácio Farroupilha ao prédio da Assembléia Legislativa fui eu. Foi o meu primeiro projeto. Eu até não tinha muita experiência e apresentei como projeto de lei, que foi corrigido para projeto de resolução. O nome da AL até então era 20 de setembro. Mas eu me perguntei: se você sai do Rio Grande do Sul, ninguém sabe o que é o 20 de setembro. Temos aqui o Palácio Piratini. Por que então não botar Palácio Farroupilha? Apresentei o projeto e foi aprovado por unanimidade. Além desse, teve também um trabalho que me orgulho muito, que ficou conhecido como a lei Velasques. Eu tirei mais de 20 mil famílias da miséria. Eram ferroviários e portuários que estavam sendo injustiçados. Fiquei com este projeto por oito anos. Tentava e era derrotado, tentava e era derrotado.

O senhor lembra de alguma polêmica importante na época em que era deputado?
Sim, a denúncia contra a Borregard (indústria de celulose, em Guaíba) foi minha. A Borregard tinha aquele cheiro horrível. Consegui levar até uma CPI. E foi através dessa luta que eles minoraram a situação.

Como foi?
Tudo começou com um amigo meu me ligando dizendo que a Borregard tinha tido um defeito numa válvula e havia lançado 12 toneladas de soda cáustica no Guaíba. Por isso, aquela poluição no rio. Quando nós fomos verificar, não era uma válvula só. Era diariamente. Os resíduos de soda caústica estavam chegando em Rio Grande, na Lagoa dos Patos. Me mandaram do Rio de Janeiro uma fotografia de satélite que mostrava que, a sete metros do Guaíba, estava sendo jogado o gás sulfídrico, que dava o cheiro. A partir daí foi um luta insana. Foi a primeira luta contra uma multinacional. Veio até o pessoal da Noruega para pressionar. A parte suja era feita aqui, mas o branqueamento que dava lucro era feito na Noruega. Nós ficávamos com a sujeira. Até que depois os militares tomaram conta da Borregard.

O senhor teve problemas com isso?
Sim, tive. O pessoal de Guaíba ficou contra mim, porque diziam que eu estava tirando os empregos de lá. E a minha mulher lecionava lá. Ela sofreu as conseqüências da antipatia que eu criei. Épocas muito duras.

Falando sobre épocas duras, como ocorreram as cassações no Rio Grande do Sul?
Nós éramos 28 deputados do MDB e 27 da Arena. Quando começaram as cassações, era tão forte o nosso sentimento que nós não tínhamos medo de sermos cassados, sabíamos que íamos ser cassados para não manter a maioria.

O senhor chegou a ser cogitado para ser cassado?
Eu era considerado um dos principais para ser cassado. Mas, por incrível que pareça, eu não fui. Eu esperava por isso a toda hora.

Por que não foi?
Eu denunciei uma compra do IPE de parte da fazenda Santa Rita, pertencente a Peracchi Barcellos. Nessa época eu pegava os projetos e trazia para casa para examinar. Eu vi que havia R$ 8 milhões para a compra de um imóvel rural em Guaíba. Estranhei: ainda se fosse um projeto para compra de um imóvel urbano, não é mesmo? Quando veio o projeto a plenário, eu consegui os votos para rejeitar aquela parte da compra da Santa Rita. Daí o escândalo estourou. E todo mundo sabia que eu ia ser…”

SUGESTÃO DE LEITURA – Você não pode deixar de ler,  aqui, a íntegra da entrevista com Moisés Velasques, feita por Vanessa Cancian, da Agência de Notícias da Assembléia Legislativa

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