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Tempero fraco – por Bianca Zasso

biancaSe a 87ª cerimônia de entrega do Oscar fosse um prato no cardápio de um restaurante, ele seria uma boa pedida para os hipertensos. Isso porque a chamada grande festa do cinema mundial foi sem sal ao extremo, começando pelo apresentador. O ator Neil Patrick Harris foi antipático, fez piadas de extremo mau gosto e confundiu apresentação com show de comédia stand-up. Péssimo show, aliás. O público sentiu saudade do carisma da apresentadora Ellen DeGeneres, que foi a anfitriã do ano passado. Para combinar com Harris, os organizadores do Oscar escolheram um cenário feio e voltaram ao clichê de apenas citar os indicados e em seguida anunciar o vencedor. Os números musicais piegas também estiveram presentes, mas os espectadores tiveram um alívio na emocionante apresentação da canção Glory, do filme Selma, que acabou levando a estatueta.

Boyhood, contrariando as apostas de muitos, levou apenas uma estatueta, a de melhor atriz coadjuvante para a maravilhosa Patricia Arquette (foto). Ponto para a Academia, já que ela é a única coisa boa em Boyhood. Me perdoem os fãs da produção de Richard Linklater, mas falta emoção e, tirando a evolução da personagem de Arquette, não temos nada de admirável no roteiro. Acompanhamos um menino crescendo e só. Ouso dizer que só vemos as partes menos importantes de seu crescimento, bem ao gosto do diretor, que já tinha mostrado uma história de amor encantada demais para ser real na trilogia iniciada com o filme Antes do amanhecer. Os jurados preferiram a câmera inquieta e o roteiro maluco de Birdman ou a inesperada virtude da ignorância. Além das estatuetas de melhor fotografia e melhor roteiro original, Birdman foi o melhor filme e o mexicano Alejandro Gonzalez Iñarritu levou para casa o homem dourado de melhor diretor. Uma prova de que a tequila anda circulando nos copos dos votantes, já que no ano passado o conterrâneo de Iñarritu, Alfonso Cuarón, também foi agraciado com o prêmio.

Os prêmios de melhor atriz e ator não foram surpreendentes. J.K. Simmons teve seu talento reconhecido, mesmo que sua atuação em Whiplash seja mais um entre os seus muitos ótimos trabalhos. E Julianne Moore, aos 54 anos, segurou seu primeiro Oscar. Ela está ótima em Para sempre Alice, mas creio que a Academia tenha reconhecido que ela já deveria ter o prêmio na estante. Mais de um e bem mais que Meryl Streep, já que a queridinha do Oscar já levou algumas estatuetas injustas para casa.

A surpresa de 2015 veio com os quatro prêmios para O grande hotel Budapeste, de Wes Anderson. Quem conhece o universo do diretor sabe que é preciso uma imersão tanto de conteúdo quando visual para apreciá-lo. E parece que a indústria americana se rendeu aos tons excêntricos, dedicando ao filme os principais prêmios técnicos, como figurino, maquiagem e design de produção, além de trilha sonora original. Pode ser um sinal de que criadores que não se rendem aos padrões podem sonhar com um prêmio que é uma grande vitrine. Sim, porque ganhar um Oscar não é sinal de qualidade. Lembrem-se: há muita coisa envolvida no prêmio, e a maioria não tem nada a ver com arte.

A decepção da noite foi a homenagem aos 50 anos do lançamento de A noviça rebelde, de Robert Wise. Um filme que marcou gerações e que encanta até hoje merecia um tributo à altura. O que tivemos foi uma Lady Gaga afinada e vestida de princesa da Disney e um breve discurso de Julie Andrews, a eterna Maria. O que poderia ter sido o ponto alto da cerimônia, com fãs aos prantos na plateia, beirou uma apresentação de gincana de colégio. Tão tedioso quando ver Michael Keaton ter a melhor atuação de sua carreira perder para o estilo caricato do jovem ator Eddie Redmayne, de A teoria de tudo.

Mas houve flores no caminho. O discurso de Patricia Arquette fez mais do que agradecer. No ano em que as atrizes pediram mais perguntas sobre seus trabalhos e menos comentários sobre seus vestidos, uma voz feminina usou o palco do Oscar para pedir um novo olhar sobre as mulheres. Enquanto os homens e seus smokings iguais recebem uma leva de perguntas sobre seus processos criativos, as mulheres precisam achar a melhor pose para exibir um Valentino, um Chanel, um Yves Saint Laurent. Só que por baixo das saias, babados e diamantes existe uma artista, que passa por percalços tão grandes quanto os colegas do sexo masculino e também precisam de dedicação para alcançar o ponto máximo de suas interpretações. Esta colunista sonha com o dia em que o cinema vai importar mais do que as roupas. Talvez seja uma utopia eterna, mas esperança é algo que sobra, pelo menos aqui em casa. No fundo, por mais que nossos sorrisos se abram quando somos chamadas de lindas, nosso coração dispara mesmo é quando alguém reconhece nosso talento.

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