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Pautas-bombas – por Orlando Fonseca

Estamos em plena euforia da temporada de Copa do Mundo, mas já há alguns anos vivemos os temores de tempos de guerra. Qualquer uma dessas realidades se dão em territórios longe daqui, mas podemos sentir seus reflexos no dia a dia. Por isso, falar em bomba numa hora dessas causa arrepio (ao menos nos mais atentos). Dentro dos gramados, uma bomba pode virar gol, e se for da nossa seleção, é festa. No entanto, quando se trata de mísseis, granadas e outros artefatos bélicos, os estragos são garantidos. De modo que, a metáfora comum dos noticiários desde a última semana precisam de muita atenção, porque o significado no que quesito “efeitos colaterais” é garantido: pautas-bombas, no Congresso Nacional, é motivo de alerta máximo. A História já nos ensinou.

A imaginação maléfica que costuma bater ponto nos subterrâneos do parlamento brasileiro sempre apronta como, por exemplo, os ajustes salariais acima do teto ou o bloqueio de novas formas de arrecadação para melhorar as contas da administração. Foram as pautas-bombas de 2015 com a crise política e econômica daquela vez. O famigerado presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e seus aliados, aprovaram várias destas minas terrestres, para dificultar ainda mais a governabilidade da presidente Dilma Rousseff. Em agosto daquele ano, foi aprovada em primeiro turno uma proposta, vinculando salários de procuradores de estado, delegados e de integrantes da Advocacia-Geral da União a 90,25% da remuneração de ministros do Supremo Tribunal Federal. Só neste caso, o impacto seria de cerca de R$ 2,5 bilhões às contas públicas. Outra bomba também estava recebendo pólvora, um projeto que aumentava a correção do saldo do FGTS, com estilhaços garantidos nos juros do financiamento habitacional.

Como se vê, a História já nos ensinou, mas esta professora é muito pacienciosa, não tem pressa, em seu ritmo próprio, com um método pedagógico de longo prazo. Lá em 2015, quando a presidente Dilma procurou dialogar com os senadores, para peitar o presidente da Câmara, rompido com o Planalto, já era tarde. E o que estamos vendo agora, neste ano de Copa, de guerras e mais, ano eleitoral, a coisa vai pelo mesmo caminho de desgastes e enfrentamentos entre governo e oposição. As lições são muito claras para os alfabetizados em política: Dilma Rousseff, recém-eleita em segundo mandato, tinha no Senado um franco atirador, Aécio Neves (adversário derrotado nas eleições), aliado de Cunha, os quais articularam com o vice, Michel Temer, o impeachment da presidente, o que levou a política nacional ladeira abaixo. Tirando a desgraça da pandemia da Covid 19, os desgovernos foram um atraso monumental para o país.

Para os analistas políticos, Davi Alcolumbre imita Eduardo Cunha ao apostar em pautas-bombas contra o governo. Na mira de investigações no âmbito das maracutaias do Banco Master, o presidente do Senado investe contra os cofres públicos: articulou a aprovação de três pautas-bombas, semana passada, que somadas podem custar mais de R$ 200 bilhões aos cofres públicos. A criação de mais uma linha de crédito rural para socorrer produtores prejudicados por conflitos internacionais ou eventos climáticos extremos; o aumento de 275% no piso de médicos e cirurgiões-dentistas, e na Comissão de Constituição e Justiça o avanço da proposta que reduz a idade de aposentadoria e concede benefício integral a agentes de saúde e combate a endemias.

Na Câmara, avançam projetos que reduzem a maioridade penal, sem que haja um consistente projeto de política pública para a segurança. Na verdade, pensando bem, esta redução pode alcançar alguns delinquentes no Congresso que só têm feito criancice, incluindo esta birra persistente contra o governo. Cortina de fumaça para disfarçar cumplicidades com milícias e crime organizado. No meu entender, o mais certo, neste ano, é fazer dar certo uma concertação geral: em tempos de Copa, de guerras e de eleição, não se podem reduzir os atos administrativos do parlamento e do executivo em jogadas eleitorais. Tudo é político, eu sei, tudo tem em vista as próximas eleições, estando elas em um horizonte próximo, ou no longo prazo de um mandato. Mas em uma democracia, o que importa é o bem comum, e esta deve ser a referência para votações e atos administrativos. Caso contrário, as consequências de bombas no Congresso podem ser gol contra, ou baixas civis.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.

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12 Comentários

  1. Resumo da opera II. Gastança no ano eleitoral era pedra cantada. Ruina do calabouço fiscal idem. Em anos anteriores quando a gastança já era absurda. E a busca por terceiros para ‘levar a culpa’, os ‘bodes expiatórios’, também era pedra cantada. O que não dá para prever são as consequencias. Possibilidades? Outro impeachment (o sistema não vai tancar crise economica). Deixar o pais sangrar para transformar o Molusquismo em outro Brizolismo. Uma coisa que não vai acontecer: viveram felizes para sempre. Kuakuakuakuakua!

  2. Resumo da opera. Como dizia o Conselheiro Acácio: ‘o problema das consequências é que elas vêm depois.’

  3. ‘Caso contrário, as consequências de bombas no Congresso podem ser gol contra, ou baixas civis.’ Consequências terão as ‘bondades’ de Molusco com L., abstemio, honesto e famigerado dirigente petista. Conforme noticiado chegam a 215 bilhões neste ano eleitoral. 96% fora do calabouço fiscal. Numeros variam, alguns falam em 227 bilhões. Problema? Esta grana toda não sofre efeitos da taxa de juros do BC. Rato Rouco senta o pé no acelerador. BC tem que sentar o pé no freio porque só age na outra parte da economia, a que produz.

  4. ‘Mas em uma democracia, o que importa é o bem comum, e esta deve ser a referência para votações e atos administrativos.’. Teoria. Brasil tem ‘democracia’ até o paragrafo segundo. Sem falar no patrimonialismo, vide Faoro. Alas, revista ‘The Ecomunist’ tem um indice para avaliar democracias. Plena democracia: nota acima de 9. Em 2014 o Brasil tinha nota 7,38. Em 2015 6,96. Atualmente (2015) está em 6,76. Perde para Argentina (6,89), Chile (7,97), Israel (7,8), Uruguay (8,92). Caso curioso Ianquelandia. Nota 7,65. Porem mesmo durante os governos democratas nunca passou muito de 8.

  5. Sintomatico. Presidente do Senado é do Amapá. Camara? Paraíba. Não é de Minas ou São Paulo. Preconceito? Também não é da Bahia, Pernambuco ou Ceará. Ou Amazonas ou Pará.

  6. ‘No meu entender, o mais certo, neste ano, é fazer dar certo uma concertação geral: em tempos de Copa, de guerras e de eleição, não se podem reduzir os atos administrativos do parlamento e do executivo em jogadas eleitorais.’ Se até agora Alcolumbre não entrou em contato com o autor para saber sua opinião ela deve ser irrelevante. Obvio.

  7. Alas, a PEC aprovada não só reduz a maioridade penal. Torna o voto obrigatorio para maiores de 16 anos. Diminui a idade minima para determinados cargos (presidente, senador, deputado, governador, etc).

  8. ‘[…] incluindo esta birra persistente contra o governo.’ Birra? É de graça ou tem gato nesta tuba?

  9. ‘Na Câmara, avançam projetos que reduzem a maioridade penal, sem que haja um consistente projeto de política pública para a segurança.’ Conversa mole. Não pode reduzir a maioridade penal e a alternativa é fazer nada. Borocrata fala em um chumaço de papel com titulo ‘politica publica para a segurança’. Que irão ficar duas decadas ‘debatendo’ até produzirem o documento final. O argumento contra é sempre uma imbecilidade, ‘quando não resolver vão baixar para 12’. Porque na religião deles devido a idade existe maior ‘possibilidade de recuperação para a sociedade’. So que terminada a medida socio educativa a criatura volta para o mesmo contexto social que levou ao ato infracional. E nos casos aburdos arrumam um laudo que a criatura é ‘louca’ e determinam prisão perpetua. Vide Champinha.

  10. Quais as outras pautas bomba? Piso de medicos e dentistas aumentado para 13600 reais. O atual dos medicos é 11,8 mil reais e o dos dentistas pouco mais de 6 mil. Outra pauta: aposentadorias especiais para determinadas categorias, agentes de saúde por exemplo, bate na previdencia.

  11. ‘[…] aprovação de três pautas-bombas, semana passada, que somadas podem custar mais de R$ 200 bilhões aos cofres públicos.’ Vamos colocar na conta do analfabetismo financeiro e no mau serviço da midia. Cerca de 140 bilhões seriam renegociação de dividas com um prazo de 10 anos. Detalhe: existem outros 98 bilhões em planos de recuperação extrajudicial. Ou seja, é dinheiro que muito possivelmente não vai entrar de qualquer maneira.

  12. ‘Como se vê, a História já nos ensinou, mas esta professora é muito pacienciosa, não tem pressa, em seu ritmo próprio, com um método pedagógico de longo prazo. Lá em 2015, quando a presidente Dilma […]’. Fez o PIB encolher em 3,5% com sua ‘Nova Matriz Economica’. O PIB per capita encolheu 4,3%. Na pandemia o PIB encolheu 3,3%.

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