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A política do martírio: como líderes transformam crises em capital eleitoral – por José Renato Ferraz da Silveira

‘Sem inimigos, perdem relevância. Sem perseguição, perdem identidade. Sem...’

O episódio – 25 de abril de 2026 –   envolvendo Donald Trump durante o jantar dos correspondentes da Casa Branca ainda exige investigação séria, técnica e institucional. Se houve tentativa de assassinato, trata-se de um fato gravíssimo. Se houve falha de segurança, o debate é igualmente urgente. Se novas informações alterarem o entendimento inicial, elas devem prevalecer sobre qualquer narrativa apressada.

O problema contemporâneo não reside apenas no fato em si.

Reside na velocidade com que determinados movimentos políticos transformam episódios traumáticos em combustível eleitoral.

Antes da perícia, surge a narrativa.

Antes da investigação, aparece o marketing político.

Antes da verdade factual, consolida-se a mitologia.

A política contemporânea vive uma era em que determinados líderes compreenderam algo fundamental: a condição de vítima pode gerar mais mobilização do que a condição de governante.

Governar exige resultados.

Vitimizar-se exige apenas narrativa.

A facada sofrida por Jair Bolsonaro representou um episódio brutal e inaceitável dentro do processo democrático brasileiro. O atentado alterou profundamente o ambiente eleitoral daquele ano. Ao mesmo tempo, o episódio foi rapidamente incorporado ao imaginário político bolsonarista como elemento permanente de legitimação moral: o líder que “sobreviveu ao sistema”, o homem “escolhido”, o político perseguido por inimigos difusos.

A partir dali, adversários deixaram de ser apenas opositores.

Passaram a ser retratados como ameaças existenciais.

Nos Estados Unidos, Donald Trump domina essa engenharia narrativa com precisão quase industrial. Investigações judiciais, derrotas eleitorais, críticas da imprensa, derrotas institucionais – tudo é reinterpretado como prova de perseguição de um “deep state”, de elites corruptas ou de inimigos internos infiltrados.

O fato concreto importa menos que sua utilidade simbólica.

A vítima converte-se em mártir.

O mártir converte-se em mito.

O mito converte-se em instrumento de poder.

A história demonstra que esse processo pode adquirir contornos ainda mais perigosos.

O Incêndio do Reichstag foi utilizado por Adolf Hitler como justificativa para ampliar repressão interna, eliminar adversários e consolidar um regime autoritário. Historiadores continuam debatendo responsabilidades diretas pelo incêndio, mas existe consenso sobre algo: o episódio foi instrumentalizado de maneira decisiva para fabricar inimigos internos e acelerar a destruição institucional alemã.

Comunistas foram transformados em ameaça absoluta.

O medo tornou-se ferramenta de governo.

A democracia foi desmontada sob aplausos de uma sociedade aterrorizada.

Em Portugal, episódios envolvendo André Ventura também demonstraram como eventos físicos, reais ou controversos, podem rapidamente ser absorvidos por campanhas de mobilização emocional, reforçando a ideia de que apenas o líder “perseguido” representa o povo autêntico contra elites conspiratórias.

Esse padrão possui uma lógica comum.

Primeiro cria-se o líder providencial.

Depois constrói-se a narrativa de perseguição.

Em seguida identificam-se inimigos internos: imprensa, universidades, opositores, minorias, tribunais, intelectuais.

Por fim surgem inimigos externos: globalistas, imigrantes, organismos internacionais, potências estrangeiras ou qualquer ator útil à retórica do cerco.

O medo produz coesão.

A paranoia produz disciplina política.

O ressentimento produz votos.

Eis o grande risco das democracias contemporâneas: líderes que dependem permanentemente da sensação de guerra política precisam fabricar crises constantes para justificar sua própria existência.

Sem inimigos, perdem relevância.

Sem perseguição, perdem identidade.

Sem caos, perdem mobilização.

A violência política deve sempre ser condenada com absoluta firmeza.

Mas a exploração política da violência também precisa ser denunciada com igual rigor.

Democracias morrem tanto pela bala quanto pela manipulação simbólica do sangue.

E sociedades maduras precisam aprender a investigar tragédias sem transformar líderes em santos políticos fabricados pelo marketing do medo.

Porque quando a política abandona a razão e abraça o espetáculo do martírio, o próximo alvo pode ser a própria democracia.

(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

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