“O Drama”: entre a delicadeza e a brutalidade – por Roselâine Casanova Corrêa
“Até que ponto conhecemos o outro e até onde esse outro é capaz de chegar”

“O Drama” (The Drama/2026) é uma produção norte-americana passada em 1h45m, lançada pela produtora A24, com elementos de suspense psicológico. Escrito e dirigido pelo norueguês Kristoffer Borgli, e estrelado pela múltipla Zendaya (Emma Harwood) e pelo ótimo Robert Pattinson (Charlie Thompson). Está nos cinemas e na plataforma do Prime.
Trata-se de uma reflexão visceral entre idas e vindas na narrativa, acerca do dano que pode causar uma omissão, uma pequena mentira ou um falseamento da realidade para nós mesmos e para os demais.
O longa utiliza os charmosos cenários universitários e arquiteturas estadunidenses históricas, como pano de fundo para um tenso jogo de revelações e segredos sombrios entre casais. Há cenas principalmente na região de Boston e Cambridge. Thompson é diretor do fictício Museu de Arte de Cambridge. As cenas que retratam o local foram gravadas na “Galeria Addison de Arte Americana” (Addison Gallery of American Art), localizada em Andover (Massachusetts).
Harwood e Thompson estão nos preparativos finais de seu casamento junto aos amigos mais próximos (dele). Alguém sugere que os presentes confessem as piores coisas que fizeram na vida. A reconstituição meticulosa de uma fofoca, contada com todos os detalhes, pausas, ironias e contradições que só um bom relato íntimo consegue ter, é capaz de desestruturar as certezas dos noivos e de quem lhes rodeia. Não bastasse o casal parecer não se conhecer de fato, sequer conhecem os pais um do outro.
Mais que isso, Borgli tematiza o uso de armas nos EUA – sobretudo nas escolas – e a tenebrosa banalização desse tipo de tragédia. E por meio das cenas em retrospectiva, há duas dimensões no enredo. Ambas devastadoras: até que ponto conhecemos o outro e até onde esse outro é capaz de chegar, em parte por sua própria consciência de exclusão, de invisibilidade e de dissimulação. Por outra parte, porque o próprio Estado permite o porte de armas letais, em vários estados norte-americanos.

Tiroteios em escolas nos EUA fazem parte de uma crise recorrente, impulsionada pela facilidade de acesso a armas de fogo e por falhas na saúde mental. Houve mais de 420 incidentes desde o massacre de Columbine (1999), gerando um impacto profundo na sociedade e debates constantes sobre o controle de armas. O ataque na universidade Virginia Tech (2007), deixou 32 mortos e 23 feridos. Estima-se que mais de 390.000 estudantes tenham sido expostos a tiroteios em seus ambientes escolares, desde então. O aumento da violência armada em ambientes escolares tem gerado um debate contínuo e polarizado, nos EUA.
A trama demonstra a ambiguidade dos esforços de conscientização sobre o uso de armas, em contraponto à enorme corrente que exalta a violência no mundo virtual. Para além do óbvio, o filme se aprofunda ao questionar se é possível – em nosso próprio meio social – reconhecer a suscetibilidade de pessoas comuns a intenções abjetas. Reflete ainda sobre a importância do pertencimento e da reabilitação, e questiona até que ponto a segunda chance é possível.
Enquanto isso, o espectador fica ligado à presença inebriante dos atores principais em cena. Pattinson dá um show de hesitações, titubeios, dúvidas, ansiedade e pânico. Zendaya transita da delicadeza e doçura à brutalidade de uma adolescência problemática e solitária. Tudo amparado pela direção bem conduzida de Borgli, punteando fantasia e imaginação, em flashbacks que parecem invadir a consciência dos protagonistas.
Tudo aqui é possível, exceto ficar indiferente a esse tema tão perturbador e delicado!

(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Foi membro do COMPHIC (2012-2022). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”. Rose escreve sobre cinema, às quintas-feiras, nesse site.





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