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Leãozinho paz e amor – por Orlando Fonseca

“A pressão das ruas e do Senado acelerou o calendário da isenção do IR”

Dois aspectos são muito relevantes na aprovação, pela Câmara Federal, da isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil: a unanimidade e a primeira pauta de interesse público votada em plenário no último período. O governo e os parlamentares da base, lógico, estão comemorando. Houve mesmo um sentimento de incredulidade com a unanimidade favorável. Ainda que não seja possível gritar “Calma que o Leão é manso”, já é uma decisão muito bem recebida pelos trabalhadores assalariados.

Lembrando, no entanto, sem estragar a festa, que, apesar do placar de 493 a 0, a justiça tributária está longe de ser consenso nos diferentes cenários do Planalto Central. Muita coisa pode ser observada para além do episódio, que ainda tem o embate no Senado, no qual, a considerar pelos últimos eventos, deve transcorrer com tranquilidade.

Nas discussões que antecederam a votação, a direita se juntou nos argumentos, acusando o governo de populismo e irresponsabilidade fiscal. Profetizou fuga de capitais e colapso das contas públicas, enfim, toda sorte de palpites para reforçar que o ministro da Fazenda promove uma fúria arrecadatória. Mas é bom lembrar que este pessoal estava falando em defesa da menor parcela da população: 140 mil contribuintes de alta renda que hoje pagam em média 2,5% de imposto (grupo de 0,1% dos brasileiros).

A medida aprovada, que beneficiará 16 milhões de brasileiros, terá a compensação daquele grupo endinheirado que passará a recolher uma taxa mínima de 5% a 10%. Para a maior parte dos contribuintes, inclusive os considerados de classe média alta, pouco mudará. Ao fim da votação, o presidente Hugo Motta cutucou o coro dos descontentes (que acabou votando a favor) ao proclamar o fim da luta de classes. “Quando o tema é o bem-estar das famílias brasileiras, não há lados nem divisões, mas sim o interesse do país”.

Diga-se, a bem da verdade, que os senhores deputados não deram uma de bonzinhos. Sem uma pressão significativa com a mobilização popular contra a PEC da Blindagem, que sacudiu as grandes capitais, teriam mantido a posição contra. Na votação da PEC, a Câmara ultrapassou o limite da responsabilidade, o que se junta ao esforço pela anistia aos golpistas, e a ampliação do Fundão eleitoral que cresceu de R$ 1 bilhão para R$ 4,9 bilhões.

A redução do IR era uma promessa de campanha de Lula, por isso há um bom tempo que a matéria vinha sendo empurrada. Lembremos também que o governo Bolsonaro aventou a possibilidade, mas não cumpriu: veio a pandemia e tal, e o governo, que não tinha um projeto consistente, desandou de vez. O esforço da base em pôr a matéria em votação começa na reação do governo ao combo tarifaço e sanções de Trump aos integrantes do STF e membros do governo (a partir da ação de Eduardo Bolsonaro).

Isso deu a Lula o discurso da defesa da soberania e do interesse nacional, que se somou à pregação por justiça tributária e promoção dos interesses dos mais pobres. Aliás, pauta que ele havia começado na polêmica do aumento do IOF e agora intensificou com a isenção do IR.

A pressão das ruas e do Senado acelerou o calendário da isenção do IR (por mais que Motta e o relator da matéria, Arthur Lira, neguem). Enfim, fizeram o que os dois sabem conduzir muito bem quando querem: avançar as matérias sem ninguém atrapalhar. No caso desta votação, prevaleceu o bom senso na promoção de justiça fiscal + incremento econômico, pois o que a Receita deixa de arrecadar é dinheiro injetado na economia. Há quem veja no esforço do governo um projeto eleitoreiro, no entanto, convenhamos, tudo em política é eleitoreiro. Aliás, a própria votação unânime neste caso é eleitoreira: que parlamentar quer ver seu nome numa lista dos que votaram contra um projeto que beneficia uma parcela significativa da população?

A isenção do pagamento de Imposto de Renda amansa o Leão de tal maneira que nem as poucas mudanças no texto original preocupam Planalto e Fazenda. Se passar desse jeito também no Senado, apazigua (por ora) a relação com as Casas Legislativas e estará ótimo para o projeto Lulinha paz e amor ser reativado, a fim de potencializar a disputa pela sequência do mandato.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.

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19 Comentários

  1. Resumo da opera. O estoque da divida publica no final de 2023 era 6,5 trilhões. Agora em agosto de 2025 atingiu 8,1 trilhões. Números oficiais. Ja foi previsto que em 2027 não havera despesas discricionarias, só verbas carimbadas. Nada disto mudou. Ja não interessa mais quem vai ser eleito, se vai acontecer estelionato eleitoral. Depois do pleito vem o pacote de maldades. A conta uma hora chega.

  2. ‘[…] e estará ótimo para o projeto Lulinha paz e amor ser reativado, a fim de potencializar a disputa pela sequência do mandato.’ Pode até tentar. Pode até conseguir se reeleger. Mas a rejeição e o desgaste de 3 mandatos vão entrar na conta. Comprou briga com um monte de gente, aqui e lá fora. Pode enganar o populacho ignorante, mas os numeros da economia não mentem.

  3. ‘A isenção do pagamento de Imposto de Renda amansa o Leão de tal maneira que nem as poucas mudanças no texto original preocupam Planalto e Fazenda.’ E se o Senado aumentar a isenção para 10 mil como fica?

  4. ‘[…] que parlamentar quer ver seu nome numa lista dos que votaram contra um projeto que beneficia uma parcela significativa da população?’. Duvido que a grande massa lembre disto no dia da eleição. Os politicos vão usar como slogam ‘votei a favor da medida’, Rato Rouco vai propagandear como ‘realização’, mas o clima na epoca da eleição é que vai definir o resultado. Vide que a informação e o juizo de valor vem de cima para baixo como foi feito durante muito tempo, mas atualmente as pessoas tem oportunidade maior de conversar umas com as outras e tirarem suas proprias conclusões. Por isto a urgencia em ‘regulamentar as redes sociais’. Perda de ‘controle’.

  5. ‘Há quem veja no esforço do governo um projeto eleitoreiro, no entanto, convenhamos, tudo em política é eleitoreiro.’ Relativização. Um monte de erros viram um ‘acerto’. ‘Se todos fazem não tem problema’. Questão que fica é se em paises onde a população é menos ignorante a classe politica é mais sutil nas ‘medidas eleitoreiras’.

  6. ‘No caso desta votação, prevaleceu o bom senso na promoção de justiça fiscal + incremento econômico, pois o que a Receita deixa de arrecadar é dinheiro injetado na economia.’ Por que Taxad tributou até as blusinhas da Shopee então? Que rebentou as entregas dos Correios e aumentou o deficita da empresa? Cereja do bolo. ‘O Globo’ de 3 de setembro de 2025. Correios tinham contrato com fintech que gerenciava os pagamentos com cartão e possivelmente tinha ligações com o PCC. Alas, Exercito e Congresso aparentemente também tinham contrato com a mesma empresa. Que era ou é de Barueri.

  7. ‘Lembremos também que o governo Bolsonaro aventou a possibilidade, mas não cumpriu: veio a pandemia e tal […]’. Sim, Cavalão também aumentou os gastos e as benesses para tentar se reeleger. ‘Depois a gente vê’.

  8. ‘[…] e a ampliação do Fundão eleitoral que cresceu de R$ 1 bilhão para R$ 4,9 bilhões.’ Isto ficou atrás de alguma cortina de fumaça. Maior parte da população não deu por conta.

  9. ‘Sem uma pressão significativa com a mobilização popular contra a PEC da Blindagem, que sacudiu as grandes capitais, teriam mantido a posição.’ Mobilização popular uma ova. Jogada ensaiada. Vermelhos fizeram showmícios que juntaram mais gente que o habitual. Trancamento no Senado já estava negociada. Só os muito trouxas não viram isto.

  10. ‘“Quando o tema é o bem-estar das famílias brasileiras, não há lados nem divisões, mas sim o interesse do país” Sim, Hugo Motta fazendo benesses com dinheiro caido de Marte. E um deputado pela Paraíba. Teve 158 mil votos na ultima eleição. Vamos combinar que existem legisladores na mesma casa com muito mais votos. E desqualificação? Não, constatação de que o Congresso é um mundo a parte.

  11. ‘A medida aprovada, que beneficiará 16 milhões de brasileiros,[…]’. Menos. Hoje quem ganha até 3 mil está isento. Entre 3 mil e 3,5 mil paga 7,5%. Quem ganha entre 3,5mil e 4,7 mil paga 15%. Assim vai.

  12. Alas, para não deixar as flores de lado. Despesa. Reforma administrativa que estão ‘cozinhando’ no Congresso. ‘Revoltou’ os servidores publicos. É para ingles ver. Impede uma reforma séria. Relator já falou que não vai mexer na estabilidade e nos ‘direitos’. Relator é filho de funcionario publico e de uma professora. Alas, na epoca que ele era chefe de gabinete de Eduardo Paes a professora conseguiu uma boquinha no mesmo gabinete. Tudo ‘legal’.

  13. Palavras chave: planejamento tributario e elisão fiscal. Para resumir: gente com muito dinheiro não é burra e o que não sabe pode ser resolvida por gente paga para resolver o problema. Governo anuncia que vai depena-los e eles não vão ficar parados esperando. O sistema se adapta.

  14. Vide Xandão e a lei Magiclick. Foi revelado que o ‘instituto’ que ele criou é uma holding patrimonial. Todos os imóveis da familia, ou pelo menos a maior parte, foram transferidos para o instituto. Segundo noticiado dois imoveis de 16 milhões, um apartamento duplex no valor de 4 milhões em Campos do Jordão. Se os causidicos da aldeia colocam os proprios veiculos no patrimonio do escritorio, não é absurdo imaginar que os veiculos da familia Xandão também estão pendurados no ‘instituto’.

  15. ‘Mas é bom lembrar que este pessoal estava falando em defesa da menor parcela da população: 140 mil contribuintes de alta renda que hoje pagam em média 2,5% de imposto[…]’. Sim, agora que o governo baixou um canetaço ‘vão pagar mais’. Só alguém muito burro para acreditar nesta lorota.

  16. Nas entrelinhas o que rege a cacofonia tributaria e a necessidade (população envelhecendo) e despesas carimbadas do orçamento. Que vão acabar mudando, menos crianças menor gasto em educação. Problema é que o mais provavel é que existam as necessidades de 43% de carga tributaria e a economia não renda o suficiente para atende-las.

  17. O mesmo estudo mostra que renuncias tributarias, gasto tributario ou beneficios fiscais ou renuncias tributarias, superam 4% do PIB. Maior renuncia (22% do bolo) é o Simples Nacional.

  18. Estudo do economista Pedro Fernando Nery para o Instituto Esfera e Associação Brasileira de Industria Quimica (Gastos tributários em cenário de carga tributária crescente: o desafio de reformar) dá conta que a carga tributária do pais vai ser a que vai aumentar mais no mundo até 2050. Salto de quase 10 pontos percentuais. Atualmente, graças a Taxad, está em 34%. Alguém notou alguma melhora nos serviços prestados pelo Estado? Duvido. Obras de necessidade duvidosa e eleitoreiras. Gastos sociais para garantir a reeleição. Beiradas.

  19. Por partes como diria Elize Matsunaga. Taxad culpa o governo Cavalão pelo deficit no orçamento do ano vindouro. Mudanças no BPC e no Fundeb. Como votaram os vermelhos? Ajudaram na aprovação. Contam com o esquecimento para livrar a barra de Andrade.

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