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D’além mar – por Luciano Ribas

Este texto foi originalmente publicado no “antigo sítio”. E, a pedido do autor, Luciano Ribas, em função dos últimos resultados divulgados acerca do desempenho do governo Lula no aspecto social (pesquisa feita pelo IBGE), é republicado – com a concordância do editor.

 

Depois de um recesso, retomo meus artigos dominicais neste site, renovando meus agradecimentos ao Claudemir por me propiciar esta oportunidade. Meus três ou quatro leitores, certamente amigos fiéis, irão corroborar minhas palavras. Segunda-feira, talvez até me liguem para destacar uma frase específica, uma palavra mais rebuscada, uma informação nas entrelinhas do texto. Afinal, é para ignorar nossas limitações que existem os amigos. Benditos sejam.

Mudando do saco pra mala, há dois assuntos que me distraem do cotidiano. São quase um desvio de caráter, admito, mas são coisas que gosto e sobre as quais procuro avidamente por informações.

Um deles é a aviação militar, sobretudo de caça. Apesar de ser pacifista, eleitor convicto do desarmamento, me satisfaz saber a diferença entre um F-16 e um SU-27. Ou o que significará pra FAB a modernização dos F5 e a aquisição de mísseis BVR, sem falar do caráter estratégico do programa VLS. Maiores informações, se desejarem, no site www.defesanet.com.br.

O outro é a investigação genealógica. Me dedico a ela com um amadorismo absoluto, apenas compensado pela minha curiosidade pelo passado. Não o faço por buscar algum ancestral nobre ou com distinção histórica, mas porque acho que preciso saber de onde vim para melhor me compreender no mundo. Um homem é ele mais suas circunstâncias, dizem; acrescentaria “sua história” à frase para ela ficar ainda mais completa.

Na pesquisa que tenho feito tenho tido a felicidade de me reconhecer entre tantos que confundem sua herança genética com a própria formação histórica do Rio Grande. Não escondo que me enche de orgulho o sangue absolutamente mestiço que corre em minhas veias, traço de um estado construído por muitos sotaques e semblantes.

Pelos sobrenomes aos quais sou ligado pelo lado paterno, consegui já chegar até um cidadão chamado Bernardo José Pinto, nascido em Portugal ainda no século XVIII (ainda sem o Ribas, um sobrenome toponímico que surge já no Brasil, talvez por algum erro de registro). Deste se origina o avô de meu avô, Antonio Pinto de Oliveira Ribas, natural de Lapa, no atual estado do Paraná (na época pertencia a São Paulo). Como tantos “paulistas”, emigrou para os confins do sul e aqui fixou sua descendência, falecendo em São Martinho da Serra.

De minha mãe herdei uma ascendência judaico-germânica, italiana e, dizem, francesa (a qual não pude confirmar), além de indígena e portuguesa. Minha avó Judite é prima em primeiro grau do líder trabalhista Fernando Ferrari, ambos descendendo do imigrante Stefano Ferrari, originado de um lugarejo lombardo chamado Pieve D’Olmi e que hoje possui menos habitantes do que na década de 70 do século XIX quando ele emigrou. Este Stefano, de quem tenho a felicidade de possuir uma foto ao lado da família (minha bisavó Avelina ali está), é filho de um Francesco e de uma Ângela, cujos restos já devem ter há muito se tornado pó em solo italiano.

Meu avô Floriano contava histórias de seu avô, o Zeca do Gaúcho, que tinha terras em São Gabriel e usava sempre uma capa da Guerra do Paraguai, onde lutou ao lado de muitos outros pampeanos. Inclusive de um Ribas, que ainda não identifiquei, mas do qual guardo com muita honra um sabre que há mais de um século e meio é conservado pela família.

Bueno, se alguém superou os limites enfadonhos de assuntos que dizem respeito a mim e pouco mais de meia dúzia de outros indivíduos, talvez agora entenda que meu relato não é nenhum tipo de ostentação de linhagem. Muito antes pelo contrário, pois me considero herdeiro de desgarrados de outras terras que por aqui apareceram em busca de alguma dignidade.

Nesta semana recebi por e-mail um texto eivado de preconceitos, cuja linha mestra era a execração do presidente Lula e de todos os que nele votaram, tratados como um bando de miseráveis venais e ignorantes, uma escumalha embrutalhada cuja razão de existir seria cercar uma disforme e indefinida “elite”.

Entre crimes (de maior ou menor monta) e bobagens pueris, tal texto em dado momento declara: “não sei o que meu bisavô tinha na cabeça, quando resolveu migrar da Itália para esta pocilga. Infeliz decisão”. A frase, a própria negação da sutileza, é uma forma indireta de dizer “olhem, sou branco e de origem européia! Exijo respeito!”. Quem não tem argumentos banha-se fartamente na desumanidade…

Quando li isso – e tive estômago para tanto – confesso que lembrei da foto do velho Stefano com a sua Giudita. Pensei nele deixando sua pátria, sua língua, seus familiares, trazendo consigo 2 filhos pequenos através de todo um oceano. Lembrei que Pieve D’Olmi fica ao lado do Rio Pó, portanto deve ser um lugar fértil e rico. Que diabos então fez com que este italiano louco saísse do “primeiro mundo” para vir ter cá nesta “pocilga”?

A resposta é tão simples quanto óbvia. O Stefano e sua Giudita, junto com o bisavô do imbecil que escreveu o referido texto e de milhares de outros, fugiram da fome, da exclusão, da desigualdade e da elite autista. Eles eram os miseráveis do século XIX e seus estômagos roncavam tão alto quanto os de milhões de brasileiros roncam hoje.

Se eles tivessem tido um governante que sabe o que é sentir fome e que assistiu a mulher falecer no parto por falta de atendimento médico, talvez uma Bolsa-Família pudesse ter-lhes dado esperança e possibilitado um caminho que não fosse o do porão de um navio.

Em dois anos o Brasil subiu de quarta nação mais desigual do mundo para décima; pouco, ainda, é certo, mas um sinal inconteste que a desigualdade por aqui diminui a passos largos porque o Estado agora está a serviço do povo. E a miséria diminuiu 20% nos 3 primeiros anos do governo Lula, o que mostra que quem faz três refeições num dia tem, sim, salvação.

Mas o Stefano e o Bernardo certamente morreram felizes em território brasileiro. Sua descendência é enorme e seu traços estão em muitos rostos espalhados pelo mundo. Se saíram de suas terras pela necessidade, foi pelo amor pela vida que aqui construíram seus destinos e dos que deles se originaram. Eram excluídos, mas eram sobreviventes. Eram miseráveis, provavelmente, mas eram seres humanos. Como o são os milhões que votaram em Lula e reelegeram um nordestino, metalúrgico, sem diploma superior, deficiente físico e até com alguns problemas de concordância, presidente da República.

Afinal, só quem compreende a dor sabe o que vale o que foi feito até agora.

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2 Comentários

  1. Olá… gosto de genealogia, e me parece que vc tem o fio da meada que estou procurando… pelo que entendi vc é meu parente mesmo. Meu tataravô é o Antonio Pinto de Oliveira Ribas que veio de Lapa/PR vindo para S.Martinho da Serra/RS, onde nasceu meu avô Teodoro Pinto de Oliveira Ribas.Mas o que mais eu procurava era sobre Bernardo José Pinto, este eu não tenho nada de informações, se vc tiver e quiser me fornecer agradeço muito… Grande abraço parente… Abigail Ribas Dourado-Gramado/RS

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