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Moças de Enforcados e rapazes de Paredão – por Luciano Ribas

Que há lugares batizados com nomes curiosos todos sabemos. Pau Fincado, Rincão dos Feios, Beijo das Freiras, Jardim das Piranhas, Chuvisco, Coxixola, Nhecolândia, Pessoa Anta, Veado Velho, Recursolândia, Bem-Bom e até mesmo Boquete. A diversidade é tanta que rende um sem número de piadinhas sem graça, como a que diz que “moça de Curralinho não pode casar com rapaz de Pau Grande”. Aliás, isso nos lembra como ainda podemos ser uma imensa e gritante “A praça é nossa”…

Mas, além da curiosidade intrínseca a simples existência de tais nomes, há o inusitado que surge quando eles se encontram. É isso que dá alguma graça ao improvável casamento da curralinense com o pau-grandense. Ou que me levou a colocar Bem-Bom e Boquete fechando a lista acima – afinal, eu também não estou imune a esse espírito “praçanonsense” que volta e meia nos assalta.

Nem sempre, porém, a curiosidade nasce do humor chulo. Algumas vezes são questões muito pessoais, como o cruzamento das ruas Floriano Peixoto e Venâncio Aires, que eu achava muito bacana por ter os nomes dos meus avôs, Floriano e Venâncio. Como eu disse, algumas questões são muito pessoais.

Já entre Santa Maria e Cachoeira do Sul há uma placa que indica dois destinos que, isolados, são interessantes, mas que postos lado a lado ganham contornos quase surreais. Para um lado, temos o caminho para Enforcados, que intuo ter este nome por ali ter ocorrido algum fato trágico. Para o outro, podemos seguir rumo ao Paredão, provavelmente um acidente geográfico, mas que posto em oposição a “Enforcados” não deixa de me lembrar do paredón castrista.

Ou seja, sei que parece estranho mas, nesta minha cabeça viajante, a partir daquele ponto o destino poderia ser a forca ou o fuzil. Isso, é claro, se não houvesse uma terceira opção, que é seguir em frente na estrada que leva a Cachoeira do Sul; e isso me é útil para lembrar que, na vida, dificilmente ficaremos presos “entre a cruz e a espada”.

Quase sempre há uma terceira opção, no mínimo. E esta opção geralmente nasce da racionalidade, da reflexão, do pensamento colaborativo, do reconhecimento dos limites das nossas ideias. Coisas fáceis de falar, difíceis de fazer, mas que exigem que insistamos nelas para que não cheguemos a um nível de radicalização extremo, onde as nossas únicas ações venham a ser fuzis e forcas (mesmo que simbólicos).

Moças e rapazes de Enforcados provavelmente casem com rapazes e moças de Paredão desde sempre. Um dia, talvez moças de Enforcados possam se casar com moças de Paredão e rapazes de Paredão com rapazes de Enforcados sem que ninguém queira lhes passar a corda no pescoço ou meter-lhes uma bala na testa. Até lá, a luta contra as forcas, os pelotões de fuzilamento, as cadeiras elétricas, as injeções letais, os esquadrões da morte, os espancamentos, os bolsonaros e o felicianos, continua. É o que nos resta, é o que nos move, é o que nos mantêm vivos.

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