O conto da fada má – por Bianca Zasso
Minha relação com o conto infantil A bela adormecida é antiga. Numa coleção de livros que ganhei muito tempo antes de aprender a juntar as letras, a história da menina que cai num sono profundo e só pode ser despertada por um beijo de amor verdadeiro era a minha preferida. O carinho aumentou quando fui presenteada com o VHS da famosa versão de 1959 do clássico, que cansou as cabeças do vídeocassete lá de casa de tanto que foi assistido.
Foi o primeiro filme da minha vida. Nascia uma cinéfila e também uma apaixonada por vilãs. Afinal, era impossível uma garotinha de grandes olhos castanhos, dentuça e com vocação para pestinha se identificar com uma princesa loira, delicada e simpática até dizer chega. O meu coração era da moça responsável pela maldição que quase acabou com a vida da mocinha Aurora. Malévola tem lugar especial na minha vida há tempos e agora promete conquistar novos fãs mostrando que nem todo mal é gratuito.
Malévola, estrelado bela linda e talentosa Angelina Jolie e dirigido por Robert Stromberg, está a par com o seu tempo. Não basta uma princesa, um príncipe, uma bruxa e um conflito para agradar os pequenos. A inocência foi perdida, ainda bem! Crianças sabem que separar o bem e o mal é pura ficção. Até a mais bondosa das criaturas tem seus momentos de ódio e vingança. Seja desejar um tropeção a alguém ou uma resposta atravessada, todos temos nosso momento “bruxa má”. Malévola é uma metáfora sobre isso. Aliás, pra começo de conversa, nem bruxa ela é.
Malévola mostra como uma menina fada disposta a tudo para manter seu reino protegido pode fazer após uma decepção amorosa. Mas e cadê a princesa Aurora, a tão falada bela adormecida? Ela é coadjuvante. No tribunal dos contos, chegou a vez de ouvir a versão da vítima, no caso, a vilã que ganhou fama por quase destruir a vida de uma aspirante a rainha.
Malévola nos é apresentada como uma mulher que mudou sua forma de encarar o mundo após ser traída pelo suposto amor de sua vida. Sua maldade tem motivo, não é algo natural, mas sim um sentimento que surge ao longo de suas descobertas. Ao mesmo tempo, a garota inocente e prestativa que Malévola foi um dia aparece em pequenos atos da protagonista, mesmo que seu intenso olhar seja de rancor.
Tanto os efeitos especiais quanto os figurinos baseiam-se na animação, onde os tradicionais chifres e a sensual boca vermelha da protagonista ganham destaque, assim como os raios verdes que marcam as mágicas praticadas pela fada. Ambientada em um clima medieval, os cenários escuros do mundo de Malévola contrastam com a luminosidade presente ao redor de Aurora, interpretada de maneira simpática pela jovem Elle Fanning na fase adolescente.
Para a parte dos espectadores que desconhece a versão em animação dos estúdios Disney, Malévola é um convite à diversão e a uma história mágica contada sobre o ponto de vista de quem está do lado negro. Já para os amantes do conto original, é a oportunidade de ganhar uma nova versão para chamar de favorita.
Como integrante deste último grupo, posso dizer que estou mais encantada com a minha vilã favorita e tenho a certeza que minha preferência pelas personagens morenas e com moral duvidosa vai durar muito ainda. Até o fim dos meus dias, ouso dizer.
Malévola (Maleficent)
Ano: 2014
Direção: Robert Stromberg
Em exibição nos cinemas





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