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A Onda – por Rogério Koff

Assisti a um grande filme neste feriado. Falo assim, entusiasmado, porque têm sido raras as ocasiões em que um filme mexe com meus nervos e provoca reflexão. Não tenho ido a cinema e, depois de investir pesado em televisão e aparelhagens, tenho assistido aos meus velhos e prediletos filmes no conforto de casa. Quanto aos lançamentos, assisto a alguns com certo tédio e me contento quando consigo simplesmente entretenimento.

Mas com A Onda (Die Welle, Alemanha, 2009) foi diferente. A história é de um professor secundário que ministra um curso sobre o significado da autocracia. Sem conseguir atenção da classe, o mestre resolve realizar uma experiência, criando na própria sala de aula uma espécie de comunidade, batizada como “a onda”. Empolgados com a nova proposta, capaz de renovar laços sociais deteriorados e unir pessoas antes afastadas a partir de um ideal comum, os alunos se lançam pouco a pouco em uma aventura cujas consequências se tornam imprevisíveis.

A Onda tem o mérito de discutir a problemática das origens do totalitarismo. Diga-se de passagem que o filme original, produzido nos Estados Unidos nos anos 1980, tinha como pano de fundo a efervescência do nazismo na Alemanha dos anos 1930. Foi um trabalho para a televisão, com 45 minutos de duração e que não recebeu maior atenção de público ou crítica. Esta nova versão consegue revitalizar a temática e trazê-la para os dias atuais.

Nossa grande perplexidade diante deste filme reside no fato de que os ideais que nutrem o totalitarismo não são exatamente negativos em sua origem, mas acabam desvirtuados. As noções de pátria, identidade, pertencimento, ou o espírito de grupo e a defesa dos laços sociais são potencialmente as bases para a sedimentação de qualquer comunidade. Infelizmente, a ânsia pelo poder e a intolerância colocam tudo a perder.

Não pude deixar de comparar com o cenário brasileiro. O futebol nos deu exemplos de sobra no último final de semana. É muito bonito poder declarar nossa paixão por um clube de futebol. Sou gremista desde os anos 1970, já disse isso em outras crônicas neste mesmo espaço. Sentimo-nos identificados quando saímos às ruas e vemos outras pessoas que não conhecemos e que torcem pelo nosso time. Estes laços ganham maior significado quando encontramos gente vestindo a camisa do nosso clube em lugares distantes ou eventos internacionais, como partidas da Copa do Mundo. Quando morei no Rio de Janeiro e caminhava pela praia, me cansava de puxar assunto com transeuntes que vestiam a camiseta do Grêmio.

Mas depois de assistir à batalha campal em Curitiba e às cenas de barbárie no Rio de Janeiro, somadas aos cerca de vinte meliantes que foram ao aeroporto agredir os jogadores do Grêmio por terem supostamente demonstrado maior vontade de vencer o Flamengo no Maracanã, tive a certeza de que vivemos uma época muito perigosa. Acho que todos deveríamos assistir A Onda e pensar um pouco no futuro, nas torcidas organizadas e em medidas que, a curto prazo, deverão ser tomadas para controlar estas corjas de fascistas. Sob pena de assistirmos, passivamente, a novas tragédias.

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