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O medo de errar já é o próprio erro – porAmarildo Luiz Trevisan

A falta que faz um filósofo na análise da derrota brasileira na Copa do Mundo

Demorei alguns dias para escrever sobre a eliminação do Brasil na Copa do Mundo. Preferi ouvir primeiro os comentaristas esportivos, ex-jogadores, ex-treinadores, jornalistas e especialistas das mais diversas áreas. Queria saber se alguém colocaria em palavras aquilo que me inquietava. Aprendi muito com as análises que li e ouvi, mas percebi que o ponto que mais me chamava a atenção permanecia praticamente ausente.

Falou-se da influência excessiva da religião evangélica no vestiário – que teria transformado leões em cordeirinhos resignados -, da crônica falta de liderança em campo e de uma estrutura que priorizou o marketing em detrimento do futebol. O espetáculo começou torto já na convocação, orquestrada como um show midiático e apoteótico, mais preocupada com o engajamento do que com a bola.

Houve um excesso de zelo corporativo para tudo: contratou-se o badalado Carlo Ancelotti, chamaram-se os nomes de maior grife europeia, montou-se uma comissão robusta com psicólogos, coordenadores executivos, analistas de desempenho e médicos de ponta. Ironia do destino: cercaram-se de cientistas, mas esqueceram-se do espírito.

Tudo isso pode conter alguma verdade. Mas talvez o problema seja ainda mais profundo.

Talvez tenha faltado justamente alguém que hoje já é requisitado até pelas grandes empresas de tecnologia e pelas plataformas de inteligência artificial: um filósofo.

Pode parecer exagero. Não é.

A Filosofia não ensina a bater faltas nem a organizar uma linha defensiva. Mas ajuda a compreender como nos relacionamos com o medo, o sucesso, a imagem pública, a pressão, o fracasso e a própria coragem. Ela pergunta aquilo que quase ninguém pergunta: por que o futebol brasileiro, dono de uma tradição única, parece entrar em campo cada vez mais preocupado em não perder do que em vencer?

Se até o universo dos Big Datas e as plataformas de Inteligência Artificial contratam pensadores para humanizar seus algoritmos, por que a Seleção Brasileira não poderia ter um filósofo? Alguém para ajudar a decifrar o declínio crônico de produção técnica mundial após mundial. Alguém capaz de questionar a relação simbiótica e tóxica que nossos atletas mantêm com o império da imagem.

Talvez seja apenas um detalhe. Mas, na Filosofia, pequenos gestos costumam revelar grandes modos de estar no mundo.

Há uma imagem que me chamou profundamente a atenção durante a Copa. A linguagem corporal entrega o abismo psicológico. Reparem no contraste entre dois craques de seleções distintas: cada vez que Vini Junior executa uma jogada – certa ou errada, não importa -, a transmissão foca o seu rosto e ele está com os olhos cravados no telão, buscando a própria imagem. Quando Messi fazia o mesmo pela Argentina, seu olhar permanecia e permanece colado na linha do gramado, focado na realidade tátil do jogo. Enquanto um busca a aprovação do espelho digital, o outro busca(va) o espaço vazio.

Para piorar o cenário do espetáculo, soube-se que Neymar gravou oito campanhas publicitárias como o autoproclamado “herói do hexa” antes mesmo do torneio começar. Peças inteiras focadas no culto à sua personalidade, programadas para rodar apenas sob a condição da vitória. O troféu virou mero detalhe de um plano de negócios. É difícil não perceber aí uma inversão curiosa: a imagem do triunfo antecedendo o próprio triunfo. Vivemos numa época em que muitas vezes a representação chega antes da realidade, para os nossos jogadores, em especial.

Talvez seja justamente esse o grande desafio da Seleção Brasileira. Não lhe falta talento. Talvez lhe falte presença.

Mas o que mais me impressionou foi outra coisa: o medo de jogar futebol.

Durante boa parte da competição, a equipe pareceu jogar sob o peso permanente do erro. Cada passe era excessivamente calculado. Cada decisão parecia atravessada pelo receio da crítica, da exposição e do fracasso. Faltou justamente aquilo que sempre caracterizou o futebol brasileiro: a ousadia de quem inventa antes de calcular.

Outras seleções mostraram exatamente o contrário. França, Inglaterra e, sobretudo, Argentina jogaram e jogam assumindo riscos. Erraram muito, mas continuaram tentando. Como diz o velho ditado gaúcho: quem não arrisca, não petisca.

Foi então que me lembrei de Hegel. O filósofo escreveu uma frase que atravessa o tempo e parece feita para explicar o que vimos nesta Copa: “O medo de errar já é o próprio erro.”

Quem entra em campo apenas para evitar o fracasso já começou derrotado. O medo paralisa a criatividade, rouba a espontaneidade e transforma o talento em mera administração de riscos.

Não deixa de ser curioso. O diagnóstico final é doloroso. Os atletas que não titubearam em entregar seus corações ao marketing e à fé institucionalizada careceram da coragem elementar para se entregarem de corpo e alma ao retângulo de grama. O que sobrou de devoção ao além, faltou de presença no aquém. O que sobrou de vaidade estética – simbolizada nas atualizações capilares de Raphinha -, faltou de compromisso com a crueza do jogo. Faltou, no campo, a ousadia que sobrou fora dele. O olhar voltou-se mais para as câmeras do que para o gramado.

Talvez o futebol brasileiro esteja vivendo justamente essa passagem: da arte para a performance, da criatividade para a gestão da imagem, da alegria para o cálculo.

Mas, pelo visto, nós, torcedores, seguiremos investindo nossos modestos trocados, agora muitas vezes nas plataformas de apostas esportivas, alimentando a velha e indestrutível esperança de que, na próxima Copa, o Brasil resgate a sua verdadeira essência e volte a fazer aquilo que sempre encantou o mundo: jogar futebol sem medo de jogar futebol.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

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