Escolas públicas não são empresas! – por Leonardo da Rocha Botega
‘Afronta aos educadores(as) e ao próprio sentido do que é uma escola pública’

No último mês de abril completei 24 anos de atuação docente junto a educação pública em diferentes níveis. Nestas quase duas décadas e meia, foram sete anos de atuação na Rede Estadual de Educação que, somados aos anos de educação básica, realizada também nessa rede educacional, me fazem perceber que parte significativa de minha vida transcorreu em escolas estaduais.
Seja como estudante ou como docente, ao longo de todos esses anos, pude sentir de perto, inicialmente, as minhas professoras e os meus professores, depois minhas e meus colegas, fazerem esforços hercúleos para manterem as escolas funcionando diante do descaso de governos e de alguns setores da sociedade para com a educação pública. Muitas vezes se sujeitando a humilhações dos autointitulados “gestores do Estado”.
Certa vez, diante da queima do transformador que levava energia elétrica para o Instituto Estadual de Educação Olavo Bilac, a escola, por não dispor de iluminação nas salas de aula, resolveu funcionar em turno reduzido. Diante do caos instalado, a comunidade escolar nem sequer contou com o apoio da Coordenadoria de Educação, que ao invés de prestar auxílio, preferiu “fiscalizar” as aulas.
Mesmo sem a solidariedade de quem deveria, por obrigação, buscar a solução do problema, a direção conseguiu contornar a situação e reduzir os danos. Aliás, reduzir os danos é o que as direções das escolas estaduais mais fazem diante das políticas de precarização da educação que têm hegemonizado a condução do Estado do Rio Grande do Sul nas últimas décadas.
Manter as escolas estaduais funcionando diante das políticas de precarização atesta o quanto as direções escolares têm sido administrativamente competentes. Administrar parcos recursos em estruturas envelhecidas e governos que entendem escolas como espaços de predomínio dos processos burocráticos em relação aos processos pedagógicos não é uma tarefa simples e requer muito compromisso social.
É justamente essa falta de compromisso social que está presente na proposta do governo do Estado do Rio Grande do Sul de implantação das chamadas Parcerias Público-Privadas em 98 escolas da Rede Estadual de Ensino. Entregar escolas públicas para que a iniciativa privada administre como se fossem empresas é uma afronta aos educadores e as educadoras e ao próprio sentido do que é uma escola pública.
Escola pública não é empresa! Estudante não é cliente! Espaços escolares não são apenas locais de trabalho e educação vai muito além de metas! Escolas públicas são espaços de cidadania, atualização cultural, troca de afetos, produção de sentidos e construção de trajetórias de vida. Por isso, administrá-las vai muito além de processos burocráticos e lucrativos.
Os membros das comunidades escolares estaduais vivenciam de perto os dilemas e os desafios que as suas escolas enfrentam. Não precisam de nenhum CEO para lhes falar sobre a realidade que vivem, muito menos para administrá-los. Ao invés de repassar dinheiro público para empresas privadas, o governador Eduardo Leite deveria, sim, dialogar e apreender com quem de fato conhece e vive a educação pública.
(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve regularmente no site, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).





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