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De mestre e de carinho – por Orlando Fonseca

De tempos em tempos é preciso retornar ao tema, e não porque a efémeride se repete ano a ano. Infelizmente, o motivo está no fato de que as condições para a figura homenageada da data permanecem sem mudanças (para melhor, óbvio) por parte de administradores, tanto públicos quanto privados. Falo em razão do Dia do Professor e da Professora, que transcorre no próximo dia 15. Em meio a toda sorte de motivos para estresse e depressão, esses profissionais receberão homenagens, presentes, abraços, carinho. No entanto, pesam sobre os seus ombros os baixos salários, a precarização dos locais de trabalho e de equipamentos, a falta de educação de grande parte de sua clientela (sob a conivência de pais e responsáveis), e uma defasagem profunda entre o que é preciso ensinar e o que os alunos estão interessados em aprender. Por isso é que chamo à atenção dos leitores para a ênfase no título da crônica em duas expressões de um antigo e famoso filme.

Se fosse realizado no Brasil de hoje e se chamasse “Ao Mestre com carinho”, não teria o mesmo impacto emotivo daquele filmado na década de sessenta, do século passado. Mesmo que abordasse questões raciais, como no original. Tenho a impressão de que houve muitas mudanças de lá para cá (não muitas). No século vinte e um, as relações pessoais poderiam ter ganho em valor, mas é pelo esvaziamento dos conceitos que o filme seria um documentário do tipo catástrofe. Na tradução brasileira, tanto a palavra “mestre”, quanto a palavra “carinho”, na mesma frase, fazem pouco sentido na atualidade.

Estamos nos aproximando de um novo período eleitoral (no ano que vem). Será um momento em que agentes públicos postulantes a cargos, nas diversas esferas do poder, colocam a educação como um dos pontos principais de sua agenda política. Evidentemente que a maioria desconhece o que é preciso para tornar isso realidade, por isso, um dos lugares comuns de suas plataformas chama-se “valorização dos professores”. No entanto, o que se vê de um modo geral é o tratamento de educadores como mero número nos orçamentos apertados, em todos os níveis da administração, federal, estadual e municipal.

Ainda que fundamental, na vida de qualquer profissional, não considero que a questão salarial seja o fator preponderante na escala de valores para que aquele que se dedica ao ensino assuma-se como “mestre”, ou seja tratado como tal. Trabalhei, durante 46 anos de minha vida, na atividade docente, e dos títulos acadêmicos que tenho prefiro o de Mestre, pelo significado sublime que este tem. Em nenhum momento de minha carreira, dentro e fora da universidade, ocorreu-me de ensinar menos ou com menor cuidado, por não receber a justa remuneração. Algo que se estende à categoria, de mofo geral. Nas vezes em que participei de movimentos pela valorização, jamais perdi a dimensão que este título tem – para mim, para meus alunos e para os que me contrataram.

Entretanto, percebo uma relativização do significado de mestre na escola ou na universidade. Qual a sua importância, se se trata de um incômodo orçamentário para os gestores? Qual a sua posição na sociedade se alunos desconsideram a sua autoridade e o agridem? Desconsideram o seu conhecimento e preferem acreditar no que circula nas redes sociais, ou nas respostas (nem sempre confiáveis) da Inteligência Artificial. Qual a sua relevância, se, na democracia universitária, perdeu a sua autoridade de cátedra? No entanto, tenho uma fé inquebrantável na educação, tenho convicção de que o humanismo só se transmite de pessoa a pessoa, tanto melhor de um mestre para um discípulo (para elevar o nível do debate, e desta despretensiosa crônica). De modo que, por tudo que já falei acima, para impedir que pensar, nestas alturas da vida, em termos de “carinho” beire o disparate, para não dizer o ridículo, é preciso apostar em mudanças significativas no tratamento aos mestres. Tanto pelas autoridades administrativas quanto por pais e alunos, para que se faça justa a homenagem a professores e professoras.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.

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13 Comentários

  1. Resumo da opera. Alguns imbecis podem falar em ‘niilismo’ e/ou ‘cinismo’. Porém depois de uma certa idade pode-se perceber que alguns ‘filmes’ no Brasil já passaram mais que ‘A historia de Elsa’ na Sessão da Tarde. Ao contrario do caso da leoa, os filmes tupiniquins geralmente não têm final feliz.

  2. ‘Tanto pelas autoridades administrativas quanto por pais e alunos, para que se faça justa a homenagem a professores e professoras.’. Podem homenagear a vontade, ano que vem tem de novo. E se o tratamento não piorar é lucro.

  3. ‘[…] para impedir que pensar, nestas alturas da vida, em termos de “carinho” beire o disparate, […]’. Ou assédio. Mas isto é coisa da Globo, nunca numa universidade publica um docente assediou um discente. Ou casou com um.

  4. ‘[…] tenho convicção de que o humanismo só se transmite de pessoa a pessoa, tanto melhor de um mestre para um discípulo […]’. Balela dos vermelhos, se apoderaram de mais uma palavra, ‘humanismo’. Conceito surgiu há tempos na academia depois da ocorrencia dos fatos como costume. Agora serve como distinção, desumanização (a la Adolfo). So os vermelhos são ‘humanistas ‘ e só os ‘progressistas’ desejam o ‘progresso’. Mais do mesmo, mimimi.

  5. ‘Qual a sua relevância, se, na democracia universitária, perdeu a sua autoridade de cátedra?’ Traz a memoria a ‘liberdade de catedra’. Conceito prostituido nas universidades. Toda disciplina tem uma ementa e um programa que teoricamente teriam que ser cumpridos. Muitos(as) jogam foram e tocam o barco como se lhes dá na veneta. Conforme suas convicções e conveniências. Praga que ataca servidores publicos e funcionários privados, a extrema falta de profissionalismo. É trabalho, a criatura é paga para realiza-lo, teria teoricamente faze-lo da melhor maneira possivel.

  6. ‘Desconsideram o seu conhecimento e preferem acreditar no que circula nas redes sociais, ou nas respostas (nem sempre confiáveis) da Inteligência Artificial.’ Inteligencia artificial erra mas a ‘natural’ dos docentes não erra nunca? Quantos entraram na universidade, por exemplo, e ficaram a carreira toda lecionando as mesmas aulas nas mesmas disciplinas? Ou mudando de disciplina não tiveram a mesma atitude ‘é o que a casa tem para oferecer’?

  7. ‘Qual a sua posição na sociedade se alunos desconsideram a sua autoridade e o agridem?’ Muita propaganda neste aspecto. Violencia fisica é rara. Mas daí expandiram a ‘agressão’ para incluir a verbal. Daí toda discordancia vira agressão. Daí um alunou ou aluna com o Google na mão e um(a) professor(a) despreparado(a) na frente vira um(a) ‘agressor(a)’.

  8. ‘Qual a sua importância, se se trata de um incômodo orçamentário para os gestores?’ Obviamente devido ao atraso por aqui vai demorar, em outros lugares serão substituidos por AI onde for possivel. Um(a) tutor(a) fisico(a) para muitos(as).

  9. ‘Em nenhum momento de minha carreira, dentro e fora da universidade, ocorreu-me de ensinar menos ou com menor cuidado, por não receber a justa remuneração.’ E nem mais. Professores de universidades federais percebem remuneração superior a media da patuleia. Com varias vantagens. Carga horaria semanal teoricamente são 40 horas e não as 44 da CLT. Férias para a grande maioria enquanto não houverem aulas. Obviamente há exceções. Na veterinaria os bichos não entram em animação suspensa no hospital para quem cuida deles poderem tirar ferias prolongadas.

  10. ‘[…] um dos lugares comuns de suas plataformas chama-se “valorização dos professores”.’ Se quintuplicarem os salarios dos docentes hoje não altera nada na educação/no ensino amanha. Todos continuarão a fazer exatamente a mesma coisa que faziam semana passada.

  11. ‘No entanto, pesam sobre os seus ombros os baixos salários, a precarização dos locais de trabalho e de equipamentos, a falta de educação de grande parte de sua clientela (sob a conivência de pais e responsáveis), e uma defasagem profunda entre o que é preciso ensinar e o que os alunos estão interessados em aprender.’ Vitimização de sempre. Problemas na educação é culpa de todo mundo menos deles.

  12. ‘Dia do/da ….’. Data aleatoria escolhida para repetir tudo o que já foi dito antes sobre um determinado assunto. Hoje é dia da turistologia, do(a) psicologo(a) e da conservação da vida selvagem. Amanha é dia do(a) estudante.

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