Educação Especial contra as receitas pedagógicas fáceis de ensinar – por Demetrio Cherobini
“A educação, sobretudo para crianças com necessidades especiais, é uma arte”

As redes sociais estão cheias de propagandas sobre métodos supostamente “infalíveis” para a educação de crianças com necessidades especiais. Segundo os anunciantes, basta comprar, pagar e aplicar os princípios descritos e os problemas estarão resolvidos. Tudo parece simples e direto.
Mas a realidade é bem mais complexa. A educação especial trabalha com sutilezas próprias da subjetividade humana e que não se enquadram, via de regra, em receitas. Os métodos, por certo, têm sua importância e os conhecimentos científicos são bem-vindos, mas a educação vai além disso.
A educação, sobretudo para crianças com necessidades especiais, é uma arte – principalmente, uma arte de se relacionar – que busca inspirar autoconfiança, autonomia, senso de responsabilidade e desejo de saber. Essa arte não se compra pronta no mercado, ela é aprendida com reflexão e prática permanentes, experiência, persistência, paciência, boa vontade, senso crítico e autocrítico, além de uma boa dose de tentativa e erro.
Relacionar-se é mais do que esquemas de avaliação e ação que se “aplicam” a um indivíduo qualquer, como uma ferramenta padronizada que se usa para fixar um prego entre outros pregos. Relacionar-se diz respeito ao contato entre duas singularidades humanas e ao estabelecimento de vínculos permeados por papéis sociais, palavras, gestos, olhares, formas de expressão, sonhos, projetos, anseios, carências, expectativas, afetos.
Sobretudo afetos. Crianças que assimilam, de seus pais e professores, estabilidade emocional, sentimentos de segurança, ânimo, coragem e perseverança, para superar desafios, certamente têm mais chances na vida do que aquelas que aprendem o desânimo, a apatia, a preguiça, a dependência excessiva, a inibição e a manha. Por isso se pode afirmar que a educação especial, de fato, transcende as “receitas pedagógicas” que reduzem o ensino a aplicação mecânica de testes e a mero reforço de condicionamentos.
Ademais, a educação especial se orienta por princípios éticos e políticos: trata-se de ensinar um determinado conjunto de sujeitos humanos que, durante a maior parte da História, foram esquecidos e desprezados pela sociedade, quando não encarcerados e mortos – o exemplo do nazismo e seu extermínio sistemático de pessoas com necessidades especiais foi a experiência mais brutal e trágica a esse respeito.
Não é exagero, portanto, dizer que a educação especial abrange mais do que a simples “inclusão escolar”: ela compõe todo um projeto civilizatório de resistência ao embrutecimento coletivo e superação da desumanização reinante. Por isso, as pessoas com necessidades especiais precisam ser educadas, para poder participar com dignidade da sociedade e contribuir com ela ao seu modo.
Por tais razões, no meu trabalho como educador, cuido sempre, em primeiro lugar, não de ter “o método infalível”, mas principalmente de estabelecer uma boa relação com meus estudantes. Os afetos envolvidos são de seriedade, aceitação e respeito por suas singularidades. Da mesma forma, evito mimá-los, satisfazer seus caprichos infantis e ficar à mercê de quaisquer comportamentos regressivos, pois isso seria o contrário de educar.
Estabelecida essa relação positiva, passo a ser afetuosamente exigente com meus alunos e a usar, agora sim, os métodos que melhor possam ampliar seus horizontes de conhecimentos e seus interesses intelectuais. Nem sempre é fácil realizar esse propósito, devido aos múltiplos fatores condicionantes da educação, mas a diretriz permanece.
Todos os adultos que convivem com crianças com necessidades especiais devem estar atentos aos afetos presentes nas relações estabelecidas em situações de ensino. Eles são a base para o desenvolvimento de indivíduos livres e autodeterminados. Mesmo que ainda falte muito para uma vida realmente emancipada no âmbito geral da sociedade, as boas conquistas individuais já são algo dignificante e animador.
(*) Demetrio Cherobini, professor da rede municipal de Santa Maria, é licenciado em Educação Especial e bacharel em Ciências Sociais pela UFSM, mestre e doutor em Educação pela UFSC e pós-doutor em Sociologia pela Unicamp.





O texto traz uma reflexão necessária. Em tempos de promessas rápidas nas redes, é essencial lembrar que educação especial não se resume a métodos “milagrosos”. Cada criança é única, e a relação construída com ela é insubstituível. Não deveríamos valorizar mais a formação contínua e o vínculo humano do que soluções prontas?
‘As redes sociais estão cheias de propagandas sobre métodos supostamente “infalíveis” para a educação de crianças com necessidades especiais.’ Nunca vi nenhuma.