Isabella. Pena que nenhum repórter tenha perguntado o que significa 7,53% de um caso policial
No momento em que escrevo esta nota, é dado como certo que o pai e a madrasta da menina Isabella, morta em São Paulo, já foram indiciados como homicidas. Mas isso importa pouco, neste momento. Inclusive o fato de indiciado não ser processado, processado não ser condenado. Não adianta mais: ambos só não estão sendo guilhotinados porque não há pena de morte no Brasil. Ou há? Se houver, não tenha dúvida, a mídia é o carrasco.
Quem melhor escreveu, até aqui, sobre a participação da mídia no episódio, penso, é Carlos Brickmann, cuja coluna no sítio especializado Observatório da Imprensa, costumo reproduzir aqui. Aliás, o nome do espaço nunca foi tão apropriado: Circo da Notícia. Dê uma conferida, a seguir:
SOBRE PREJULGAMENTOS – A menina e os abutres da montanha
O filme é de 1951, com Kirk Douglas, direção de Billy Wilder. No Brasil, chamou-se A Montanha dos Sete Abutres. Em inglês, The Big Carnival. É a história de uma tragédia, de um homem que fica preso dentro da montanha. Daria para salvá-lo depressa, mas um repórter esperto vê ali a grande oportunidade de sua vida: acumpliciado com algumas autoridades, arrumou um jeito para que o salvamento demorasse e gerasse muita matéria. A imprensa mergulhou no caso, criando aquilo que hoje se chama “comoção social”, ou “clamor público”. Em volta da montanha, acamparam curiosos, surgiram camelôs, montou-se um parque de diversões. O filme tem 57 anos – e pouca coisa é tão atual, não é mesmo?
Quem matou a menina Isabella? Não, não é este nosso tema: o que discutimos, na área de comunicação, é que, seja quem for o culpado, a imprensa já escolheu os seus culpados (que podem até ser os mesmos, mas terá sido pura coincidência). E, como no filme, não age sozinha: age com aquela autoridade que grita “assassinos” em vez de trabalhar para provar a autoria do crime. Age com aquela outra autoridade que visivelmente se esforça para manter um olho numa câmera e não perder contato com outra câmera que pode vir a se aproximar. Age com autoridades que garantem que 92,47% do crime estão resolvidos, e não há repórter que lhes peça para elucidar a porcentagem. Num caso de homicídio, apontar o responsável (ou responsáveis) e provar sua culpa representam quantos por cento do caso?
O fato é que a opinião pública, movida em boa parte por nós, da imprensa, escolheu o seu lado. Este colunista já ouviu idiotas dizendo que, se tivessem de encaminhar seu filho num fim de semana ao ex-cônjuge e à sua nova companhia, prefeririam fugir com a criança e enfrentar a Justiça. Há gente – sim, são imbecis, mas nada impede que suas idéias se propaguem – que manifesta preconceitos contra madrastas (só madrastas: padrasto, ao que parece, para essa gente é mais confiável; talvez por que, nos clássicos desenhos de Disney, as madrastas fossem piores).
Imaginemos que os acusados pela tragédia de Isabella sejam o pai e sua segunda esposa. Qual júri será isento o suficiente para julgá-los? E imaginemos que não sejam: quem reconstruirá sua vida destruída? Isso não parece problema para muitos jornalistas: caso os culpados sejam outros, nada melhor do que escrever sobre o Bar Bodega, a Escola Base e botar a culpa nos colegas que não puderam se defender tão rapidamente…
SUGESTÃO DE LEITURA – confira aqui a íntegra da instigante coluna Circo da Notícia, de Carlos Brickmann, no sítio Observatório da Imprensa.





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