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A república dos patriotas ofendidos – por José Renato Ferraz da Silveira

“O resultado é uma sociedade onde opiniões passam a valer mais que fatos”

Toda época produz sua própria caricatura.

A nossa produziu o cidadão permanentemente indignado. O indivíduo que acorda ultrajado, almoça ofendido e janta conspirando contra algum inimigo imaginário que ameaça a pátria, a família, a civilização ocidental ou o estacionamento do condomínio.

O curioso é que essa figura raramente luta contra grandes tiranias. Seu campo de batalha costuma ser mais modesto: a caixa de comentários, a fila da padaria, o grupo de WhatsApp ou, em casos mais lamentáveis, a calçada diante da casa de um idoso.

A política, que deveria organizar divergências, transformou-se para muitos numa religião sem transcendência. Não exige reflexão. Exige fé. Não pede argumentos. Pede palavras de ordem. Não constrói cidadãos. Produz torcidas.

O resultado é uma sociedade onde opiniões passam a valer mais que fatos, slogans mais que princípios e identidades mais que seres humanos.

Quando alguém se sente autorizado a hostilizar outra pessoa por causa de um adesivo, de uma crença religiosa ou de uma preferência política, não estamos diante de convicção. Estamos diante da falência da convicção.

A democracia pressupõe adversários. O fanatismo produz inimigos.

E há uma diferença fundamental entre os dois.

Adversários disputam ideias.

Inimigos devem ser eliminados.

Toda vez que a política atravessa essa fronteira, a barbárie dá mais um passo à frente usando a máscara da virtude.

Os verdadeiros democratas não são aqueles que amam apenas os que pensam igual.

São aqueles capazes de defender a liberdade até de quem prefeririam jamais encontrar.

Infelizmente, essa continua sendo uma lição difícil para uma era que transformou a indignação em identidade e o ressentimento em espetáculo.

(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria-UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Especialista em Humanidades pela PUC-RS. Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduado em História pela Ulbra-RS.

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