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Pesos e medidas – por Luciano Ribas

Três líderes do Oriente Médio estiveram no Brasil num curto período de tempo e certamente não o fizeram por acaso. Se fôssemos o mesmo país da diplomacia de avestruz dos tempos do tucanato (aquela que nos forçava a aplaudir os ditos dos americanos e só freqüentar os salões da Europa Ocidental) dificilmente isso aconteceria. Mas essa concepção provinciana e envergonhada faz parte do passado; agora, temos nosso justo e crescente quinhão de protagonismo nas relações globais, com as conseqüências que nos são trazidas por esta opção, naturalmente.

Nenhum dos três provocou tanto alvoroço quanto o iraniano Mahmoud Ahmadinejad, um homem polêmico que preside um país complexo. Todos deram opinião sobre sua visita, até mesmo nosso “colunista eletrificado”, Lasier Martins; na média, as opiniões iniciavam com as costumeiras (e justas) críticas às violações dos direitos humanos, enveredando depois por alguma cutucada no presidente Lula. Ou seja, o esperado, cada vez menos elegância ou inteligência.

No mesmo período Barak Obama visitou a China e, paradoxalmente, passou “liso” das críticas de velhos e novos defensores dos mais elevados valores humanos. Claro, pode-se dizer que ele não é o presidente do Brasil, ou seja, não temos nada a ver com isso – como se fosse possível, quando as duas maiores economias do planeta trocam sorrisos e artimanhas diplomáticas, ignorar o encontro.

Como é impossível ignorá-lo, usemos o acontecimento para que uma comparação útil e legítima seja feita. Lula recebeu o presidente de um país que aplica a pena de morte; Obama visitou outro que a utiliza largamente, inclusive com a suspeição de comercializar os órgãos dos executados. O país de Mahmoud Ahmadinejad reprime violentamente opositores, tal como o faz a China (alguém esqueceu o “Massacre da Praça da Paz Celestial”?). Ambos, também, não são nem de longe uma democracia (ao menos como a entendemos), nem parecem desejar ser, mas no Irã ao menos existem eleições. Homossexuais ou são considerados criminosos ou, ao menos, são extremamente discriminados tanto no regime de Beijing quanto no de Teerã. Chinesas recém nascidas são abandonadas à morte em muitos locais do interior da China, por conta de uma cultura que valoriza a existência de um primeiro filho homem; iranianas não têm o mesmo status dos homens do seu país, embora sua situação seja muito melhor do que na maioria das nações islâmicas.

Em resumo, Irã e China estão igualmente muito distantes do que consideramos modelos para o nosso país ou para o mundo. Por que, então, tanta diferença de tratamento quando dois líderes ocidentais dialogam com essas (e outras) nações? Deveríamos evitar relações com ambas, mesmo sabendo da sua relevância, tanto na economia quanto na geopolítica? Dialogar com iranianos e chineses, inclusive expondo-os aos protestos públicos e reiterando nossas posições democráticas, pode ser mais negativo do que isolá-los da comunidade internacional? O tratamento que os americanos reservam aos imigrantes ou aos prisioneiros de Guantánamo violam menos os direitos humanos do que as políticas repressivas na China e no Irã? Indo além no terreno dos “princípios”, deveríamos não receber Barak Obama em nosso país, caso consideremos que os EUA também promovem crimes contra a humanidade, inclusive além das suas fronteiras, sem falar que também lá vigora a imoral pena capital?

Não desejo responder diretamente tais questões, ao menos por hora. Tenho certeza de que aqueles que lerem este texto saberão intuir como eu o faria, sem muita dificuldade, creio. Prefiro demonstrar que a máxima de Nietzsche de que “não há fatos, apenas interpretações” é ajusta-se perfeitamente a uma humanidade tão suscetível a ter não apenas dois, mas diversos pesos e medidas, dependendo das circunstâncias e das conveniências. Quando se trata da meia dúzia de famílias que controla os meios de comunicação “tradicionais”, por exemplo, isso é ainda mais acertado; mas a frase me parece ser universal e atingir, de uma forma ou de outra, a todos.

Mesmo assim, posso me dizer um tanto quanto surpreso com a concordância de meu amigo e ex-companheiro Marcos Rolim em aceitar um cargo (que creio ser comissionado, o popular “CC”) no Tribunal de Contas do Estado. Surpreso e um pouco decepcionado.

Para quem não lembra, o TCE viu seu ex-presidente envolvido em pesadas denúncias e poderá contar, em breve, com o deputado Marco Peixoto como conselheiro, outro que teve seu nome relacionado a fatos estranhos bem recentemente. Este mesmo TCE tem servido como destino de políticos em fim de carreira, com indicações barganhadas entre as bancadas na Assembléia Legislativa, algo muito pouco republicano, do meu ponto de vista.

Sei que, se assim desejar, o Rolim não terá dificuldades em explicar os motivos que o levaram a aceitar o convite, bem como não duvido da sinceridade das suas intenções. Mesmo assim me permito dizer que, neste momento, não reconheço aquele que informalmente chamávamos de “gaulês” pela sua irredutibilidade ao defender seus princípios. De qualquer forma, é um trabalho que, como todos os honestos e legais, possui a sua dignidade e para o qual ele possui a maior qualificação. E quem exerce sua profissão honestamente deveria sempre merecer algum reconhecimento, não é mesmo?

Ressalto que desejo ao Marcos paciência, capacidade de diálogo e, sobretudo, a mesma inteligência que o presidente Lula demonstra ao relacionar-se com o diferente e o adverso, incluindo o presidente iraniano. Como me disse semana passada o Beto São Pedro, “a política precisa de princípios, mas o exercício dos princípios também precisa de política”.

Princípios, política e muita sorte, uma combinação que na árdua tarefa de melhorar a imagem do TCE será muitíssimo necessária.

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