O legado de Francisco e o futuro da Igreja – por José Renato Ferraz da Silveira e Breno Dotta de Brito
“O papa latino-americano partiu, mas seu ‘furacão’ continua a soprar”

Qual é o seu legado? Que marca você deixará ao partir? Terá tornado o mundo diferente e melhor? Qual influência terá causado? Dizem que o bater de asas de uma borboleta na África pode causar um furacão na Flórida. Pois bem, que furacão sua passagem pelo mundo causará?
O papa Francisco causou um grande impacto mesmo com uma Igreja menos poderosa do ponto de vista geopolítico.
É o Primeiro Francisco. O Primeiro papa latino-americano. O Primeiro jesuíta. O papa misericordioso.
Durante os doze anos de pontificado, Francisco trabalhou intensamente por um novo modelo de sociedade, baseada na fraternidade e na defesa e preservação do meio ambiente. Por isso, seu pontificado contribuiu, de maneira inovadora, a Doutrina Social da Igreja (DSI), conjunto de ensinamentos e princípios que visa orientar os fiéis católicos na aplicação dos valores cristãos à vida social, econômica e política, com o objetivo de construir uma sociedade mais justa e humana.
Vale lembrar que a Igreja Católica é a maior instituição espiritual do planeta, com dois milênios de história e 1,3 bilhão de aderentes, a Igreja Católica sempre exerceu grande influência geopolítica.
Não podemos esquecer que “papas foram grandes líderes militares, comandaram extensos territórios e ditaram o rumo de nações, ordenaram cruzadas, herdando a estrutura do Império Romano. Mesmo após a Reforma e o Iluminismo, mantiveram poder político em países de maioria católica”.
O combativo e intenso século 20, com duas guerras mundiais e a fria, mudou isso de vez. A Igreja começou a perder a sua força geopolítica.
João Paulo 2º por longos 27 anos, encarnou a resistência do seu Leste Europeu à dominação soviética.
Visitou países comunistas e manteve ativa participação com os movimentos que ajudaram derrubar a Cortina de Ferro.
João Paulo 2° teve como sucessor: Bento 16 em 2005. Houve um alinhamento ao conservadorismo que ganhara força com as duas eleições de George W. Bush nos EUA.
“Bento 16 pregou uma Igreja menor e mais coesa – e saiu derrotado”.
Bento 16 renunciou, e Jorge Mario Bergoglio, “um argentino de forte tonalidade peronista, o particular tipo de esquerdismo paternalista que marca a política do seu país, foi sagrado papa em 2013”.
Francisco, o novo papa, se alinhou a ideais progressistas. “Fez aberturas inéditas a grupos marginalizados na Igreja, como os homossexuais, embora nunca tenha mudado a doutrina”.
Francisco ensaiou algumas “leituras políticas do mundo em desencanto”: discursos contra o populismo e o combate à mudança climática.
Morto aos 88 anos, Francisco deixa um legado importante: soube traduzir suas intuições para uma Igreja mais humana, solidária, progressista. No seu último discurso, celebrou a ressurreição. Pediu paz em Gaza. Abençoou o povo e foi descansar. Foi embora como viveu: com coragem e compaixão. E, de certa forma, influenciará a decisão (nomeou 80% do colégio de cardeais eleitores) do sucessor que deve seguir sua obra reformista.
A escolha do próximo pontífice é um momento decisivo. Ainda que a Igreja tenha perdido parte de sua influência política direta ao longo dos séculos, a eleição de um novo papa permanece um evento de repercussão global, com implicações simbólicas e diplomáticas. O perfil dos cardeais escolhidos por Francisco indica uma preferência por líderes que compartilham sua visão de uma Igreja menos hierárquica, mais atenta às periferias e às urgências sociais, como a pobreza, os direitos humanos e a crise climática. O próximo papa terá diante de si o desafio de aprofundar, ou reformular, esse projeto.
A herança de Francisco é relevante em um mundo marcado por tensões geopolíticas, nacionalismos renovados e a emergência de novos polos de poder. Sua defesa da fraternidade universal ressoa como uma resposta espiritual à fragmentação política e social da contemporaneidade. Não se tratou apenas de mensagens simbólicas, o papa Francisco buscou se engajar diretamente em causas globais, como a mediação de conflitos, o apoio a refugiados e a crítica a modelos econômicos excludentes.
Ao mesmo tempo, Francisco enfrentou resistências internas, vindas tanto de setores conservadores quanto de alas preocupadas com a velocidade e a extensão das mudanças. Sua liderança, portanto, foi marcada por tensões que não se resolveram integralmente em seu pontificado, e que agora se tornam ainda mais visíveis. O futuro da Igreja agora dependerá da habilidade de seu sucessor em navegar por essas tensões, conciliando tradição e renovação em um cenário mundial cada vez mais desafiador.
O papa latino-americano partiu, mas seu “furacão” continua a soprar, com suas ideias provocando movimentos de transformação, dentro e fora da Igreja. Francisco demonstrou que, mesmo em uma era de aparente declínio da influência espiritual na política global, lideranças carismáticas e comprometidas com causas universais ainda têm o poder de moldar consciências e inspirar mudanças. Sua memória, assim como suas ações, ecoará no Vaticano e no mundo por muitos anos.
(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Associado IV da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP)
Breno Dotta de Brito (russo) é graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e membro do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).





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