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Com passos de formiga e sem vontade – por Rogério Koff

Aeroporto de Guarulhos, São Paulo, janeiro passado. Espero na fila de uma empresa aérea para fazer o check in e embarcar de volta ao Rio Grande do Sul. Minha escala obrigatória é Porto Alegre, depois ônibus para Santa Maria. Entre sotaques diferenciados, paulistas, nordestinos e gaúchos, muitos gaúchos, a atendente avisa: passageiros para Porto Alegre na fila da direita, passageiros para Passo Fundo à esquerda.

Passo Fundo? – perguntei, um tanto surpreso. Quer dizer que há um voo direto de São Paulo para Passo Fundo? No Rio Grande do Sul? E ali fiquei com aquela expressão desconcertada, sentimentos de inferioridade e inveja que não podiam mais ser ocultos.

Restava a este santa-mariense subdesenvolvido pegar o avião para a capital e ir para o hotel descansar. Naquela noite, jantamos em Porto Alegre, e apenas no início da tarde seguinte embarcamos em um ônibus para Santa Maria. Quatro horas e quarenta minutos de viagem depois da queda da ponte de Agudo. Lembro que viajar a Porto Alegre já era uma tortura. Em 2008, deixei um pneu e uma roda do meu carro nas crateras lunares de Paraíso do Sul, prejuízo de quinhentos reais. E quando tudo estava suficientemente ruim, a ponte caiu e ficou bem pior. É por este motivo que a Universidade Federal de Santa Maria, que já é a maior instituição de ensino superior do sul do país, tem dificuldades para trazer palestrantes e pesquisadores até nossos domínios.

A verdade, nua e crua, é que estamos completamente ilhados, cercados pelas águas da comodidade e da falta de iniciativa. Explico melhor: se resolver vencer de avião os trezentos quilômetros de Santa Maria a Porto Alegre e evitar o suplício das nossas estradas precisarei desembolsar R$ 349,00. Total de R$ 698,00, ida e volta, para uma pessoa! Por este preço, faço uma viagem ida e volta ao Rio de Janeiro em aeronaves bem mais confortáveis. Com mil reais a mais, dá para ir a Los Angeles, Roma ou Paris.

Perguntinha que não quer calar: não seria o momento oportuno de baratear a passagem aérea para a capital gaúcha e conquistar muitos clientes? Programas de fidelidade, promoções e outras vantagens capazes de seduzir o consumidor interiorano que ainda não se habituou a viajar de avião? Uma grande jogada de marketing capaz de romper com décadas de atraso? Será que os empresários que exploram este serviço não conseguem enxergar o óbvio? Mas pasmem, caros leitores. Após a queda da ponte de Agudo, as passagens de avião para Porto Alegre aumentaram. Aumentaram! Ou então que os empresários me expliquem, através da lei da oferta e da procura, as razões para a prática destas tarifas.

Desse jeito não vamos para a frente. Parodiando Lulu Santos:

Ainda leva uma cara                         

Pra gente poder dar risada,

Assim caminha a nossa cidade, com passos de formiga e sem vontade.

Ontem li que o Hospital Regional de Santa Maria finalmente vai sair do papel. Uma solução para o grave problema da falta de leitos para as regiões central e oeste do Rio Grande do Sul. Mas levamos sete longos anos para encaminhar esta alternativa. Sete anos é muito tempo! Por que nossas lideranças não foram capazes de chegar a um entendimento antes?

E vamos continuar levando cinco horas para chegar a Porto Alegre, enquanto os moradores de Caxias do Sul e Passo Fundo debocham do nosso atraso. Estamos ilhados. E por aí vamos, com passos de formiga e sem vontade!

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