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O escândalo da hora: a pedagogia do silêncio pelo barulho – por Amarildo Luiz Trevisan

“Se antes o pecado era a desinformação pela falta, hoje o vício é pelo excesso”

O escândalo da vez atende pelo nome de Banco Master. O roteiro é clássico: políticos de alto coturno, magnatas, siglas partidárias e instituições sólidas como rocha – mas que, ao primeiro solavanco, revelam-se feitas de areia. Diante de mais um tsunami de fraudes, a pergunta que não quer calar no café da manhã do brasileiro é quase ingênua, mas forçosa: qual a distância ética entre o colarinho branco que sangra o país e o José que furta um pão para calar a fome?

A resposta não está no código penal, mas na estratégia da exaustão.

Há uma sabedoria milenar no mandamento: “Não tomarás o nome de Deus em vão”. Por que o Criador exigiria tal cautela? Ora, porque a palavra que se repete aos quatro ventos perde o seu efeito. O que é sagrado vira vulgar; o que é único vira boato. Na ciência, aconteceu o mesmo com o termo “competência”. De tanto atravessar currículos e palestras corporativas, a competência passou a significar tudo e, por consequência, absolutamente nada. Tornou-se um conceito oco, uma casca.

É exatamente aqui que a grande mídia opera sua mágica. Quando a elite dirigente é pega com a mão na botija ou no cofre que é de todos nós, a imprensa não apenas noticia; ela inicia uma “Malhação de Judas” industrial. Diferente do ritual popular do Sábado de Aleluia, onde o boneco de pano é surrado por um dia para expurgar a traição, a malhação midiática é uma tortura de repetição.

É o que chamo de pedagogia do falatório. Do “Mar de Lama” de 1978 na ditadura às contas do Caso Banestado nos anos 90; do desmatamento da CAPEMI, também no período da ditadura, aos escândalos do Mensalão, na democracia; da onipresente Lava Jato às transações imobiliárias em dinheiro vivo da família Bolsonaro, mais recentemente.

O método é infalível: fala-se tanto, em todos os canais, a toda hora, que o escândalo entra em estado de saturação. O público, anestesiado por nomes, siglas e cifras de bilhões que fogem à compreensão humana, atinge o limite da fadiga. É preciso, contudo, fazer uma ressalva ética e histórica: não se trata de equiparar o breu da ditadura à luz – ainda que por vezes ofuscante – da democracia.

A diferença reside no método de ocultação. No regime de exceção, o escândalo morria no silêncio do porão, sufocado pela censura e jogado para baixo de tapetes que nunca eram sacudidos. Na democracia, o jogo é mais cínico. Como não se pode mais calar a notícia, a estratégia passa a ser o seu oposto: o bombardeio sensorial.

Se antes o pecado era a desinformação pela falta, hoje o vício é a desinformação pelo excesso. É a ironia do nosso tempo: a transparência democrática, que deveria servir de ferramenta de justiça, é sequestrada pela ‘estratégia da exaustão’. Transforma-se o fato em ruído branco. Ao despejar toneladas de dados, nomes e detalhes irrelevantes sobre o público, a mídia e os grupos de poder não escondem o crime – eles o tornam invisível por saturação. Na ditadura, escondiam o corpo; na democracia, escondem o culpado no meio de uma multidão de manchetes estridentes até que o espectador, exausto, desvie o olhar.

Quando o brasileiro médio já não suporta mais ouvir o nome do banco ou do político da vez, entra em cena o ato final. Sob o silêncio do cansaço coletivo, a Justiça surge com seu “canetaço” de pompa e circunstância. O assunto é enterrado como num velório de luxo: sem choro, sem velas e, principalmente, sem culpados. Os personagens saem ilesos, com o brilho do colarinho intacto, enquanto a conta – essa sim, imortal – é pendurada no lombo do contribuinte.

Explicando melhor. A grande mídia, é verdade, costuma fazer barulho. Há indignação, há editoriais, há comentaristas em fila, há “especialistas” explicando o que já deveria estar explicado. O problema é o ritmo. O escândalo vira uma maratona diária: abre o jornal, fecha o jornal, repete no rádio, repete na TV, repete nas redes, repete no grupo de família, até que a sociedade inteira esteja exausta. Não é investigação contínua, é saturação.

E saturação, no Brasil, muitas vezes funciona como estratégia. Quando ninguém aguenta mais ouvir falar do assunto, entra o segundo ato: a máquina institucional começa a operar com a frieza de sempre. Recursos, decisões, prescrições, arquivamentos, mudanças de foco. O caso vai ficando “complexo”, “difícil”, “dependente de perícia”, “dependente de instância superior”. Enquanto isso, um novo escândalo ocupa o espaço que o anterior deixou, como se o país vivesse num rodízio de indignações.

Enquanto isso, o José do pão não goza da “pedagogia do falatório”. Para ele, não há saturação midiática nem rituais de esquecimento. Há apenas o peso seco da lei e os cinco anos de cárcere. No Brasil, o crime compensa quando é grande o suficiente para virar barulho; mas é implacável quando é pequeno o suficiente para ser apenas fome.

Prefiro deixar a pergunta sobre a mesa, despida de enfeites e sem a pressa das manchetes. É uma interrogação que, no seu despojamento, talvez seja a que melhor traduz a anatomia do Brasil: quem é punido com o rigor seco da cela, quem é blindado pelo verniz da linguagem técnica e quem, no fim do dia, acaba pagando com o próprio suor pelo silêncio – planeado ou exausto – dos outros? A resposta não está nos autos do processo, mas talvez no abismo que separa o balcão da padaria do mármore das altas cortes.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

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5 Comentários

  1. Resumo da opera. Bobajada e alucinações. Problema da enxurrada de ‘informações’ não é só no Brasil. Também não é ‘defeito’, é caracteristica dos tempos atuais. Não tem volta. No mais patrimonialismo. Viva Faoro!

  2. ‘No regime de exceção, o escândalo morria no silêncio do porão, sufocado pela censura e jogado para baixo de tapetes que nunca eram sacudidos.’ Cascata. Odebrecht surgiu no tempo dos milicos. Escandalo só estourou em 2014. Quase 30 anos de redemocratização. Sem porão, sem censura. Ainda debaixo dos tapetes.

  3. Caso Banestado é uma vergonha. Mandaram mundos e fundos para o exterior. Caso é de 1999. Em 2024 foi criado o ‘Regime Especial de Regularização Geral de Bens’. Quem aderisse pagava 30% de imposto e multa. Teoricamente os recursos deveriam ser de origem licita.

  4. Alas, o abolicionismo penal, o ‘coitadismo’, o ‘garantismo’. ‘Se não teve violencia ou grave ameaça é possivel tratar de outra forma’. ‘Liberdade perdida é só a de ir e vir’.

  5. ‘[…] e o José que furta um pão para calar a fome?’ O mesozóico. Luta de classes. Casos rarissimos. Alas, é exigido que o bem furtado seja alimento e que seja consumido imediatamente. Alas, existe o principio da insignificancia. Mesmo que não seja alimento e for pouca coisa a tendencia é dar nada.

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